Sabem o que se ouve no meio de um incêndio? A minha história

18 de junho de 2017

fotografia do DN

Talvez o que vou contar seja mal interpretado. Afinal de contas, estou aqui sentada no conforto do meu sofá, no fresco da minha casa e na segurança aparentemente garantida. Mas queria partilhar a minha experiência no mais próximo de um incêndio florestal que estive.

Em 2002 ou 2003 - não sei precisar o ano mas lembro-me que isto se passou com um namorado que tive antes da faculdade, então só consigo precisar que terá sido num destes verões - estava de férias no norte e fomos à Covilhã ver uns familiares dele de fora que iriam lá estar. Os tios dele apanharam-nos bem cedo em Castelo Branco e lá fomos com destino à Covilhã. Não faço ideia a estrada ou o percurso que fizemos. Tinha 17 anos, não conduzia e vivia na ingenuidade de que todos os condutores sabiam o que faziam. Era um daqueles dias de bastante calor e à entrada da Covilhã vimos que havia fogo por todo o lado.

Lembro-me de irmos no carro, de janelas fechadas, e conseguirmos ouvir o som silencioso e ao mesmo tempo ensurdecedor que o fogo faz. Esse som nunca me saiu da cabeça até hoje e já contei esta história a vários amigos quando falamos em incêndios. Se pensar nele neste exacto momento, consigo ouvir aquele barulho dentro de mim. Um som fantasmagórico que não deixa de gritar nos nossos ouvidos, embora não consigamos precisar ao certo o que estamos a ouvir porque, na verdade, não estamos a ouvir nada. Não sei se esta descrição está certa ou se existe um nome para o que se ouve no meio de um incêndio, mas é como um grande "uuuuu" dentro dos nossos ouvidos que grita mais alto que o som do crepitar da floresta a ser queimada. O ar era pesado - mesmo com as janelas fechadas - e o cheiro absolutamente intenso. Chegados à Covilhã, saímos do carro para ver o que se passava (quão irresponsável isto hoje me parece) e havia pessoas a correr por todo o lado com alguidares e bidões de água nas mãos. Toda a gente corria para tentar apagar o fogo que estava ali mesmo em redor da estrada e a chegar perto das casas mais próximas. Lembro-me de me darem um lenço branco para colocar na cara e de achar aquilo tudo absolutamente assustador mas, ao mesmo tempo, como se estivesse num cenário de um filme. Passado um pouco fomos embora e continuámos caminho até à casa dos avós dele que não faço ideia onde era mas, dentro da Covilhã, já era num local bem longe de todo este cenário dramático. Lembro-me do céu negro, do ar quente, do grito do fogo que ainda se ouvia a quilómetros de distância.

Se pensar bem, isto foi há uns 14 anos. E embora a memória das chamas mesmo ali ao nosso lado na estrada me ter aterrorizado, nunca pensei num incêndio florestal com a mesma magnitude daquilo que está a acontecer no Pedrógão Grande. Ou seja, nunca em momento algum aos 17 anos imaginei que pudesse morrer por estar no carro no meio de um incêndio que chegava até à berma da estrada. Lembro-me de chegar a casa e de contar esta experiência aos meus pais inclusivamente no meio de alguma excitação.

O que quero dizer com isto? Que todos nós temos alguma responsabilidade social com os nossos actos. Temos de ter cuidado com a forma como vivemos. Temos de pensar naquilo que atiramos janela fora enquanto conduzimos (eu não atiro rigorosamente nada mas o que mais vejo é 1) beatas, 2) restos de fruta e 3) pacotes e embalagens de qualquer coisa). Temos de pensar nas festas que fazemos na praia, no pinhal, na relva, na sombra das árvores e nos restos de material que deixamos para trás. Tenham cuidado agora nas férias durante as viagens. Certifiquem-se que o percurso que vão fazer está seguro e longe de qualquer incêndio que possa estar activo.

Enfim... não estou a dizer nada de novo. É apenas uma partilha desta memória. Os meus pensamentos estão, neste momento, para com as vítimas e as suas famílias.

Para quem quiser ajudar, é só entregar donativos (águas, fruta, enlatados, barras energéticas e alimentos que não se estraguem) no quartel de bombeiros mais próximo da sua residência. Serão distribuídos pelas corporações a combater em frentes activas.

E que Deus nos proteja este verão que se avizinha bem quente e dramático.

6 comentários

  1. Bolas Helena, deixaste-me a pensar. Eu acho que o erro maior foi uma estrada em tal perigo, não estar cortada.

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    1. Eu penso que terá sido tudo muito rápido. Li algures que o fogo alastrou 5km no espaço de 10 minutos... :/

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  2. Bem, Helena... nunca estive assim tão perto de um incêndio, não consigo sequer imaginar essa sensação e esse som que descreves... O que temos visto na televisão tem sido mesmo terrível e de levar às lágrimas... :/

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  3. Há ainda um número para ajudar: 760100100 para doar 50 centimos.

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  4. Sigo pontualmente o teu blog e acho que quando algum post não nos agrada simplesmente passamos à frente e lê-mos outra coisa. Ainda assim, apesar de entender que é um tema do momento, acho que não é minimamente propositado... desfasado, até.
    Votos de boa escrita!

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    1. Joana, é um blog pessoal, são memórias, são pensamentos, são coisas que me passam pela cabeça, sei lá. Não é propositado porquê? Porque é um post com uma conotação triste? Antes partilhar este pensamento do que, com o país a arder, estar a falar das dúvidas do momento: que fato de banho vestir neste sábado de calor? (como vi em 39539839 instagrams e blogs). Se temos uma voz, temos de a usar. E é lemos e não "lê-mos". Beijinho :)

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