40 verdades (nem sempre boas) sobre as relações

18 de setembro de 2015


Grande parte da nossa cultura cria em nós a expectativa de que a vida é suposto ser um dia feliz na piscina a apanhar sol, a beber uma Margarita e a ler um livro - sem preocupações. Mas a vida real está longe de ser este cenário em todas as áreas da nossa vida. Temos patrões horríveis, ficamos presos em empregos que odiamos, temos famílias disfuncionais, problemas de dinheiro e, na vida a dois, esperamos pores-do-sol, flores, caixas de chocolate e viagens a Paris. Esperamos encontrar alguém que nos salve de todos os nossos problemas embora, muitos de nós, tenhamos experienciado negativismo na relação dos nossos pais durante a nossa juventude - mesmo assim, em alguma fase da vida, todos já acabámos entupidos de expectativas românticas irreais.

Quão diferente seria a nossa vida se, juntamente com ciências da natureza e história, tivéssemos aprendido sobre relações (e isso inclui um manual sobre saber amar)? A maioria das pessoas não se lembra de nada sobre os aminoácidos e as datas históricas são para os jogos do Trivial - mas estamos em relações intimas durante décadas, se não durante toda a nossa vida, e recebemos pouca ou nenhuma orientação sobre como lidar com elas.

É cliché, eu sei, mas as relações são difíceis. Muuuuuuito difíceis. Implicam compromisso, dedicação, trabalho e fazermos coisas pelo bem-estar de outra pessoa além de nós próprios. E, ao contrário, do que a nossa cultura nos tenta impingir, o amor não é um sentimento. Amor é agir. Não gostamos de uma pessoa quando estamos a 700km e a sua companhia virtual nos dá algum conforto à solidão. Gostamos dela quando voltamos e só queremos a sua companhia real.

A partir do momento em que aceitamos que todas estas expectativas são idiotas e amor é muito mais que nos sentirmos plenamente felizes e completos a tooooda a hora, talvez assim seja mais fácil conectarmo-nos aos outros. Na minha opinião, acho que assim é mais fácil, acima de tudo, não magoarmos os outros.

E eu estou longe de ser uma expert (não me atirem já com pedras) mas entre o que tenho lido e o que tenho vivido, posso dizer-vos que se, quando chegássemos à adolescência, nos entregassem um manual sobre amor, muitas relações/casamentos seriam salvos.

Alguns dos lembretes que iríamos reter para o resto da vida seriam:
  1. Vai haver alturas em que nos vai apetecer mandar tudo à merda.
  2. Mas nessas alturas, normalmente, é quando aprendemos mais sobre a nossa relação.
  3. Não nos vamos sentir apaixonadas pelo nosso parceiro a tooooooda a hora. Há momentos em que precisamos de estar separados pelo bem da sanidade mental de um casal.
  4. Vamos sentir-nos sozinhas, por vezes.
  5. E irritadas, cansadas e fartas dele também.
  6. O sexo também precisa de empatia.
  7. E vai sempre haver alguém que quer mais do que tem.
  8. Os mitos sobre sexo? Nem sei por onde começar - se não têm sexo 3 ou 4 noites por semana, não, não há nada de errado convosco.
  9. E, por vezes, poderemos perguntar-nos se não existe outra pessoa melhor algures por aí.
  10. Mas, na maioria das vezes, não passa disso mesmo: pensamentos.
  11. Não nos vamos sentir atraídas pelo nosso parceiro toooodos os dias. E isso é normal. O amor vai muito mais que atracção física e todos temos dias bons e dias maus. 
  12. Vai haver noites em que vamos querer sair e esconder a aliança.
  13. E isso não significa que já não gostamos dele. Sentirmo-nos desejadas faz bem à alma.
  14. Não somos siameses - não temos de fazer tuuudo igual nem gostar das mesmas coisas.
  15. E deixarmos de "gostar" de cinema porque agora "gostamos" de teatro não é saudável.
  16. Romance não são só rosas, jantares à luz das velas e viagens surpresa a Paris.
  17. Mas fazer um sorriso verdadeiro nos jantares de família chatos, limpar o gelo do vidro do nosso carro de manhã enquanto tomamos o pequeno-almoço e deixar-nos o último iogurte de pedaços de morango também.
  18. Ter dúvidas, por vezes, não significa que não se gosta.
  19. Porque o medo faz parte da nossa vida. E da nossa relação também.
  20. E o medo manifesta-se de inúmeras maneiras.
  21. Por vezes vamos querer outra relação, outra coisa e outra pessoa. Nessas alturas faz bem ter consciência da perda e do que isso significaria para nós.
  22. O amor alterna entre sentirmo-nos conectados e desconectados.
  23. E os momentos de desconexão trazem, na sua maioria, medos e dúvidas. Como a 21.
  24. Vamos comparar a nossa relação à dos nossos amigos e pensar que eles são mais felizes que nós.
  25. E o Miguel Araújo tem razão. Os maridos das outras são.
  26. Mas nunca sabemos como são (realmente!) as relações por detrás da porta de casa.
  27. Vamos ver-nos uns aos outros no nosso pior.
  28. Mas muitas vezes isso traz ao de cima o melhor das relações.
  29. Se um homem não vos aceitar nos vossos períodos mais negros, dêem-lhe um chuto no rabo.
  30. Por vezes vamos gritar.
  31. Amuar.
  32. Dizer coisas que não sentimos.
  33. E magoar-nos uns aos outros.
  34. Mas aceitar realidades como estas faz parte da condição de se estar numa relação com outra pessoa.
  35. Bem como aceitar que muita da bagagem que trazemos do passado vai interferir no presente.
  36. Vamos sentir-nos desvalorizadas muitas vezes.
  37. E vamos ter de engolir o orgulho e fechar a boca a todos as coisas más que estão prestes a explodir.
  38. E, voilá, vamos ter de nos calar, não para nosso próprio bem, mas para um bem maior: a relação.
  39. Não há certezas absolutas e vamos ter discussões sem sentido.
  40. Mas vai haver vezes em que vamos ter de pedir desculpa primeiro.
Mesmo que, dentro de nós, não estejamos a sentir que o devamos fazer. Porque gostar de alguém, por vezes, é isso: baixar a guarda.


