O AMOR É OUTRA COISA #51 O homem ressabiado

14 de setembro de 2016


Estão a ver quando imaginam que um tipo é de uma forma - adulto, charmoso, bem educado, interessante, cativante e quantos mais sinónimos quiserem - e vai-se a ver e ele é um ressabiado? 

Como conheci o Ressabiado

Conheci o Ressabiado numa tarde em que chovia torrencialmente. E ele apareceu-me à frente moreno, alto e com um sorriso ofuscante. Não me lembro de mais grande coisa porque ele falou, falou, falou mas achei-o o tipo mais fascinante que tinha conhecido nos últimos tempos. Era inteligente, bom conversador e promissor mas começou a pregar pelo Facebook e percebi que por detrás daquela fachada adulta escondia-se um coninhas das redes sociais. Mesmo assim, e porque andava desocupada, comecei a aceitar os convites que me fazia... mas que nunca se proporcionavam. Cinema? Ok, vamos lá. Café? Porque não? Jantar? Pode ser amanhã. Mas nunca acontecia. E eu mal o conhecia, pouco ou nenhum interesse tinha nele e levava isto tudo quase como um passatempo que, quiçá, poderia dar uma historia engraçada.


Mas, um dia, o café proporcionou-se nem sei bem eu como. E dei por mim sentada num bar bafiento e meio escuro em Oeiras com ele num grande monólogo que saltou entre trabalho e as relações e vidas dos seus amigos. Pouco ou nada me perguntou e eu pouco ou nada falei. Até que, quase a adormecer, disse-lhe que era melhor irmo-nos embora. O carro do Ressabiado estava longe e dei-lhe boleia no meu [devia ter aprendido com este tipo, num dos primeiros O Amor é Outra Coisa mas estava com sono e só queria ir para casa]. E, parados ao lado do carro dele, naquele empasse do adeusinho e até à próxima, virei-me para ele para me despedir - sei lá com dois beijos ou só um se ele fosse queque, ainda não tinha percebido - e nunca vi ninguém a abrir a porta e saltar fora do carro tão rápido. Parecia que estava com medo que eu tivesse lepra.

Eu, ele e o amiguinho

Depois deste episódio em que o Ressabiado achava que eu o queria beijar - talvez os meus olhos sonolentos tenham sido confundidos com olhos sedutores no meio de tanto pestanejar - começou a falar a toda a hora. Vamos ali, vamos acolá, vamos ao museu, vamos ao cinema, vamos, vamos, vamos. Ele era o tipo do vamos. Por ele, íamos a tudo. Ficava a mandar-me mensagens a falar da vida dele, mandava-me músicas por email e ligava-me a horas impróprias para consumo em grandes monólogos intermináveis. E eu atendia, sei lá, por cordialidade e porque até o achava simpático. Mas, quando chegamos aos 30 anos, estes comportamentos não são estranhos? Se um tipo vos liga incessantemente, é porque tem interesse. Se não tem, é apenas um idiota egoísta. E se vocês têm dúvidas quanto às intenções dele, só têm de perguntar.

Ora, o Ressabiado tinha um amiguinho com quem andava sempre. E o amiguinho disse-me uma vez meio bêbado: Ele só gosta de miúdas tipo Casa dos Segredos. Bem, nesta altura do campeonato acho que esse deve ser o perfil mais inverso do meu. Não tenho nada contra as miúdas tipo Casa dos Segredos que vão à sexta para o Lust e ao sábado para o Main e a única coisa que não é falsa nelas é, provavelmente, o iPhone dentro da malinha para a fotografia da night para o Instagram, mas isso não tem nada a ver comigo. Pestanas falsas, unhas falsas, bronze falso, cabelos falsos e mamas falsas é demasiado para mim que, ao pé delas, sou uma simples rapariga sem grandes atributos corporais para concorrer.

Disse ao amiguinho que o Ressabiado passava a vida com conversinhas e, no final do dia, eu não entendia o que raio é que ele queria. Mas porque não gosto de intermediários, comecei a tentar combinar algo com o Ressabiado, onde estivéssemos apenas os dois, para falar com ele. Somente queria por os pontos nos is mas, talvez com medo da minha lepra, ele trazia sempre o amiguinho atrás. Começou simplesmente a tornar-se constrangedor - porque o amiguinho falava muito mais comigo do que ele mas, quando chegava a casa, ele começava com os telefonemas e as histórias tristes da sua vida.

