Literatura feminina é mais do que chick lit banal

16 de abril de 2017


Uma das coisas que mais tenho reparado nos últimos tempos é a quantidade de livros bons e populares que banem totalmente o papel da mulher nas suas histórias. Falei disso na semana passada até - a propósito do Hotel Majestic que adorei mas é um rol de personagens masculinas em destaque e onde as mulheres apenas entram como secundárias. E isto deixou-me a pensar neste assunto durante alguns dias.

Já nem vou falar na Disney - onde o herói é quase sempre, sempre a personagem masculina salvadora de todos os problemas que a feminina cria/passa. Mas mesmo nos livros infantis com animais - onde se tenta criar um género neutro - as personagens são em grande parte dos casos masculinas. E isto tem sido um padrão no último século. Até um dos meus livros favoritos de todo o sempre e um marco da literatura que vai fazer parte dos rituais de passagens de todos os adolescentes durante as próximas décadas - Harry Potter - é centrado numa personagem masculina (Harry) que apesar de ter uma feminina heroína que nos ensina bastante sobre caracter, força e inteligência (Hermione), o seu papel está centrado em ajudar o personagem rapaz a resolver os conflitos centrais da trama.

Há uns tempos - antes do Diz-lhe Que Não sair - um colega jornalista do Expresso disse-me algo do género: "não esperes que o teu livro seja falado nas revistas de destaque mas és capaz de te safar nas femininas e assim". E, conscientemente ou não, ele centrou todo um problema numa frase banal - o meu livro, com personagens femininas no primeiro plano e onde os homens são meramente secundários, é visto como um livro "chick lit" (algo do género romance barato para raparigas). Não é que esteja à espera de receber um Pulitzer nem nada que se pareça, mas é esta descredibilização que faz com que muitos autores se foquem em personagens masculinas. Escrever para e sobre mulheres ainda é um universo cinzento como se ter uma audiência feminina significasse que não temos nada de muito importante para dizer ao mundo.

Se for um livro sobre mentiras e tramas entre mulheres (como o Pequenas Grandes Mentiras de que falo abaixo), é um cliché fútil. Mas se forem homens, é um policial sério. Se for um romance pelo ponto de vista de uma mulher, é "chick lit". Mas se for do ponto de vista de um homem é literatura romântica - um bem-haja aos Nicholas Sparks da vida. Claro que estou a generalizar, mas só vos quero deixar a pensar nisto.

Por isso, esta semana, decidi reunir alguns livros sobre mulheres, para mulheres, de (e não só) mulheres. Literatura que coloca a mulher como personagem central e passa, ao mesmo tempo, grandes mensagens sobre a vida. Falo de personagens femininas divertidas, fortes, com relevo nas narrativas e com algo para dizer ao mundo. Longe de clássicos e bestsellers que toda a gente conhece, decidi ir para outros tipos em vários registos - desde históricos, a fantástico ou romances - que dão boas leituras tanto para homens como para, nós, mulheres.

Estes estão em promoção esta semana no site da Fnac:


1) O Caderno de Maya de Isabel Allende; 2) A Rapariga que Roubava Livros de Markus Zusak; 3) A Bastarda de Istambul de Elif Shafak; 4) A Coisa à Volta do Teu Pescoço de Chimamanda Ngozi Adichie; 5) A Chama de Sevenwaters de Juliet Marillier; 6) Vitória de Inglaterra de Isabel Machado.


1) A Rainha Ginga de José Eduardo Agualusa; 2) A Herança Bolena de Philippa Gregory; 3) Pequenas Grandes Mentiras de Liane Moriarty; 4) A Cor do Hibisco de Chimamanda Ngozi Adichie; 5) Eleanor & Park de Rainbow Rowell; 6) A Rapariga que Sonhava com uma Lata de Gasolina e um Fósforo de Stieg Larsson.

