A única forma de prender uma relação é deixar-lhe a porta aberta

1 de junho de 2017


A Xtininha Aguilera cantava, nos anos 90, uma musiquita que lá no meio dizia qualquer coisa como "they say if you love something let it go, if it comes back it's yours, that's how you know" (agora fiquei nostálgica e fui ouvir). E por mais cliché, trivial e banal que isto seja, pfff... os clichés são, na sua grande maioria, verdades que tentamos menosprezar.

Há uns tempos andei a sair com um tipo e, numa noite, ele deixou-me plantada no Saldanha. Depois de várias mensagens a que não me respondeu - e eu ali entediada sem saber se me ia embora ou se tinha acontecido alguma coisa -, mandou-me uma a dizer que tinha sido desencaminhado pelos colegas de trabalho e estava no bar X na rua Y mas que eu podia lá ir ter se quisesse. Há aqui vários cenários possíveis que podiam ter acontecido: 1) eu passava-me porque ele me tinha deixado mais de uma hora à espera; 2) respondia-lhe uma merda qualquer a mostrar exactamente que estava fula; 3) cobrava o tempo que me deixou plantada; 4) dizia-lhe que nunca mais me iria fazer uma destas; 5)
dizia que, para a próxima, podia avisar mais cedo que tinha mudado de planos porque tinha arranjado outra coisa melhor para fazer. E de certeza que não iria haver uma próxima depois desta verborreia toda.

Na verdade, o que eu fiz foi simplesmente responder-lhe a dizer que mais valia, então, ele ficar essa noite com os amigos, para se divertir e, no dia seguinte, combinávamos nós qualquer coisa.

Só consigo imaginar que ele estivesse habituado a cenas, cobranças, dramas e discussões porque, depois desta mensagem, ele saiu do bar X onde estava - já não importava que o tinham desencaminhado - e apareceu-me em casa. Tornou-se tão chato depois disto que fui eu que me fartei dele.

A única forma de sermos felizes numa relação é sermos livres nessa relação

Mas o que importa para esta história é exactamente o acto de "deixar ir". O que é que iria mudar a situação - ele estar atrasado por estar com os colegas - se eu começasse com uma discussão? Não ia mudar em nada e, eventualmente, iria diminuir a sua vontade em estar comigo. Tem tudo a ver com as energias que transmitimos uns aos outros. E odeio quando me começam a cobrar a mim. Então a minha perspectiva das coisas é sempre deixar que as pessoas sejam livres - tal como eu gosto de ser livre. 

Às vezes ouço conversas de amigas e colegas sobre estes temas. Porque ele foi sair com os amigos e chegou às cinco da manhã. Porque ele preferiu ir ali ou acolá do que acoli comigo. Porque ele vai passar fins de semana fora. Porque é sexta-feira e já está a fazer planos. Porque ele isto. Porque ele aquilo. Mas a única forma de sermos felizes numa relação é sermos livres nessa relação. E quanto mais cobrarmos, menos vontade a pessoa vai ter de (se) dar. 

Ele chegou às cinco da manhã? Chegou vivo, é o que importa. Ele preferiu ir ali ou acolá? Então vão vocês fazer qualquer outra coisa que vos apeteça. Ele foi passar o fim-de-semana fora? Aproveitem para estar com a família, com os amigos, para ler, ir à praia, ao cinema ou simplesmente estar sozinhas e tranquilas da vida. É sexta-feira e ele está a fazer planos? Façam um outro plano que vocês tenham. Porque razão - quando estamos numa relação - sentimos a necessidade de nos tornarmos siameses com a outra pessoa? Porque razão cobramos o tempo que não está connosco? Porque razão cortamos as asas uns dos outros?

A única forma de prender um homem (e quem diz homem, diz mulher) é soltar-lhe as amarras. Sempre odiei aqueles tipos controladores - onde vais? vens quando? que fazes hoje? vais novamente sair? com quem é que estás? quando é que estamos juntos? tipo, nunca, adeus - e sempre senti que os homens deveriam odiar o mesmo com mulheres assim - que controlam e cobram todos os seus passos.

