O AMOR É OUTRA COISA #42 Erro #1 das relações: tornarmo-nos uma personagem

29 de abril de 2016


No verão passado, conheci um tipo. Não lhe vou chamar tipo porque era boa pessoa. Conheci um homem 20 anos mais velho que eu e com quem criei uma boa relação porque passei férias na casa dele. Ou seja, 15 dias juntos onde tivemos longas conversas sobre relações humanas. Ele era divorciado e tinha ideias completamente vincadas sobre as mulheres.

Quando fazemos coisas estúpidas para encaixar na vida de alguém

As mulheres expõem-se desesperadamente perante um homem, disse-me ele uma vez enquanto comíamos amendoins na piscina. E isso faz com que um homem perca todo o interesse nelas. Ele tinha razão. Não conheço nenhum desse tipo de mulher, respondi a rir.



Mas na verdade conheço e sei que passo a vida a falar disto mas é um tema que está sempre a acontecer à minha volta: as mulheres querem obsessivamente uma relação. Não que isso seja mau - o amor é a melhor coisa da vida. Mas ao quererem sentir-se validadas perante os olhos de outra pessoa, acabam por deixar de ser elas próprias. Eu também já o fiz. Nenhuma meia laranja quer ser sozinha. Porque uma laranja aberta e cortada ao meio apodrece.

Isto é uma analogia mas responde a uma necessidade básica de sentirmos que somos aceites. Quando era mais nova, e conhecia um tipo de quem gostava, dava por mim a fazer coisas absurdas para me encaixar na vida dele. Ia a sítios onde não gostava, fazia coisas que não me interessavam e passava horas, dias, semanas a ser uma personagem de mim própria só para corresponder a algo que eu achava que ele iria gostar.

A noite em que quase ia ao Lux

Nunca, nunca, nunca, nunca me vou esquecer de uma noite estúpida em que estava a jantar com amigas e não parava de falar obsessivamente sobre irmos ao Lux. 

Pausa.

Eu odeio o Lux.

Mas um um tipo com quem andava a sair e por quem tinha uma paixoneta ia para lá e eu queria, porque queria, ir lá ter. No meio do jantar e de uma discussão, uma das minhas amigas gritou: Porque é que queres ir para o Lux atrás dele quando ele se está nas tintas para ti?

Ele estava-se nas tintas, era verdade. Só saíamos para irmos para a cama de vez em quando. Mas eu acreditava piamente que ele ia ver o quão apaixonado estava por mim. Só que não estava. Eu levantei-me da mesa, saí de casa da minha amiga, bati com a porta e fui embora. Não falámos durante umas duas semanas até eu lhe ter dito que ela tinha razão e ter agradecido pelo grito que me deu.

Nada será real se não formos nós próprios

Deixarmos de ser nós próprias para agradar a outra pessoa é o erro # 1 que podemos cometer nas relações.

Este homem que conheci no Verão dizia-me que só o amor por si só não bastava. Que gostar é muito bonito mas é preciso haver sintonia plena de vida. É preciso sermos nós próprios e encaixarmos perfeitamente no "eu próprio" da outra pessoa. Nunca vou voltar a casar, dizia-me ele. Porque as mulheres hoje em dia estão desesperadas por qualquer coisa e fazem de tudo para a ter.

É cliché dizer para serem vocês próprias e para não se sujeitarem a relações assim-assim por desespero ou por quererem à força estar com alguém. Mas é mesmo assim que tem de ser. Eventualmente, a outra metade da laranja aparece.

E ele voltou a casar, na semana passada.

Fotografia tirada por Faz de Conta Fotografia

8 comentários

  1. Eu não acho que querer muito ter uma relação seja necessariamente um defeito, nem tem que levar a esse tipo de desespero que referes. E olha que o oposto também acontece: a outra pessoa perder o interesse porque nos recusamos a ser uma personagem de nós próprias. Eu sou assim, acho que o amor é o melhor da vida e nunca sou tão feliz quanto numa relação, mas ao mesmo tempo recuso-me a fazer fretes. Coisas como ir ao cinema com o grupo de amigos dele ou ir a uma festa de família para mim são fretes porque não sou uma pessoa social e não tenho esse espaço na minha vida. E pela minha experiência, isto é tão prejudicial a uma relação quanto o contrário - mas recuso-me a fazer coisas com as quais não estou confortável.

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    1. Eu também acho que o amor é o melhor da vida :) Acho mesmo. Mas acho que, por vezes, confundimos amor com solidão, se é que me entendes. Tornamo-nos personagens exactamente quando vivemos em fretes, quando fazemos coisas que não queremos só para a outra pessoa gostar de nós. Se a outra pessoa perder o interesse porque não queremos ir ao cinema com ela e com o grupo de amigos dela, eventualmente seria alguém que, mais cedo ou mais tarde, ia acabar por sair da nossa vida. É por isso que digo que só gostar não basta. É preciso haver sintonia. Só quando há sintonia é que os fretes não existem, quer seja porque nada se torna um frete, quer seja porque a outra pessoa respeita as nossas vontades :) Belas ideias que tivemos aqui :)

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  2. ah ah ah adorei. Eu também já fiz coisas dessas. Acho que quando nos apaixonamos deixamos de pensar com alguma coerência. As vezes um bom grito faz milagres xD

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  3. Numa relação ambos terão que fazer fretes, mas sem vestir a personagem, sejam verdadeiros convosco e com os outros. Aí sim, as pessoas percebem-se, de outra forma não vai correr bem.

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  4. Todos nós devemos fazer coisas em prole dos que mais amamos, mas há coisas completamente diferentes e a linha é ténue. Por isso mesmo é importante falar disto vezes e vezes sem conta. Por isso mesmo é que o teu blogue é épico!

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  5. Concordo, mas entendo que há coisas que fazemos pelo outro porque sabemos que é importante para ele (ela), e isso acontece também numa relação de amizade. Aqui a linha, a meu ver, é não fazer o que vai contra a nossa natureza.

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  6. Análise muito interessante. Também já estive nessa situação (já todos estivemos, provavelmente). Mas não acho que seja uma coisa exclusivamente feminina. Acho que há homens a fazer o mesmo.

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  7. Maravilhoso! Muito bem escrito. Também eu já fui uma personagem para me encaixar na vida de outrém e guess what... Dá sempre m****! Se não pudermos ser nós próprios a relação nunca vai dar certo.

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