So há duas hipóteses - disse-me a minha amiga Jaqueline um dia - ou ele é gay, ou quer um ménage contigo e com o amiguinho. Bem, gay até podia ser plausível. Um ménage é que já não. Porque, no carro, ele tinha fugido de mim como o Diabo da cruz perante a hipótese de, sei lá o que é que lhe passou pela cabeça, eu saltar-lhe para cima.

Eu, terapeuta ocupacional?

Acabei por o confrontar. Disse que ele era muito interessante e simpático, que podíamos continuar a sair mas apenas os dois e sem o amiguinho atrás. Basicamente, disse-lhe que ou era explícito naquilo que queria ou não tinha idade nem tempo para andar a brincar aos amigos. Ele respondeu-me com meias palavras de que estava numa fase da vida em que não tinha tempo para uma relação [apesar de eu ser o tipo de mulher que ele procurava, adorei esta frase dele] mas que não tinha muitos amigos em Lisboa e sentia-se, por vezes, sozinho. Primeiro, ele confundiu a minha honestidade com a ideia de que eu queria uma relação - ou achava-se a última coca-cola do meu deserto - e, depois, pediu pena. E a pena é o anti-tesão.

De repente já não o achava simpático. Achava-o extremamente idiota.

Eu acho que sou uma pessoa afável e aberta. Ajudo toda a gente, às vezes muito mais do que as pessoas realmente o merecem. Mas não faço caridade nem sou terapeuta ocupacional para se passar o tempo. Quando contei isto às minhas amigas, elas morreram a rir. O que é que eu esperava de um tipo com uma idade mental ao nível dos 12 anos? Sei lá, não esperava nada. Ele parecia-me um tipo normal, apenas isso. Talvez com medo de lepra... Ao fim e ao cabo, apenas tinha sido sincera perante os comportamentos dúbios e mensagens estranhas que me mandava. Se se sentia sozinho, que ligasse para o SOS Amigos. Se tinha interesse em mim, podia dar-lhe a garantia que, não, não tinha lepra e depois logo víamos se havia química ou não.

És o tipo de mulher que eu procuro

O que é que aconteceu?, perguntam-se vocês, leitores, que, se chegaram até aqui, já devem estar a espumar para eu desenvolver este Amor é Outra Coisa de hoje que está a ser tão longo. Leiam o primeiro parágrafo novamente. Pronto, foi isso que aconteceu. Uma ou duas semanas depois [lembram-se de ele ter dito que eu era o tipo de mulher que ele procurava?], começou uma relação com uma miúda que conheceu no Main ou no Lust, já nem sei [e o não ter tempo para uma relação? Quando vos digo para lerem os sinais, é disto que falo. Eles estão sempre lá todos]. E quando o amiguinho me mostrou a fotografia dela, a única coisa que consegui ver foram as mamas tamanho industrial num decote até aos pés, o bronze falso e os cabelos loiros compridos.

Disse-lhe que, se eu era o tipo de mulher que ele procurava, devia ter-se perdido pelo caminho.

E o que é que ele fez? Apagou-me das redes sociais. Estão a ver quando imaginam que um tipo é de uma forma - adulto, charmoso, bem educado, interessante, cativante e quantos mais sinónimos quiserem - e vai-se a ver e ele é um ressabiado? Depois de ter estado a ouvir monólogos da vida dele como se fosse babysitter e de levar com ele e com o amiguinho, ele fica azedo e apaga-me? É só uma rede social, eu sei, não significa nada, mas é mesmo aquela atitude nojentinha e mesquinha.

Foda-se. Os ressabiados são os piores. E nunca percebi o que raio ele queria. Mas tenho, sem dúvida, potencial para a linha SOS Amigos.

*Tenho amigas que são loiras mamalhudas (e boazonas) do Main e do Lust e eu adoro-as na mesma. Isto é meramente uma sátira.