A melhor coisa da vida é termos vontade de ir para casa porque sabemos que a outra pessoa também vai chegar. É sabermos que podemos fazer a nossa vida porque, algures a meio do caminho, cruzamo-nos com a vida dela.

Quando digo que a única forma de prender uma relação é deixar-lhe a porta aberta é exatamente isto. É deixarmos que a outra pessoa, connosco, se sinta em casa. É deixar-lhe a porta aberta porque sabemos que ela vai sempre querer entrar.

Porque nós somos a sua casa.

11 comentários

  1. Percebo a tua ideia, e concordo com o conceito, mas não com o exemplo em concreto que deste - se eu combinar algo com uma pessoa e essa pessoa me deixar pendurada, seja amigo, familiar ou periquito, isso para mim é falta de respeito, só. Não se trata de liberdade, trata-se de pensar no outro e não só em si mesmo. Quanto ao resto, acho muito bem, porque se não deixarmos espaço para o outro ser ele mesmo...bem, algum dia ele/ela vai explodir!

    Jiji

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    1. Claro, ele acabou por avisar que estava atrasado porque os colegas de trabalho o tinham desencaminhado. A verdade é que imprevistos acontecem e todos nós podemos deixar outra pessoa pendurada sem querer - foi o caso. E eu prefiro sempre levar a vida com tranquilidade e sem grandes dramas. Ninguém morreu? Então a vida continua :P

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  2. E é assim com este desprendimento que encontramos pessoas que escolhem estar connosco em vez de se sentirem obrigados :) adoro a tua escrita revejo-me muito nela :)

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    1. Eu adoro é o teu nome "desabafista profissional" :)))

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  3. Concordo contigo em 90% do texto. Sou tal e qual assim: detesto que me cobrem, detesto que me façam sentir presa e, por isso mesmo, faço por evitar provocar esse tipo de sentimentos na outra pessoa.
    No entanto, nesse caso o que aconteceu não foi meia hora antes do vosso encontro ele mandar uma mensagem a dizer "afinal não vai dar, vou beber um copo com os meus colegas". Se assim fosse, e independentemente do motivo, concordaria a 100% com o que escreveste.
    Mas o que aconteceu, pelo que percebi, foi já ter passado e muito a hora que vocês tinham combinado e, só depois das mensagens e telefonemas da tua parte, ter tido a consideração de te dizer que afinal não dava.
    Ora, eu acho que é perfeitamente legítimo ficar fula da vida com isto e demonstrá-lo à outra pessoa. E não pela opção de ter ido beber o copo com os amigos, longe disso. Mas sim por não ter tido o respeito e consideração suficiente por ti para te dizer um simples "afinal não vai dar". Deixar-te estar uma hora pendurada é nem sequer pensar que tu podias ter ou arranjar outros planos, é dispor do teu tempo e deixar-te a ti à mercê do tempo dele.
    Nesse aspecto acho muito injusto e não conseguiria levar a situação com essa ligeireza. Provavelmente a minha resposta teria o mesmo teor que a tua mas, pessoalmente (porque as mensagens dão sempre em confusão e levam a que os assuntos atinjam proporções ridículas), dar-lhe-ia o toque para da próxima tentar avisar com o mínimo de antecedência.
    Resumindo, concordo quando dizes que a única forma de prender uma relação é deixar-lhe a porta aberta, mas não consigo achar que "porta aberta" seja ou deva ser o mesmo que "porta escancarada".
    Opiniões à parte: bom texto, como sempre ;)

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    1. Claro, tens toda a razão E eu podia - e devia - ter ficado fula. No passado, já fiquei fula muitas vezes, já cobrei, já discuti... já fiz isso tudo. Mas, na verdade, opto sempre por levar a vida com tranquilidade. Ele na altura não tinha avisado antes (já não me lembro porque) mas deu-me uma razão qualquer plausível. E eu senti que não valia a pena discutir (ou amuar) porque já não ia mudar a situação. De resto, simmmm, concordo: porta aberta não é porta escancarada (adorei eheh)

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  4. Gostava de concordar na totalidade com o teu texto, provavelmente há uns anos atrás nem questionava (à parte de achar que foi uma falta de respeito, o tipo não te ter avisado dos planos dele, para evitar que levasses seca), mas a vida vai-nos mostrado que nem tudo é assim tão linear.

