Diários do Tinder: o Paulinho e a noite de sexo em Paris

27 de outubro de 2016


Conheci a, vamos chamá-la assim, Jéssica através de uma amiga que estava a tirar um curso com ela. E a Jéssica tornou-se uma conhecida - também não vou exagerar a dizer que era amiga. Bem, mas a Jéssica não tinha muito a ver connosco e todas as nossas conversas caíam invariavelmente nas suas histórias e no quanto nós - eu em especial - somos caretas. E bem, sempre que me sinto mais deprimida, lembro-me da Jéssica e penso graças a Deus que sou careta.

Encontrei a Jéssica esta semana e, depois de muito insistir, lá fui tomar um café com ela. Estás a brincar comigo que não usas o Tinder?, perguntou-me a Jéssica, enquanto me mostrava a carteira (porta-moedas vá, não exageremos) Louis Vuitton que tinha recebido de oferta. De quem?, perguntei. E é aí que a história se torna interessante. E, para a careta que eu sou, bizarra.

Iam para Paris com um estranho que vos poderia roubar um rim?

A Jéssica começou a falar na semana passada com o, vamos chamá-lo assim, Trouxa. E percebeu imediatamente que o Trouxa tinha dinheiro. Três dias depois, a Jéssica estava a ir passar o fim-de-semana a Paris com ele. E aposto que vocês estão a pensar exactamente o mesmo que eu pensei (ou as caretas como eu, pelo menos): a Jéssica teve de pagar muito bem a viagem a Paris. E pagou, claro que sim. Contou-me os restaurantes onde foram jantar, as coisas que ele lhe comprou e o hotel onde ficaram. A viagem foi fantástica. Que trouxa, disse ela.

E depois?, perguntei à Jéssica. Depois o quê, respondeu-me, revirando os olhos porque, porra, eu sou mesmo careta. Olha aqui este com quem estou a falar, vamos jantar amanhã, disse ela. Onde?, perguntei. À Bica do Sapato, disse-me. A Jéssica escolhe-os a dedo.

A primeira coisa que eu penso é: ou eu sou mesmo careta, ou o tipo podia tê-la assassinado, raptado ou tirado um rim para vender no mercado negro e poder comprar mais carteiras Louis Vuitton a outras raparigas do Tinder.

A agulha que é um tipo decente no palheiro que é um mar de idiotas

Contei isto a um amigo, enquanto repetia constantemente coisas como foda-se, o Tinder é uma merda, que me disse: o Tinder é um mero reflexo da sociedade moderna e a forma como as pessoas veem as relações. Que sábio que me saiu. Tal como temos de procurar na vida real por uma agulha que é um tipo decente num palheiro que é um mar de idiotas, o mesmo acontece no Tinder.

Foi por isso que ontem de manhã voltei a instalar (já não ligava a aplicação desde esta crónica) e pensei em falar com o tipo mais normal possível e ver se era um tipo decente. Juro que queria conseguir ter esperança no Tinder e deixar de ser sarcástica. Queria dizer foda-se o Tinder afinal tem gente porreira. Segui todas as regras à risca. TODAS: evitei tipos com selfies, com fotos no ginásio, ao espelho, com erros ortográficos no perfil, com copos na mão, com os amigos em eternas férias de adolescentes em discotecas. Trocando por miúdos, evitei todos os géneros de que falei nesta crónica o ano passado. E cheguei a um.

Apresento-vos o Paulinho. 

O Paulinho que me queria dar vinho. 

O Paulinho tinha meia dúzia de fotografias banais, tiradas num contexto em que alguém o fotografou. Meu Deus, o Paulinho parecia efectivamente normal. Só pode ser um assassino, só pode. Tinha pinta, parecia simpático pelas fotografias e a primeira coisa que me disse foi: és misteriosa - em referência à minha fotografia onde não se via a minha cara porque tinha um leque até à altura dos olhos.