10 comentários

  1. Excelente post, Helena. Revi-me em tanto do que escreveste - e o que me custou a aprender isso! Em relações longas a linha entre a paixão/amor/conforto torna-se tão ténue que às vezes é bom lembrarmo-nos que a vida não é um filme cheio de emoções lancinantes.

    Jiji

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  2. Adorei os 40 lembretes e identifiquei-me com praticamente todos. Em alguns momentos da minha vida já senti todas essas coisas :-)
    Parabéns.
    Um beijinho
    Sílvia

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  3. Nada de novo, só observações clichés... como aliás é tudo o que esta menina escreve.

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    1. Esta menina parece que incomoda alguém desse lado, pq será...?

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  4. Adorei Helena. Há tantos mitos sobre como devem ser as relações que às vezes é mesmo possivel cairmos neles e estragar as relações por isso.

    Revi-me em muitas dessas ideias :)

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  5. A verdade é que de há décadas para cá, os jovens e crianças são todos mais dados a facilitismos. Isso tem o lado bom. Todos temos a agradecer ao google na nossa vida escolar, mas a verdade é que o facto de não nos custar tanto encontrar uma informação ou substituir um brinquedo de um dia para o outro, encontrando sempre mais e melhores, de forma tão simples, nos faz ser pessoas mais fracas, na nossa opinião. Pode ter muito de bom, mas também tem o seu quê de mau. A verdade é que não fomos habituado a arranjar um brinquedo que se estraga, mas a substituí-lo de imediato, mesmo quando o acabámos de receber. Desvalorizamos de tudo um pouco. Ora se diz que se ama este rapaz ora aquela rapariga, ora aquela cadeira ou aquele batom. Coisas não se amam. E pessoas... Bom não se ama todas as pessoas que conhecemos na vida. Por este motivo, acaba por se banalizar um pouco coisas que às vezes se passam de mal nas relações, por exemplo. Com isto não incentivamos a que continuem a sofrer de violência doméstica, mas simplesmente a que se entreguem mais; que procurem superar-se e não se rendam às menores situações que possam surgir. Nós quando decidimos namorar, foi com consciência que nem tudo é um mar de rosas; que não controlamos tudo; que não sabemos se para a semana continua a estar tudo bem; mas vamos fazer de tudo por isso! E achamos que isso é essencial!

    - Ela e Ele, do blogue de casal Ela e Ele, Ele e Ela.
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  6. Tão, mas tão verdade. Concordo com todas, mas acima de tudo gostei da simplicidade e da honestidade em cada uma das "verdades". Porque somos humanos e bem assim seres imperfeitos. E não há nada de errado nisso.
    Beijo grande minha querida.

    www.letirose.com

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  7. Oh Helena, tão bom este texto! Tão verdade! Identifiquei-me mesmo... :)

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