Já não nos apaixonamos como nos anos 90. Porquê?

15 de setembro de 2017

Numa altura em que o drama não era tão julgado como hoje - em que colocamos um like em todos os fins de relações virtuais - as pessoas amavam intensamente. Oh se amavam. Sem medo. Sem vergonha do que os outros iriam pensar. Sem receio de serem filmados ou fotografados e, posteriormente, gozados nas redes sociais. A primeira vez que me apaixonei escrevi longas cartas de amor que, no fim das aulas, colocava no correio dele e rezava para não ser a mãe a abrir. E os beijos que troquei com o irmão de uma colega minha no muro atrás do refeitório sem ninguém ver? E o meu primeiro namorado (por favor, têm de ler a história dele) e os longos telefonemas à noite? Já me tocaram Wonderwall de Oasis à janela do quarto (sendo que eu morava no terceiro andar e meia rua veio à janela ver o que se passava). Um amigo vestiu-se de Axl Rose no carnaval para irmos juntos a uma festa. Outro escreveu numa folha as dez coisas que fariam de mim a namorada ideal (nunca chegámos a ser namorados mas guardei essa folha até hoje). Um rapaz que conheci um verão ofereceu-me papoilas vermelhas e um perfume Kenzo por ter... papoilas (que eu adorava). Sempre que cheiro Kenzo, lembro-me dele. Chamava-se Rafa e nem sequer sei o apelido para o poder pesquisar nas redes sociais. Portanto, tornou-se apenas uma memória bonita.

Naquela altura não havia chats, nem likes, nem fotografias, nem Facebook, nem email, nem skype e a única forma que tínhamos de mostrar que gostávamos de alguém era através daquele gesto velhinho e estranho, sabem? Chamado: demonstrar. Tínhamos que demonstrar. E tínhamos que ter cojones. Romântico não é? Então porque é que não continuamos a amar como nos anos 90? Porque é que continuamos a gostar de homens que estão três dias para nos responder a um Whatsapp quando, nos anos 90, trocávamos números de telefone de casa em papéis e, ainda assim, conseguíamos ter a habilidade de conversar todas as noites?


Há tanta coisa que as relações de hoje precisavam de ter novamente...

Não podíamos conhecer pessoas na internet. Tínhamos mesmo que ter a coragem de as abordar na rua, nos cafés, nos museus, nos autocarros e torcer para que não fossem malucas. Era tudo muito cru, muito desajeitado, muito natural e sem grandes embelezamentos e, vejam lá, as pessoas apaixonavam-se mesmo sem fotografias em fato-de-banho e selfies cheias de filtros. Porque nos apaixonávamos pelo mistério, pelo sorriso, pelos olhares que se trocavam. Hoje se alguém for misterioso, meu Deus, só pode ter um problema qualquer. Porque hoje mostramos tanto da nossa vida que não deixamos que os outros nos tentem conhecer. Hoje sabemos tanto uns sobre os outros que, na verdade, acabamos por não saber nada. Hoje falamos tanto todo o dia que, na verdade, acabamos por não dizer nada. É tudo virtual. Tudo irreal. Falamos por chats e stories e facebooks e snapchats e instagrams e whatsapps mas perdemos aquilo que realmente dava cor à nossa vida - o telefone tocar e ouvirmos aquela voz... a voz com que andávamos a sonhar o dia inteiro a questionarmo-nos se ele iria ou não telefonar.

Imaginem simplesmente um mundo sem redes sociais, selfies estúpidas e chats no telemóvel. A nossa vida era tão mais simples. E também o amor. Não passávamos horas a navegar numa aplicação a ver homens (e mulheres) eternamente à procura da próxima pessoa melhor. A pessoa de quem gostávamos era a melhor. E não nos preocupávamos com a próxima e a próxima e a próxima. Claro que também havia drama. E sofríamos - sofríamos muito! Mas, felizmente, não tínhamos uma audiência virtual a julgar-nos com o botão do like. Não nos preocupávamos com os dramas de ter de apagar alguém do Facebook ou deixar de seguir no Instagram ou - Jesus Cristo! - ter de actualizar o status da relação para meio mundo ver.

Sofríamos em silêncio na solidão da nossa casa. Ouvíamos músicas de amor intensas e absolutamente sofridas sobre histórias de amor alheias tão tristes quanto as nossas. E aprendíamos com isso.

