Menina Rica, Menina Pobre de Joanna Rees

31 de julho de 2016



Quando a Fnac me desafiou a sugerir leituras de verão, pensei no mantra de que havia falado na semana passada: livros que "não" são boas leituras para férias porque 1) vão ler em 2 dias e ter que comprar outro e 2) vão chorar na praia. Foi uma forma prática de falar de livros especiais, aqueles que nos prendem, que nos fazem voar sem sair do sítio e que, principalmente, nos fazem viver uma outra realidade porque saímos no nosso corpo para mergulhar dentro das próprias histórias.

Mas pensei também numa outra coisa: comprar um best-seller é muito fácil: eles estão em todo o lado, estão nos tops de vendas, há críticas e críticas com fartura. E ler estes livros é óptimo: são livros populares e que agradam à maioria dos leitores. São escolhas acertadas, por assim dizer. Mas uma das coisas que mais prazer me dá é descobrir livros que, à primeira vista, não daria muito por eles. É por isso que corro as feiras, os bazares e os dias de promoções nas lojas, como na Fnac. E nas próximas semanas, vou sugerir-vos uma série de leituras diferentes - não vão ser todas para chorar, prometo :)

É um terrível facto da vida. O tempo move-se tão depressa que nada perdura. Nem a dor dura para sempre. Depois de nos roer as entranhas, de devorar um pedaço da nossa alma, muda-se para outras paragens. Então, a vida - ou uma pálida imitação da mesma - prossegue independentemente da nossa vontade.

Comprei este livro de Joanna Rees por mero acaso numa feira. Só pela capa e pelo título, torci o nariz (o nome em português é completamente parvo, o original chama-se A Twist of Fate) e acabei por pegar nele porque era uma pechincha e pensei que me podia surpreender. Esta semana, com O Rouxinol terminado, peguei num livro ao calhas da estante dos não-lidos antes de sair de casa e só mais tarde percebi que o tinha trazido. Comecei a ler aborrecida, por frete mesmo. Histórias de irmãs separadas à nascença não me fascinam, já se sabe que é mais do mesmo. Mas entrei num carrossel de emoções do qual não estava à espera.

O começo do livro já é interessante: Alemanha do Leste, antes da queda do muro de Berlim, duas irmãs são vendidas: uma vai para os EUA para uma família rica e a outra fica num orfanato que pertence à mesma rede de tráfico de crianças. A partir daqui, vamos acompanhando, capítulo a capítulo, o passar dos anos nas vidas - completamente diferentes - das duas raparigas. E ao contrário do que esperava, a história não se baseia na vida perfeita da irmã rica e do sofrimento da irmã pobre. Naaaaaaada disso. É um loop de acontecimentos em que dei por mim a querer bater nas personagens e de lágrimas nos olhos pelo sofrimento de algumas situações - cada capítulo a torcer pelo final feliz. E quando me sinto assim, pffffff, já sei que vou ler o livro em três dias.

Fiquei completamente absorvida pela história: pelos sucessos (a irmã pobre foge do orfanato e consegue sobreviver), pelo sofrimento (a irmã rica é violada pelo filho da nova mulher do pai), pela força (a irmã pobre viaja clandestinamente dentro de um caixote para conseguir passar as fronteiras), pela inspiração (a irmã rica oculta o seu apelido para trabalhar por mérito e não pelo nome da família). Os anos vão saltando entre os capítulos, o que acaba por tornar a história fluída de ler. E os dramas são alternados com episódios engraçados - o que faz o leitor sentir todo este mix de sentimentos. Não nos sentimos numa novela da TVI, nada disso. Sentimo-nos é em ânsias de saber o final.

Além disso, Joanna Rees tem uma escrita descritiva fenomenal. Ao ler, conseguimos imaginar todos os locais e sentir a envolvência deles - como se estivéssemos lá. Saltamos da praia na Comporta e mergulhamos nas noites frias de Londres e nos dias passados na Toscana, em Itália.

Mais do que isto, esta história das duas irmãs acaba por passar um ensinamento: somos nós e as nossas escolhas que fazem a nossa vida. Podemos escolher deixar-nos abater pelo sofrimento, ou podemos passar por cima dele até ao próximo capítulo da nossa vida.

Menina Rica, Menina Pobre de Joanna Rees, publicado por ASA. Já é de 2013 mas foi uma descoberta intensa. Está em promoção em venda online na Fnac.

1 comentário

  1. Mais uma sugestão certeira! Já fiquei cheia de curiosidade xD

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