Hotel Majestic de J. G. Farrell

4 de abril de 2017 Home


Uma das coisas que me deixa mais feliz quando acabo de ler livros é perceber que há uma continuação que eu não sabia. Comprei o Hotel Majestic apenas porque apanhei uma promoção na Fnac (nunca tinha pegado em nada de J. G. Farrell na verdade) e só quando cheguei ao fim e fui investigar mais sobre o livro é que percebi que isto é, afinal, uma trilogia - Trilogia do Império. Depois do momento de euforia, a desilusão. São 3 livros - este é o segundo, também chamado de Troubles (no original) - e, afinal, nenhum dos três está relacionado com os outros e envolve mesmo personagens diferentes. Pena. Porque queria saber mais sobre o Major Brendan.


E talvez eu seja suspeita, porque adoro romances históricos, mas Hotel Majestic é absolutamente incrível. Uma comédia (um pouco drástica, diga-se de passagem, e cheia de humor negro) e uma sátira aos costumes passada na Irlanda no fim da primeira guerra mundial com uma envolvência brilhante da vida e dos habitantes do hotel com os problemas políticos da altura. Pensei que poderia ser um livro chato - porque tem demasiadas referências políticas - mas está tudo muito bem encaixado no meio de episódios de humor e crítica social.

Este foi um daqueles livros em que, confesso, cheguei ao fim e senti um vazio. Estava tão embrenhada nas personagens, nos problemas, nos dramas da vivência no hotel, na paixão do Major pela jovem Sarah na sua cadeira de rodas e cheia de opiniões azedas, na rivalidade com Edward, o dono do hotel... enfim, quase como se eu também ali estivesse, em 1919, alojada no Majestic e a fazer parte da mobília. Como as "velhas" (como são chamadas) que ali vivem há anos e não arredam pé.

Só tenho pena de uma coisa: todas as personagens principais são homens e todas as mulheres - desde Sarah, às filhas de Edward e mesmo as "velhas" alojadas no hotel - são secundárias e existem quase numa lógica de apoiar as personagens masculinas.

Uma das coisas que dificilmente passa despercebida (ou talvez tenha sido mesmo propositado pelo autor) são as pontas soltas que ficam aqui e ali. Vão decorrendo situações que não são explicitamente resolvidas aos olhos do leitor, quase como se acabassem sendo esquecidas pelas personagens. Muitas pessoas e situações entram e saem de cena sem uma conclusão e isso torna-se frustrante no sentido que fica a sensação de que, quiçá, poderia haver uma continuação da historia do Major mas, afinal, não há. Cabe-nos a nós, leitor, imaginar o seu desfecho. E se acham que isto é um romance focado na paixão do Major por Sarah, chegamos ao fim e levamos um murro no estômago. O que acaba por ser deliciosamente realista.

Para mim, é extremamente cómico, trágico mas absolutamente envolvente. Começa-se a leitura a pensar que isto é um grande e chato romance político da velha guarda quando está cheio de comédia moderna e uma sátira aos costumes, ao dinheiro, à vida e ao próprio ser humano - mesquinho, invejoso e vingativo.

Hotel Majestic de J. G. Farrell, publicado por Porto Editora.

1 comentário

  1. Por acaso também já pensei nisso, a quantidade de livros cujas personagens importantes são todas homens. Até vi no outro dia um vídeo sobre isso, se encontrar outra vez meto aqui para veres :-)

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