12 comentários

  1. Helena, admiro cada vez mais a identidade que depositas no teu blog. Acima de tudo por deixares perceber que esta é mesmo a tua identidade, independentemente do que é moda hoje em dia. Comecei um blog à cerca de um ano e apesar dele ainda ser um bebé recém-nascido, vejo em ti um exemplo a seguir - de fidelidade a nós mesmas e da opção por desenvolver um trabalho em que acreditamos e não apenas um que atraia seguidores ou "likes". Obrigada por me inspirares e por ainda me dares esperança de que há mulheres jovens mas com um M grande neste mundo.
    Votos de muito sucesso :)

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    1. Que palavras tão bonitas, obrigada :) No final do dia, acredito que o que traduz um blog de sucesso é simplesmente ser-se real, genuíno. É isso que vai criar empatia com os leitores. Todos nós queremos identificar-nos com qualquer coisa, queremos sentir que não somos os únicos, que há alguém algures do outro lado (ou por detrás de um blog) que sente exactamente o mesmo que nós sentimos. E, por um momento, sentimo-nos mais próximos de alguém. Então - isso é um bom passo para um blog de sucesso. Continua :)

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  2. Que saudades que já tinha do amor é outra coisa Helena. Adorei, adorei, adorei. Especialmente a parte em que saltou fora do carro com medo que tivesses lepra ah ah ah :-) Obrigada por estas gargalhadas de manhã aqui no escritório.

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  3. Nem todas as loiras mamalhudas do Main são o perfil falso que descreves. Fora isso achei piada ao texto.
    S.

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    1. Anonimo, a helena refere isso mesmo no final do texto.
      Qt ao texto Helena, mais do mesmo, genial como sempre.
      Maria

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    2. A parte das "loiras mamalhudas" é apenas uma sátira que, no final do texto, apenas prova que o "não estou numa fase boa para uma relação" era uma desculpa piedosa. Porque acabou por entrar numa relação com alguém que era o meu oposto (apesar de nunca o ter assumido). Conheço muitas "loiras mamalhudas" que se riram a ler isto porque não deixa de ser uma escrita sarcástica :)

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  4. Se algum dia a tua carreira profissional der para o torto (quem dera que não!) podes sempre concorrer a uma vaga na linha SOS Amigos ou SOS Solidão, uma vez que já tens experiência na área!! Agora falando a sério, é por estas e por outras que me sinto cada vez mais deslocada neste mundo. Não há homens decentes e os poucos (muito poucos) que há, ou estão comprometidos ou têm vida do outro lado do mundo...!

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    1. Catarina, acredita, há muitos homens bons (e que provavelmente passam pelas mesmas histórias, mas com mulheres). Eu acho que, na vida, andamos todos desencontrados simplesmente à espera de nos encontrarmos uns aos outros. Há uma diferença entre estar-se sozinho e estar-se solitária. Eu estou sozinha - porque já não tenho paciência para me atirar para aventuras que sei que não vão dar em nada e que, no final do dia, sim me vão fazer sentir solitária. Já ando a virar frangos há muitos anos - como se costuma dizer. E o mais importante a reter - a minha mensagem nestas histórias todas - é que é exactamente por isso que o amor é outra escolha. O amor é uma escolha nossa. E nós escolhemos com quem o queremos dividir :)

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  5. Isto tudo poderia ter sido escrito por mim... Basicamente, e na minha opinião, ele andava a deixar-te na prateleira enquanto se decidia por ti ou pela casa dos segredos. Depois de feita a escolha, já te podia apagar. Ressabiado é ser simpática. Eu chamar-lhe-ia outros nomes bem mais duros...

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  6. Olá Helena, gosto muito desta tua categoria do blog,sp que posso passo aqui para saber se existem novas crónicas. Mas desta vez tive que comentar porque acho que não sabes o que é uma terapeuta ocupacional, nada tem a ver com a ocupação de tempo! Aconselho lhe a leres e a eliminares essa parte do texto pois são profissionais de saúde que exercem a sua actividade na reabilitação motora de doentes para as suas actividades habituais e não merecem este equívoco. Beijinhos!

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  7. Olá Helena, gosto muito desta tua categoria do blog,sp que posso passo aqui para saber se existem novas crónicas. Mas desta vez tive que comentar porque acho que não sabes o que é uma terapeuta ocupacional, nada tem a ver com a ocupação de tempo! Aconselho lhe a leres e a eliminares essa parte do texto pois são profissionais de saúde que exercem a sua actividade na reabilitação motora de doentes para as suas actividades habituais e não merecem este equívoco. Beijinhos!

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    1. Rita, eu sei que o é uma terapeuta ocupacional. Isto é meramente uma sátira onde faço uma comparação sarcástica entre um tipo que quer alguém para ocupar o tempo e o ser terapeuta ocupacional - exactamente por não ter nada a ver. Todas as crónicas têm uma pitada de sarcasmo em tudo :)

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