O amor é outra coisa: O Fascista sexual (uma história da Beatriz)

8 de maio de 2017

A Beatriz foi seis meses para a Austrália a propósito do seu doutoramento. À data em que conto esta história ela já lá está há uns bons cinco meses e quase a voltar aqui para a terrinha. Umas semanas antes de partir, jantámos em casa dela para uma despedida da despedida da despedida quando nos disse que tinha conhecido o (na altura ainda não se chamava assim) Fascista Sexual. Rimo-nos umas para as outras porque é aquelas alturas da vida em que nos apetece mandar tudo ao ar. Uma mulher está meses - anos - sem conhecer ninguém de jeito e quando aparece alguém realmente interessante vai para São Francisco por tempo indeterminado - lembram-se d'O amor é outra coisa 14 sobre os timings? - ou, neste caso, estamos nós de partida. Claro que ela nunca sequer ponderou a hipótese de não ir - eu ter-lhe-ia dado um pontapé para a fazer acordar - mas sentiu que a vida por vezes é ingrata para caraças.


O que fazer? Viver? Não viver? Abdicar de uma das coisas - a nossa vida ou a pessoa que pode vir a ser a nossa vida? E isto não é uma situação fácil que se decide da noite para o dia. Conheço pessoas que abdicaram de trabalhos de sonho para não perderem um amor e, no fim, ficaram sem trabalho e sem amor. Como também conheço quem escolheu o trabalho e, no fim, acabou infeliz e optou por voltar. Os desígnios da vida e do amor são mesmo assim. Imprevisíveis.

A Beatriz foi. E o Fascista Sexual ficou. Ao fim de um mês e pouco a trocarem mensagens e telefonemas à distância, ele perguntou-lhe se ela não queria ir com ele a Bali - já que ela estava lá perto. E ela que costuma ser uma mulher que prefere viver (e depois logo se vê) do que ficar a pensar no assunto, fez as malas e foi passar uma semana com ele a Bali. E depois de Bali, ele foi para a Austrália mais uma semana com ela.

Um tipo solteiro de 39 anos... só pode ter algum problema

Beatriz e Fascista Sexual duas semanas juntos. Dia e noite. No outro lado do mundo. E, de dia para dia, as expectativas de Beatriz foram decrescendo e decrescendo ao ponto de ela já contar as horas para ele se ir embora mas sem querer dar a entender que nada daquilo estava a funcionar. E esta é a merda das relações à distância embrulhadas na fragilidade que são os inícios destas mesmas relações. Não conhecemos as pessoas. Não conhecemos os seus hábitos, as suas manias e as suas formas de estar no mundo. Não conhecemos aquilo que todos nós somos 24 horas por dia que é completamente diferente daquilo que somos num jantar, num cinema, numa noite a dois.

Porque o Fascista Sexual é interessante, inteligente e eloquente. Tem 39 anos, uma carreira de sucesso numa empresa qualquer, um bom carro, uma casa em Lisboa e outra no Algarve. Viaja várias vezes ao ano, fala de cinema, de música, de cultura, de arte e um rol de temas pseudo-intelectuais e pseudo-espirituais. E está solteiro. E esta é a parte em que, logo desde o início, eu disse a Beatriz que ele tinha de ter algum problema. Porque se, com 39 anos e todas estas qualidades, continua solteiro - só pode ter alguma coisa errada.

- Tu tens 31 anos, eu tenho 34, não achas que também há qualquer coisa de errado connosco? - perguntou-me.

E eu fui obrigada a concluir que se calhar - só mesmo se calhar - o Fascista Sexual era um tipo exactamente como nós - a navegar nesta maionese de relações descartáveis e à procura de uma mulher que fosse realmente outra coisa.