Se muitas músicas de hoje nos ensinam a esquecer um amor com uma noite de sexo ou a vingarmo-nos com o melhor amigo dele, as músicas dos anos 90 diziam-nos que aquela pessoa era a única que nos faria sobreviver. Não havia mais nada para lá do amor. As músicas diziam-nos para continuarmos a demonstrar o nosso amor, para acreditarmos, para lutarmos por essa pessoa. Pearl Jam cantava-nos sobre o amor de que iríamos ter saudades a vida toda, Alanis Morissette sobre o eterno homem casado que amamos em segredo, Sinéad O'Connor sobre aquele homem que perdemos e continuamos a amar com a nossa vida, Aerosmith cantavam sobre aquele amor que nos mata, os Green Day sobre a sua imprevisibilidade, os Incubus sobre amar apesar do que quer que seja que o dia de amanhã traga e mesmo na música pop dos adolescentes, Spice Girls cantavam-nos sobre o amor que precisamos, os BackStreet Boys gritavam para pararmos de brincar com o coração deles, o Ronan Keating (lembram-se dele?) cantava sobre aquele amor que, mesmo sem falar nada, conseguia iluminar a escuridão, os Savage Garden sobre amar mais alguém que a nossa própria respiração. Era tudo violento, intenso, excessivo, febril, ardente. Mas era amor.

E nós aprendemos com isso. Aprendemos a amar com essa intensidade. Com essa dureza. Essa exuberância. Essa expressividade.

Então porque nos desleixámos para meia dúzia de fotografias trocadas numa aplicação e conversas sexuais às duas da manhã por mensagens para aquecer o coração?




















6 comentários

  1. O amor era mais fácil porque, lá está, tinhamos de demonstrar que queriamos conhecer a pessoa. E para nos apaixonar-mos, tínhamos de conhecer a pessoa, falar com ela, passar um bocado de tempo com ela. Se olharmos par auma fotografia no instagram ou começarmos a ler o que a pessoa escreve na web, talvez perdemos o interesse logo.
    O que se fazia antigamente sem internet era de fato mágico. Não havia maneira de a pessoa afastar-se. Vivia-se muito mais o presente e demonstrava-se esse amor ao vivo e a cores. Bons tempos!

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  2. Acredito que seja difícil encontrar alguem "à séria". O que não entendo é quem identifica os problemas com a maioria dos homens e ainda assim persiste no erro. Caramba, se eu estivesse realmente interessada em alguém e a pessoa me demorasse 3 dias a responder no Whatsapp (isso e outras coisas, mas é exemplo que usas), o interesse morria ali. Por que razão continuam a agir contra vocês próprias?

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  3. Sou de poucos amigos, na realidades, amigas a sério tenho duas. E sobre o que falas neste post, conversamos nós as 3 sempre que vamos jantar e a sangria ajuda a deitar cá para fora umas opiniões sinceras. Penso exatamente como tu, mas estou tão absorvida nesta "vida moderna" (da merda) que nem sempre consigo agir como quero, é parvo, mas tenho dificuldade :/ tu consegues? consegues desligar-te das redes [anti]sociais e combinar cafés com o gato que vai tomar café ao mesmo sítio que tu ou com o intelectual jeitoso que vai no metro a ler sempre às mesmas horas que tu? Parece que é tão difícil, parece que já não sei fazer isso :/
    Um beijinho, Helena *
    https://umachavenadecharme.blogspot.pt/

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    1. Depende muito das pessoas e dos ambientes. Eu achei perfeitamente normal, há quase um ano, deixar o meu número de telemóvel na mesa de biblioteca de um rapaz que via lá quase diariamente. Começámos a namorar pouco depois. Mas eu nunca tive vontade de instalar o Tinder e não uso as redes sociais como catálogo de homens, portanto aos 25 anos não me revejo no tipo de relações aqui relatadas.

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  4. Amei!!!! Sou desse Tempo: do tempo dos olhares, dos toques subtis dos recados, dos encontros casuais (coincidência preparada :P). Tudo era intenso e bem mais real. Longas conversas com as amigas acompanhadas por verdadeiras bandas sonoras. Ohhhh como viajei agora... OBRIGADA!
    Para mim as redes sociais servem para estar perto dos amigos e família quando moramos longe (sou migra), servem para saber os aniversários de quem amamos (tenho um verdadeiro problema com datas), servem para ler estas coisas fantásticas que escreves (sou fã de facto apesar que ainda não comprei o livro - falhaaaaa!P.S. - adoro as 2ª feiras para ler o projecto 26 mil hora)

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  5. Curioso, q nem pareces ter idade para realmente ter feito essas coisas nos 90.

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