Disse-me onde trabalhava, o que fazia, contou-me algumas coisas dele, fez-me meia dúzia de questões sobre mim, disse-me que o que eu fazia da vida parecia ser interessante (escrever, claro) falámos sobre esta mania dos homens tirarem selfies idiotas ao espelho, ele disse que preferia falar noutros sítios que não o Tinder. Eu sugeri um café e voilá. 



Coitado do Paulinho que perdeu um dia de conversa comigo e, afinal, não me levou para sua casa à noite. Mas quem é o Paulinho, afinal? Somos nós todos - em busca de um pouco de amor virtual que tape o buraco do amor real. Somos uma geração que prefere saltar todos os capítulos e ir directamente ao final. Porquê? Porque há mais pessoas à espera de ser encontradas. Há mais pessoas à espera de um "sim" numa aplicação. Há mais pessoas com quem trocar juras de amor virtuais que nos aconcheguem os pés nessa noite.

Ao fim e ao cabo, o Paulinho não tem culpa. Ele está no sítio certo. E foi directo ao assunto. Não se deixem enganar por uma app de sexo que nunca vai deixar de o ser. Porque é o reflexo daquilo que se procura aos dias de hoje. Talvez existam por lá muitas agulhas perdidas mas, como na vida real, também são difíceis de encontrar.

Há quem nos queira levar para Paris. Há quem nos queira dar a beber vinho. E há quem nos queira conhecer cá fora, ao sol, numa esplanada, num café, num cinema depois do trabalho. A escolha é sempre nossa.

Eu voltei a apaguei o Tinder. Por mais um ano, talvez.

15 comentários

  1. Como te entendo!!!! É exatamente o que sinto!! E o pior é quando voltas um ano depois e que vês as mesmas caras de sempre no mesmo Tinder.... já sabes que afinal estes rapazes só procuram mesmo casos de uma noite!
    Mas como dizes, também podes encontrar gente boa... já criei amizades de lá, no início da aplicação! Agora aquilo enjoa-me ao cabo de 2 dias! 😅

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    1. E teres criado amizades já é suficientemente arrojado para mim :P

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  2. Percebo o que escreves... Utilizei o tinder durante algum tempo e tenho consciência que o fiz para tapar um buraco que nao deveria ser tapado dessa forma. Conheci muita gente. Envolvi-me com alguns (porque era o que queria na altura).
    E um dia conheci uma pessoa (por essa via) que me quis conhecer e que me quis conquistar.... Mesmo quando eu lhe dizia que não queria envolver-me, que não queria uma relação.
    Hoje, quase 1 ano depois, estamos juntos, felizes e apaixonados.

    Tudo isto para te dizer que sim.... No meio do palheiro há 1 agulha mas para a achar levas muita picada de feno.

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    1. Não acredito!!! Preciso de vos conhecer - porque representa uma mensagem positiva e de esperança nestas relações modernas tão complicadas... Gostei :)

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    2. Percebo que não acredites mas, infelizmente, nao irei revelar as nossas identidades. Prometemos que não iriamos revelar a forma como nos conhecemos. 1 ou 2 amigos de parte a parte sabem... Mas quem pergunta acaba por nunca ter uma resposta concreta.

      Como te disse no comentário... Antes de o conhecer, conheci muitos que simplesmente nao valem o ar que respiram... E esses existem tanto no tinder como "cá fora". (sim, que eu também os apanhei fora do tinder)

      Acredito que o tinder acaba apenas por ser um reflexo da nossa sociedade. Por cada homem decente, há 99 cabrões.

