10 anos a falar de empowerment

21 de julho de 2017

A Evódia que, hoje em dia, trabalha em vários projetos com mulheres cabo-verdianas e criou a plataforma Womenise It

Teremos nós capacidade para nos apercebermos dos momentos que mudam a nossa vida? Continuo a achar que não. Se tivéssemos consciência deles, dar-lhes-íamos muito mais atenção. Mas, nesse caso, talvez não se tornassem momentos-chave de mudança.


Em 2009, tinha acabado de sair da faculdade, começado a trabalhar numa associação de apoio à mulher vítima de violência doméstica (ia acabar por odiá-la e criar um ódio de estimação a esta gente) e, numa brincadeira porque sempre fui pró-mulher, concorri a um projecto que nem sabia muito bem o que era - o De Mulher Para Mulher - da Rede Portuguesa de Jovens para a Igualdade de Oportunidades entre Mulheres e Homens.

O objectivo era pegar num grupo de jovens e dar-lhes a oportunidade de ter um ano de mentoria com uma mulher de sucesso nas áreas profissionais relativas a cada jovem. Saiu-me na rifa a Margarida Medina Martins, presidente da AMCV (Associação de Mulheres Contra a Violência) com quem tive oportunidade de, na altura um bebé com 22 anos, ganhar consciência da luta contra os abusos contra mulheres e crianças. Acreditem, apaixonei-me por ela. De verdade. E agradeço-lhe tudo o que me ensinou e a forma como me sensibilizou (acabei por me despedir da associação onde trabalhava por não me identificar com os valores deles que iam contra tudo aquilo em que eu acreditava). Além da mentoria, este projecto proporcionava viagens e encontros de mulheres para se discutir o feminismo, se aprender mais sobre este tema num momento em que, na verdade, muito pouco se falava dele, e, acima de tudo, ganharmos consciência da necessidade de termos uma voz activa e de sermos agentes de mudança no mundo.

Fizemos tantas coisas giras. Fomos a congressos, ao parlamento europeu, falámos de feminismo na rua, em escolas, na assembleia da república, em comunidades e, o que realmente gostava de partilhar, todas nos tornámos agentes de mudança cada uma à sua maneira. Foi em 2009 a primeira vez que ouvi a palavra "empowerment" e nem fazia a mínima ideia que esta palavra se iria tornar um chavão da minha vida.

Claro que nem tudo foram coisas bonitas. A dada altura fui trabalhar para uma revista feminina e fui obrigada a por de lado os meus valores feministas porque a revista era totalmente contra eles. Lembro-me de, num momento, uma das coordenadoras deste projecto me ter enviado um email a questionar como é que eu podia estar a escrever artigos tão machistas (por ex: o que é que os homens não gostam nas mulheres) depois de tudo o que tínhamos vivido. E, na altura, eu sabia que ela tinha razão. Como não ter? Mas precisava mesmo muito de trabalhar ali durante mais algum tempo e tinha de, basicamente, comer e calar com o que me pediam para escrever. Mesmo que me doesse a alma ao fazê-lo.

Quase 10 anos depois, posso dizer-vos que tenho a certeza absoluta que se hoje sou o que sou foi em grande parte graças aos dois anos em que me envolvi neste projecto e em que aprendi o que é ser mulher num mundo que (ainda) precisa de lutar pelas mulheres. Além da forma como mudou os meus objectivos, fiz amigas para a vida. Muitas das mulheres que conheci estão hoje envolvidas em projectos fantásticos em diversas áreas mas todos eles com base no empowerment e na igualdade de género. Se em 2009 éramos apenas umas miúdas a aprender a ter uma voz, hoje somos mulheres a dar (cada uma à sua maneira) uma expressão a essa voz.

O que quero dizer com isto é que por vezes a vida leva-nos para caminhos que nem sabemos muito bem o significado ou o impacto que vão ter na nossa vida. E devemos aceitar esses caminhos de braços abertos e ver o que têm para nos dar :)

Obrigada a todas as mulheres fantásticas que conheci porque, mesmo sem saberem, fizeram-me encontrar a minha voz e tudo aquilo que sou, escrevo e defendo hoje.

Agora um momento nostálgico... eu sei que não interessa a ninguém (a não ser quem viveu isto) mas queria mostrar-vos como fazermos parte de qualquer coisa maior que nós próprios pode mesmo ter um grande impacto na nossa vida :)

Para saberem mais sobre a Rede Portuguesa de Jovens para a Igualdade e dos projectos que vai tendo, sigam no Facebook aqui.














1 comentário

  1. Gosto tanto do teu blog, Helena. Descobri-o à pouco tempo depois de ler o teu livro e ainda me consegues surpreender. Adorei saber deste projecto do qual fizeste parte e do caminho que tens vindo a percorrer. Se calhar, nunca terias escrito o livro se não tivesses passado por esta experiência.
    Parabéns e continua a escrever mais :-)
    Luísa

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