Quando as bloggers deixaram de ser mulheres reais e se tornaram numa mentira De Chiara Ferragni a Andy Torres, será que ainda nos vendem sonhos ou foram compradas pela indústria da moda?

14 de setembro de 2014


Sempre me senti fascinada por esta cultura da vida real que saltou dos reality shows para a internet com a saga dos blogs. Começámos a ser bombardeados 24h por dia por pessoas de todos os cantos do mundo que, no caso dos blogs de moda, têm uma aparência impecável, se vestem maravilhosamente bem e saem de casa, todos os dias, como se tivessem saltado de um desfile de moda. O mesmo se aplica aos blogs da vida real onde podemos assistir diariamente da nossa casa ao que se passa na vida das outras pessoas. As suas histórias, os seus dramas, os seus amores, os seus gostos, os seus sentimentos, pensamentos... E isto vai levar-nos automaticamente a identificarmo-nos com pessoas que não conhecemos mas que sentimos que vivem, sentem e pensam o mesmo que nós. Deixámos de estar sozinhos para vivermos constantemente acompanhados pelas histórias dos outros.

Em 2004, oito mil blogs eram criados por dia. Em 2010, esse número já ia nos 175 mil! Nos dias de hoje, deve ter triplicado. A internet fez com que as opiniões deixassem de ser exclusivamente emitidas pelos profissionais em si e direccionadas para um público de milhões de pessoas. Hoje, os conteúdos passaram a ser criados por esses milhões de pessoas que, antes, eram meros expectadores. E isto veio revolucionar toda a comunicação social, e não só.

No caso da indústria da moda, de uma forma que, provavelmente, nem as próprias marcas alguma vez imaginaram. Há cinco ou seis anos atrás ninguém se preocupava com isto. Não tirávamos fotografias ao espelho. Não nos vestíamos igual a toda a gente à nossa volta. E fazer um registo diário da roupa que se usava seria, em última análise, estúpido. Porque iríamos vestir a primeira coisa que tirámos do roupeiro antes de ir para as aulas. Eu tinha um fotolog para partilhar fotografias com as minhas amigas, festas da faculdade, viagens, férias... Não roupa. Nem maquilhagem. Nem acessórios. Nem penteados. Nem compras...

E então, surgem as bloggers de moda. Raparigas reais, iguais a qualquer uma de nós, que nos inspiravam com os seus looks. Olhando para elas, qualquer mulher pensava que podia ser ela ali, naquela fotografia, a usar aquelas roupas. As bloggers tornaram a moda numa cultura popular das massas e isso só foi possível graças aos fenómenos do hiperconsumismo e hipernarcisismo que, aos poucos, acabou por chegar a praticamente todo o mundo. Este foi o momento em que uma coisa publicada online por uma rapariga podia tornar-se uma tendência à escala global e ter um impacto na própria indústria que cria tendências. Elas deixaram de ser criadas para um público mas sim pelo próprio público.

E isso trouxe o lado mau dos blogs. Ao se tornarem um negócio, deixaram de ser um reflexo da vida real. E é isso que muita gente ainda não percebe. As bloggers deixaram de ser mulheres como qualquer uma de nós e passaram a ser modelos. E as imagens que consumimos diariamente deixaram de ser uma comparação com a nossa própria vida e passaram a ser editoriais de moda. Fica difícil conseguirmos criar uma identificação com pessoas que deixaram de ser banais e passaram a ser altamente produzidas em cada imagem.

Elas deixaram de se vestir a elas próprias e passaram a ter uma equipa por detrás delas. Têm quem lhes escolha as roupas, maquilhe, penteie, fotografe e edite as imagens. E elas só têm de passear pela rua e continuar a fazer-nos crer que acordaram assim de manhã. Vendem um sonho, é verdade. Mas o conceito de blogger que surgiu, nos seus primórdios, numa tentativa de tornar a moda uma indústria mais real e acessível, voltou ao seu ponto inicial.

As raparigas já não querem ser modelos. Agora, querem ser bloggers. E acreditam que para isso têm de ter o corpo perfeito, a maquilhagem perfeita, os cabelos perfeitos, a roupa perfeita... e vivem em função deste sonho TODOS OS DIAS!

Se antigamente conseguíamos controlar esta realidade, porque eram as capas das revistas que nos enganavam (e nós sabíamos que estávamos a ser enganadas), como vamos conseguir lidar com estas "mentiras" se, hoje, estão acessíveis, e gratuitamente, em todo o lado mal abrimos a internet? 

E, acima de tudo, questiono-me como vamos ensinar as jovens mulheres de hoje que as bloggers deixaram de ser mulheres reais e tornaram-se uma mentira controlada pela indústria da moda que lhes dita o que fazer, como ser, o que vestir, onde ir e como se apresentar.


7 comentários

  1. Clap Clap Clap. Não acrescentava mais nada. Hoje em dia nos blogs de moda tudo é planeado até ao mais pequeno detalhe, até mesmo aquelas fotografias que se mostram como acordaram de manhã têm planeamento; o cabelo tem de estar daquela forma, tem de existir aquela luz, etc. É hora de voltarmos a descobri a nossa própria identidade e principalmente é hora de admitirmos que também temos momentos em que que parecemos um bicho do mato acabado de acordar. Beijoca grande baby girl xx

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  2. Tão verdade. Tem tudo photoshop e tanto tratamento em cima... elas já não se vestem normalmente diariamente e já não usam roupas normais... parecem saídas do desfile... enfim...

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  3. Ah ah ah ah ah finalmente alguém que tem algo de interessante para escrever. Concordo com tudo tudo tudo! Eu adoro ver as fotografias de todas essas bloggers mas já não numa de me inspirar porque não vou usar nada daquilo nem ninguém se veste na vida real assim. Mas vejo por curiosidade, porque são bonitas e autênticas produções de moda. Vejo da mesma forma que folheio uma revista.
    Por outro lado, gosto das tuas sugestões de looks. Não são tão profissionais como esses, é verdade, mas são reais e terra-a-terra.
    Parabéns !!!

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  4. Este comentário foi removido pelo autor.

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  5. Ah ah ah ah ah ah há algumas bloggers que antes eram terríveis. Não tinha a noção da diferença...

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  6. Não tinha lido este artigo quando escrevi o meu sobre os blogues .. e identifico-me bastante bem cm o que dizes. Em Portugal as coisas vão acontecendo devagar mas já se vê isso também. Acabo de ver uma imagem da Cristina Ferreira em Marrocos (nem sei bem o que ela lá foi fazer com a equipa de fotógrafos, maquilhadoras e stylists todos atrás) a passear pelas ruas de vestido de pele vermelho, ténis da Adidas (pois claro), um chapéu e uma mala que nada têm a ver com nada e penso: "Será mesmo isto real"? "Mas onde está a veracidade disto"? "Como é que alguém pode consumir uma falsidade e um conto destes"? Isto não é real. Por favor ...

    A verdade é essa .. É o que o "sistema" criou.

    Um beijinho

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    1. Pois, já tínhamos falado sobre isto... deixou de ser real e street style e passou a ser "saídas da catwalk" e acho que foi o sistema que criou óbvio... vamos ver para onde caminhamos...

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