O amor é outra coisa #10 Eu juro que não queria sair no sábado à noite

20 de julho de 2015


Eu juro. Eu juro que não me apetecia sair no sábado à noite. Já estava em casa, despenteada, de calções e meias, sem maquilhagem. Anda lá, o fulano está aqui, dizia-me um amigo numa mensagem. Mas já estou feia, de pijama, respondi. Mas ele veio de propósito porque eu lhe disse que vinhas, e tocou-me na alma. Nunca me tinha vestido tão rápido na vida. Desci as escadas do prédio, sandálias na mão, corri em bicos de pés da porta até ao carro, não fosse furar um pé com uma pedra, e arranquei para o bar. Estão a ver aquele stalking virtual que todas fazemos antes de concluir que fulano é um bom partido? Foi o que eu fiz. Foi por isso que saí tão rápido. Jornalista, músico q.b, presença assídua em imensas conferências e jornais e sempre com t-shirts de bandas improváveis de eu ouvir mas que lhe davam um ar de desalinho. Se há tipos que me fascinam profundamente, são os inteligentes. Nada me conquista mais rápido que uma cabeça. E isto é cada vez mais raro. Se ele se tinha deslocado à minha procura, como não responder ao apelo humano?

E ele lá estava, de facto, no bar com os meus amigos. Armei-me em desinteressada, olhei para todos menos para ele, como se nem tivesse dado pela sua presença. Como se nem há vinte minutos atrás tivesse andado a vasculhar o seu Facebook. E acreditem, nada deixa um homem mais inflamado que esta indolência propositada. São como pequenos seres de cinco anos que só querem o brinquedo que não podem ter. Não sei como, nem quando, mas acabámos sozinhos no sofá bafiento no canto do bar. Lembrem-me de agradecer mais tarde ao meu amigo que me deixou ali. Não é que o tipo não fosse simpático, que era. Ou que não fosse lindo de morrer, que era. Ou que não cheirasse tremendamente bem, que cheirava. Mas sofás, copos, bares a meia luz e sábados à noite não são prenúncios de coisas boas.

Conversa puxa conversa e já estávamos num rol de falsas intimidades despoletadas por copos a mais. E eu nem bebo, atenção. A minha embriaguez era aquele perfume e aquela gargalhada que ele dava, sempre que eu dizia tipo. Dizes tipo a cada frase, dizia ele. Mas tipo é um advérbio de modo, respondi. Tipo não existe, disse. Mas, tipo, eu digo o que me apetece a um sábado à noite. Isso é bué engraçado, comentou ele. Ninguém com mais de 15 anos pode dizer bué, disse-lhe. Mas bué é um adverbio de quantidade, respondeu. Entre o tipo e o bué, tu ganhas na estupidez verbal, respondi.

Já tinha dado a noite por terminada, concluído que ele era um deus do Olimpo a todos os níveis e estava pronta para me ir embora dali para fora. Não é que a companhia não fosse boa, que era. Mas, sejamos realistas, algo de decente pode acontecer depois das quatro da manhã? Não. Este é o teu carro?, perguntou quando parei em frente a um preto. É o meu carro, respondi. O meu está ainda um pouco longe daqui, levas-me até lá?, questionou. Porque não? Uma mera boleia. Agradecia se tivesse feito o mesmo comigo. E lá fomos, no meu carro, até ao carro dele. Parei, meti em ponto morto e olhei para ele. E ele saltou-me em cima com tanta rapidez que só tive de tempo de virar a cara e afastá-lo enquanto a boca dele me lambuzava o pescoço todo. A sério que ele achou que íamos, sei lá, enrolar-nos no meu carro ali na 24 de Julho? Eu só o olhei para me despedir. Não foi um olhar de come on baby light my fire, foi um olhar de vai-te lá embora que estou a morrer de sono com um pouco de espero que me ligues amanhã. Porque é assim que as coisas são. É por isso que um Toyota demora 13 horas a ser feito e um Rolls Royce demora seis meses.