Mas não. O Fascista Sexual tinha (e tem) realmente um problema. É interessante, inteligente e eloquente. Mas também diz coisas como "vou só ali dar uma mijinha" no meio do restaurante. Tem dinheiro, vive bem, mas conta os trocos e não dá gorjeta - nem aos senhores dos tuktuk lá do sítio. E quando foram num barco com mais outras pessoas e, entre elas, estava um casal gay, ele disse qualquer coisa do género: "olha-me estas duas, que nojo". E a Beatriz por esta altura já espumava e bufava por todo o lado. E contava os dias para o tipo se ir embora para nunca mais voltar.

Quem tem menos de 18 anos, a história acaba aqui. Para os leitores maiores de idade... vamos lá continuar

Mas isso não faz dele um Fascista Sexual, pensam vocês. Pois não. Mas deixei o melhor para o fim. Depois de uns dias juntos - na cama, digo eu - o Fascista começou a revelar-se. E para quem tem menos de 18 anos, esta é a parte em que têm de fechar esta janela, beijinhos e até amanhã :)

Para os leitores maiores de idade, a história continua aqui: o tipo recusava-se a deixar que Beatriz ficasse por cima, qualquer que fosse a posição sexual. Dizia que a mulher fica por baixo e o homem é que controla. E eu estava a ouvir Beatriz contar-me isto ao telefone e queria manter um tom de voz sério mas foi impossível porque cada coisa que ela contava era mais absurda que a anterior. Este tipo - solteiro de 39 anos - vivia sexualmente no século passado. E só queria ejacular para a cara dela. Pedia. Implorava todos os dias. Quase que exigia. [e eu aqui já estava a morrer de tanto rir]

- Sabes qual é o problema de um tipo de 39 anos e solteiro? - perguntei a Beatriz.
- É um Fascista Sexual - bufou ela.
- Não. Vê demasiados filmes pornográficos há demasiados anos e acredita que é isso que o sexo é.

E este não é só o problema de um solteiro de 39 anos. Este vai ser o problema dos solteiros da próxima geração. A geração que hoje tem 14 anos e vê tudo na internet logo desde cedo. A geração de rapazes que acha que sexo é o que vê na pornografia digital. A geração que vê a mulher como obrigada a corresponder a todas as tolices que lhes passam pela cabeça porque no sexo - e, eventualmente em tudo na vida - o homem é que controla.

O Fascista Sexual foi embora e a Beatriz respirou de alívio. Perguntei-lhe se estava arrependida de ter aceite que ele fosse lá ter com ela.

- Claro que não. Sempre quis ir a Bali, por isso valeu a pena.

Esta é a mesma Beatriz que, no Porto, se deixou levar na cantiga do Solteirão (e só quem leu o livro vai perceber). Porque, por vezes, nem tudo acontece em prol de um final feliz.

Muito menos com tipo atrasado mental durante o dia e fascista durante a noite.

3 comentários

  1. Ai está um problema é que os homens vêem o sexo com algo que deve ter todo um cenário porno por trás. E pelo que vejo as jovens de hoje em dia deixam-se ir e depois existem unicórnios - tipo nós xD - Sabes é como aquele episódio do sexo e a cidade em que o gajo quer "mijar" para cima dela. Todos temos pancadas, umas mais fortes que outras

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  2. Helena, este post veio na altura certa!! Acabei de ler o teu livro e fiquei naquele vazio de querer mais. E, de repente, vir aqui e ter uma história da Beatriz foi quase como uma continuação. Quero mais, mais, mais! Continua a escrever porque estou em ânsias de ler mais coisas sobre este teu grupo de amigas e estas histórias maravilhosas do Amor é outra coisa. E o que me ri com o Fascista - de facto é um pensamento sobre o impacto dos filmes pornos espalhados pela internet gratuitamente e que dá aos homens uma visão do sexo falsa, machista e totalmente anti-prazer. Go Beatriz!!! :-)

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  3. Estou completamente de acordo com este texto!
    Já tinha pensado neste ponto, o de haver homens que desde muito cedo vêem demasiados filmes de adultos e acreditam que o sexo se resume a... enfim, pornografia, e não sabem seduzir, encantar uma mulher.

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