Estes não estão em promoção mas valem a pena o investimento:



1) Nome de Código: Leoparda de Ken Follett; 2) O Rouxinol de Kristin Hannah; 3) História do Novo Nome de Elena Ferrante; 4) O Meu Nome é Lucy Barton de Elizabeth Strout; 5) Luz e Sombra de Leigh Bardugo; 6) Hoje Vai ser Diferente de Maria Semple.

Gosto, gosto, gosto de receber sugestões porque uma pessoa não encerra em si todo o conhecimento do mundo. Se tiverem dicas, recomendações ou livros que vos marcaram de uma forma especial, enviem-me por comentário ou email :)

7 comentários

  1. Gostei das sugestões, alguns já li mas outros não conhecia :)
    Fora do género de ficção, há vários que valem a pena: Livre de Cheryl Strayed, Orange is the new black de Piper Kerman, Comer, orar e amar de Elizabeth Gilbert. De ficção, estou a lembrar-me de "O mundo de Sofia" de Jostein Gaarder e os de Elena Ferrante, mas de facto, são muito menos do que os com protagonistas masculinos. Em português, a Rosa Lobato de Faria tem vários livros com protagonistas femininas que valem a pena ler.

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    1. Ahhh! Nem me tinha lembrado desses. Livre tenho aqui - mas ainda não li. Há uns anos (antes da série), entrevistei a Piper Kerman (logo depois do livro sair) :) Falta não me ter lembrado disto mesmo. E Rosa Lobato de Faria - tens toda a razão!!! Obrigada por me teres lembrado :D

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  2. Joyce Carol Oates, toda a obra, mas em especial um conjunto de short stories com o título "Female of the Species".

    E porque não nem um nem outro? A trilogia "Ancillary Justice" de Anne Leckey é um estudo muito interessante de personalidade e de como a ideia de género pinta a nossa percepção enquanto leitor. É ficção científica (mas mais perto da Fantasia, dado passar-se num futuro hiper longínquo).

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  3. Epá eu adoro o Harry Potter e nunca tinha pensado nessa questão. De facto, a Hermione é uma personagem muito bem construída e com boas influências para as raparigas mas sim, só lá está para ajudar o Harry a resolver a missão dele. Bom post Helena. E gostei de algumas sugestões.

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  4. Não acho que o conceito de chick lit esteja relacionado com o facto das personagens femininas serem o destaque. Os livros do Nicholas Sparks são, na minha opinião, chick lit. De qualquer forma, não sou nada contra o género, acho que serve um propósito e desde que o sirva bem entretém. Um livro leve (talvez não seja chick lit, mas não é de certeza uma obra prima da literatura) de que gosto muito e leio todos os verões e cujo personagem principal é um homem, é o "Jogos de Verão", de Mário Cordeiro. Quanto ao teu livro, já o li e gostei muito, li algumas das histórias em voz alta à minha colega de quarto​. É real, é despretensioso e fez-me rir à gargalhadas umas vezes e desejar que tu e o Espanhol deixassem de ser parvos outras tantas. Acho que é importante identificarmos-nos com os personagens e eu identifiquei-me muitas vezes. Quanto às tuas sugestões, adoro o Eduardo Agualusa e quero muito ler a Rainha Ginga! Tenho ainda curiosidade quanto à Rapariga que roubava livros, a Eleanor & Park e à Rapariga que sonhava com uma lata de gasolina e um fósforo. Quando conseguir faço-te uma lista de sugestões :)

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  5. Já que gostas de receber sugestões, deixo autoras como a Sylvia Plath, a Angela Carter, a Stella Gibbons, a Dodie Smith, a Maya Angelou, a Jean Rhys, a Maria Judite de Carvalho, a Clarice Lispector, a Charlotte Perkins Gilman, a Shirley Jackson.

    E o Jorge Amado escreveu vários livros sobre mulheres que, de chick lit, não têm nada!

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  6. Boa tarde,
    Adorei o post e realmente nunca tinha pensado muito nessa situação!!
    Das sugestões, algumas quero muito ler e sugiro ainda "as serviçais" que foi um livro que gostei muito mesmo!!!

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