De repente, já o perfume dele me agoniava e só o queria ver dali para fora. Vi-me e desejei-me para me livrar dele que não parava de perguntar porquê? Porque é que não me deixas beijar-te? Porque é que estás sempre a virar a cara? Porque é que és assim? #hello? Isto assusta-me profundamente. Assusta-me que um homem conheça uma mulher e ache que, por ela lhe dar conversa, quer imediatamente saltar-lhe para as cuecas. Demorei uns bons 15 minutos para me livrar do fulano e meti pé a fundo no acelerador pela marginal fora até casa.

Obrigada por me teres deixado lá com o fulano. Estive a desinfectar o meu pescoço, escrevi, meio adormecida às seis da manhã, numa mensagem para o meu amigo. Deitei-me na cama, já o dia começava a nascer lá fora, com a certeza absoluta de que esta noite me ia valer mais uma ruga na testa.


17 comentários

  1. Tu és uma delícia meu bem !
    #osbásicosdesempre
    Beijo
    XXxx

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  2. Eu só o olhei para me despedir. Não foi um olhar de come on baby light my fire, foi um olhar de vai-te lá embora que estou a morrer de sono com um pouco de espero que me ligues amanhã. Porque é assim que as coisas são. É por isso que um Toyota demora 13 horas a ser feito e um Rolls Royce demora seis meses.

    É tão verdade ehehehe :)

    Também penso assim... mas infelizmente há muita gente que não pensa assim. É por isso que as relações são cada vez mais tão descartaveis.

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  3. ahahaha agora já percebo porque já tenho tantas rugas na testa...

    Adorei a crónica xD quero mais !!!
    beijinhos
    Joana (uma leitora assídua)

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  4. Adorei todo o texto!, adoro a maneira como escreves. Que mania os homens têm de achar que isto é tudo assim tão fácil.

    Lena's Petals xx

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    1. Mesmo... acho que eles estão programados para acharem que, se falamos com eles, estamos interessadas. As palavras romance e conquista já não fazem parte do seu dicionário :P

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  5. Ahaha gostei do final :-) Eu sei que há excepções mas homens assim, na grande maioria das vezes, não interessam...

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  6. Mais um grande texto, Helena. Estou seriamente a tornar-me viciada!!

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  7. "Jornalista, músico q.b, presença assídua em imensas conferências e jornais..." só ficaste toda interessada porque ele é famoso. Tanto criticas mas só ligas às aparências...

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    1. É verdade só mostra a futilidade desta pessoa.Isto não e feminismo é uma vergonha para as mulheres.

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  8. Grande texto e grande mulher! :D

    Amei este post. Sabes aquela conversa dos blogs que irão naturalmente "morrer"? Ain't gonna happen here. A não ser que queiras muuuito. ;)

    Joan of July

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  9. Bem, já me aconteceu algo parecido... Os homens são burros nao há outra explicação. Não percebem mesmo nada. Se nos tratam como vulgares, estão à espera do quê? Ele enganou-se no sítio, devia estar no urban beach...

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  10. Mais um texto excelente! Já tive algumas situações parecidas. Enfim, homens, não há como entender...
    Um beijo,
    Patricia.

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  11. Um Toyota demora 13 horas, um Rolls Royce demora 6 meses. Certa noite, já estava de pijama e meias quando me ligaram a dizer que o novo Rolls Royce tinha vindo ao stand mais proximo para me ver. Eu sabia todas as características daquela máquina - estofos em pele, jantes de liga leve, e aquelas linhas que só de olhar já nos apetece fazer uma viagem até à China. No stand não dei parte fraca, embora tenha comprado a revista Auto só para o ver - olhava para os Chevrolets e para os Porches, só para fazer pirraça. Não sei como nem quando, quando dei por mim estava dentro do Rolls Royce. Tenho aquela mania estúpida de por o pé na embraiagem quando faço uma curva, mas o Rolls Royce tinha direção assistida, pelo que desliguei de imediato visto que todos os condutores com mais de 5 anos de carta não podem usar esta opção. O test drive estava feito e deu para perceber que era o carro dos meus sonhos. No fim, em plena 24 de Julho, metem me as chaves nas unhas tendo atirado as logo de seguida para o chão, com aquele ar de 'nao quero, prefiro afundar me num crédito quase impossível só para te ter'. Afinal, um carro para ser digno de eu conduzir leva o seu tempo ne? Vim para casa a pé, com a certeza que o 737 passa de 15 em 15 min

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