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  3. Prefiro ser careta como tu. Este novo mundo onde vivemos está a tornar-se demasiado assustador. Beijinhos

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  4. Olá Helena,
    Também eu criei um Tinder e tb partilho a mesma opinião do que tu. Por muito que não queiramos generalizar a coisa, a app só tem uma finalidade. Não sou contra as pinadelas após 24h de conversa, mas não faz mt o meu estilo. Chamem-me romântica ou Jane Austen perdida no tempo mas acho que o amor em tempos de likes já passou a ser uma coisa tão pacatada que já ninguém pensa em amor em tempos de Austen. Há rapazes decentes mas não é no Tinder de certeza. Tive várias conversas com vários moços e no fim a conversa descambava para a dita pinadela.
    Neste momento sinto-me preocupada com uma amiga. Criámos o Tinder, cada uma com o seu como é óbvio, e ela pensava que eu é que me ia apaixonar e ter um relacionamento mas no fim foi ela. Ela que sempre foi uma moça ponderada atirou-se de cabeça a um. Encontrou-se com ele e só eu é que sabia do encontro. Encontraram-se às 14h num local público e pedi-lhe que me fosse enviando sms's, mas não o fez. Só após uma sms ameaçadora - Ou tu me respondes ou eu dou parte de ti à polícia - é que me diz que estava com ele num estacionamento, e assim foi até às 4h da manhã.
    No dia a seguir contou.me que ele era lindo, especial e toda a mariquice do encontro e eu sempre de pé atrás. (Isto aconteceu no domingo) Hoje é quinta e diz-me estar apaixonada por ele mas ainda não foram para a cama. Tenho a sensação que aquilo vai durar pouco, pois acho que a coisa acaba quando houver o Jump. Para não falar que desde domingo tem-se encontradado todos os dias.
    Ela aconselha-me a voltar ao Tinder, mas acho que não é lá que vou encontrar a minha alma gémea, sou como tu, uma Jane Austen perdida no tempo.
    Gostava imenso de saber a tua opinião :) Desculpa lá o tamanho do comentário.

    Também escrevi a minha opinião no blog, caso tenhas curiosidade:
    http://devaneiosdatim.blogspot.pt/2016/10/tinder-minha-experiencia-timsempudor.html

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    1. Somos duas Jane Austens então... Duas não, porque conheço muuuuuitas mulheres iguais. Estamos perdidas no tempo numa geração que já saltou para 2050 :) Bem, eu gosto sempre de ser positiva até ao fim, por vezes podemos surpreender-nos. Vamos ver o que acontece à tua amiga (depois conta-me, please). Quiçá a coisa pode desenrolar... Mas o Tinder é um mero reflexo do que as pessoas procuram hoje: o fácil, o imediato, o acessível. Uma lista de pessoas solteiras à procura de companhia. Não há nada que enganar. Não há os constrangimentos que, na vida real, surgem quando conhecemos alguém, ninguém tem de ter a coragem de abordar a outra pessoa, é tudo muito simples e rápido. Não é para mim, mesmo. E também acho que não é lá que está uma "alma gémea". Não, mesmo...

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  5. Ir para Paris? OMG! O que se passa com as pessoas? Já não há romance? Continua a escrever Helena, o mundo precisa disto...

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  6. Cada texto teu faz-me pensar "Porra, tudo o que ela escreve é tão verdade"!
    É por isto que serei uma leitora assídua e eterna, nunca desiludes! :)

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  7. Fogo, que bonito o que escreveste. Tão, mas tão verdade, tão nítido e tão assim mesmo!

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    1. Bem, não é assim tão bonito. É triste mas é a realidade. Temos de saber jogar com ela :)

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  8. ..."em busca de um pouco de amor virtual que tape o buraco do amor real..."
    esta frase cai que nem uma luva à minha fase actual. Acho que nem eu própria me tinha apercebido disto, ou então é daqueles comportamentos que adoptamos e não queremos crer que estamos a fazê-lo...
    Enfim, mais uma boa crónica a que nos tens habituado!!
    Obrigada pelas partilhas e histórias com que nos brindas, e que nos fazem perceber que não estamos assim tão sós neste mundo 'perturbado'...
    Beijinho

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