    IMO, devemos ser livres numa relação, sim, absolutamente de acordo.. mas com algumas reservas, pois existe o risco de a longo prazo a relação deixar de ser sustentável. Se cada membro do casal ter os próprios amigos, e fazer poucos programas juntos, porque não têm amigos comuns, ao longo do tempo vão cavando um fosso. E às tantas quando dão por isso, já mal se conhecem, e já pouco têm em comum porque tem sido cada um sempre por si. Criaram rotinas diferentes, cada um quer ir para seu lado, e acabam por a) não fazer nada juntos, b) alguém fazer algo contrariado. Infelizmente tenho um amigo a passar por esta situação, com uma relação de duas décadas a desmoronar-se porque houve demasiada liberdade..

    Acho que o segredo está no equilibro, e em nunca dar nada por garantido. Deixar a porta entre-aberta, para existir sempre uma pontinha de receio que um dia, aquela porta pode fechar.

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    1. Mas imagina: muito dificilmente um casal tem amigos em comum (a não ser que já sejam relações do tempo de faculdade) porque se conheceram no trabalho ou noutro contexto qualquer. É normal nós termos as nossas amigas e eles terem os amigos deles. Se podemos fazer planos em conjunto? Claro que sim e é óptimo. Mas também é bom manter as mesmas rotinas com as amigas e um homem não tem de vir de arrasto só porque somos um casal. No meu caso, aconteceu-me o oposto: uma relação que se desgastou exactamente por esta obrigação de se fazer tudo a dois, a obrigação de eu estar com os amigos dele quando não me apetecia minimamente e ele ficar "magoado" porque eu não fazia o "esforço". Porque razão se devem fazer esforços? Foram esses esforços que saturaram a relação. Claro que quando falo em deixar a porta aberta não é cada um ter a sua vida em separado e dormirem juntos. Claro que não. Falo de uma pessoa se sentir confortável para ser como é e fazer o que quiser porque o companheiro/a vai alinhar ou respeitar...

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  5. Obrigada por este texto, era exatamente isto que precisava ler hoje. Foi como um balde de água fria para a minha cabeça, para a minha relação e a forma como levo as coisas.

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    1. Oh.... Espero que tudo se resolva e que este texto/pensamento tenha servido para, pelo menos, te acalmar as ideias :)

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  6. Tenho um marcador de livros com uma citação do Pablo Neruda que diz qualquer coisa como "Para que nada nos amarre, que nada nos una"... Não sei se é exactamente assim, ou mesmo se é dele ou não, mas a ideia central remete para o difícil equilíbrio que se busca constantemente numa relação entre duas pessoas e que, em maior ou menor grau, interfere com a variável "liberdade". É saudável e necessário que cada um possa manter uma vida própria, mas creio que é ilusório pensar que nada se alterará, a partir do momento em que essa vida passa também a incluir o outro. A medida certa desse equilíbrio não existe, mas existe o que cada um considera adequado. E, sobretudo, autêntico. Eu, porque sei que ninguém gosta de se sentir cobrado e tenho um bom autodomínio, já agi desse modo, "ai sim, não vens? tudo bem, depois combinamos"... Mas, ao contrário da história da Helena, não era uma reacção autêntica. Eu ficava furiosa e sentia-me desrespeitada. O resultado passava por um progressivo ou abrupto afastamento que o outro nem sequer percebia de onde vinha. Tudo porque eu tentava comportar-me do modo que eu considerava ser mais "cool"... mas, eu descobri que não sou cool e não tenho receio de o demonstrar. Não se trata de ter uma discussão gratuita, mas sim de deixar claro o que aceito e o que eu não estou disposta a aceitar e cada um definirá os seus limites: chegar a casa às 5 da manhã, não ser incluído nos planos de fim-de-semana, trocar os planos de um encontro sem aviso prévio… Buscar a tranquilidade é fundamental, mas por vezes isso também significa encarar a tormenta.

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