3 meses no ginásio e algumas observações sobre coisas ridículas

18 de outubro de 2017


Eu sou a última pessoa que os ginásios gostem de lá ter. Basicamente porque odeio ginásios e odeio o conceito dos ginásios. A ideia de estar em cima de uma máquina a olhar para a parede durante vinte minutos é o mais próximo do inferno que me consigo imaginar (embora no passado até já tenha tentado, calma, mas acabei sempre por desistir porque me apetecia cortar os pulsos a ir ao ginásio). Foi exactamente por isso que - devido a uma lesão no joelho e a imposição de algum exercício físico - me juntei ao grupo da terceira idade e entrei num ginásio para fazer hidroginástica. E natação, vá. Mas apenas isso.

Os meus pais moram ao lado de um que tem grandes paredes em vidro para a rua. Mas não é um ginásio qualquer. É um daqueles que treina pessoas para competições de culturismo... até às onze da noite. Sempre que lá vou jantar e, de papo cheio, entro no carro para ir para casa, passo pelas grandes paredes de vidro onde vejo uma dúzia de tipos musculados em t-shirts de alças a grunhir e a levantar pesos. Questiono-me sempre se não terão família, esposas, filhos ou, sei lá, um sítio melhor onde estar às dez da noite.

Não é isto que me aflige, na verdade. Isto era apenas uma observação.

De Julho até agora - o tempo em que passei fisicamente quatro dias por semana num ginásio com o grupo do lar de idosos - observei uma série de coisas que, essas sim, me afligem e me fazem uma confusão tremenda. Ou se calhar sou eu que já estou com a personalidade da velha rezingona.

O que fazem miúdas de 16 anos num ginásio?

Esta foi a primeira coisa que me deixou perturbada: ver miúdas de 16 e 17 anos no ginásio. Mesmo no tempo em que era absolutamente fã da Malhação (deixava a gravar em casa enquanto ia para a escola), e as primeiras temporadas foram filmadas no conceito e espaço do ginásio, nunca tive esse chamamento. Aquilo era algo mesmo muito fantasioso, uma coisa muito "abrasileirada" onde as adolescentes "malhavam" todas as tardes na academia ao mesmo tempo que estudavam para o "vestibular". Os namoricos, os dramas e as acções aconteciam entre uma aula de dança e uma sessão de bicicletas, lembram-se? Mas, na verdade, nunca tive amigas que andassem no ginásio. Andávamos sim no basquet, na natação, na patinagem, no corfebol e sei lá mais em que desportos de competição pelo prazer de jogar. Então, confesso que me faz confusão ver adolescentes em cima de máquinas simplesmente a passar o tempo. Como se não houvesse nada de melhor para fazer aos 16 anos.

E a maioria (para aí 95%) das que vi são miúdas com corpos absolutamente normais, de mini-calções, top curtos, maquilhadas e todas elas menores de idade. Do modo que me custa compreender porque razão adolescentes estão em cima de uma bicicleta a olhar para nós - os velhos - na piscina, ao invés de estarem, sei lá, a fazer qualquer outra coisa. No outro dia no balneário assisti a uma conversa entre três miúdas que me deixou ali parada a olhar para elas de cuecas na mão deliberadamente a ouvir. Mesmo à velha.

- Não sabia que vocês andavam cá - diz uma miúda loira em mini calções de lycra (que saudades de usar calções de lycra sem ficar com as bochechas do rabo a abanar para todos os lados) para outras duas que se estão a vestir, também elas de mini-calções.
- Só começámos mesmo hoje - responde uma das outras - viemos ver agora como é.
- E vão fazer o quê? - pergunta a loira.
- Vamos fazer máquinas, claro, bicicletas e se calhar a zumba - responde a mesma.
- Ah! Eu também faço máquinas para tonificar - diz a loira radiante por vir a ter companhia - amanhã na escola bora ver o horário para combinarmos vir as três juntas.

E eu estava a olhar porque a miúda loira era perfeita. Aliás, eram as três. Tinha um corpo bonito, um rabo redondo como só se tem aos 16 anos - claro que olhei - e umas pernas sem qualquer grama de celulite. Porque não estão, então, a passear? A curtir a adolescência? A namorar? A ver os rapazes da escola? A ir ao centro comercial? À praia? Ao cinema? A ler? Ou em casa de amigas a escrever diários e a ver filmes? A falar sobre a vida? Se calhar agora já não se vive a adolescência como no meu tempo, é verdade, mas todos os dias que vejo uma miúda sentada em cima de uma máquina apetece-me arrancá-la de lá e mandá-la viver a sua juventude porque vai passar a voar. Meu Deus, se calhar transformei-me numa velha.

Nunca vi tantos pipis de uma vez só

Isto é um fenómeno, acho eu, da terceira idade. Mas felizmente ainda não cheguei lá. Não entendo porque razão, depois dos 65 anos, todas as mulheres gostam de andar nuas no balneário. Secam o cabelo nuas. Arrumam a roupa no cacifo nuas. Espetam o rabo - nu - para colocar o cremezito nas pernas. E andam ali a cirandar para lá e para cá... nuas. Isto quando não estão a abrir as pernas e a inclinarem-se ligeiramente para a frente para secar o pipi com a toalha enquanto conversam umas com as outras.

É toda uma enchente visual de pipis como nunca tinha visto na vida. A minha mãe - que é uma velhota com as ideias no sítio - ficou chocada na primeira vez que começou a ver toda a gente nua à sua volta. Disse-me: meu Deus filha, nunca vou andar aqui nua. E desde então, começou a vestir-se dentro das casas-de-banho do balneário. Não precisamos chegar a tanto... é certo. Este momento do balneário pode ser vivido em meio-termo: não deve ser em total constrangimento porque somos todas mulheres mas também nunca em total liberdade. Ou seja, não é preciso andarmos de roupão e quase a tomar banho vestidas para nos escondermos do mundo. Mas também não vamos andar como se fossemos crianças de cinco anos a conversar nuas de pernas abertas no corredor. Eu visto as cuecas com a tolha à volta da cintura e, para vestir o soutien, viro-me de costas para as vizinhas. Seco o cabelo vestida. Calço-me vestida. E arrumo as minhas coisas vestida. Qual é esta necessidade de andar nua para lá e para cá como se o acto de se vestirem fosse a última coisa que têm de fazer? Não entendo.

Qual a obsessão em usar sempre o mesmo cacifo? Como se os outros tivessem sarna...

Como não tinha nada para fazer no sábado, fui com a minha mãe a uma aula de hidroginástica às cinco da tarde. Na verdade, adoro ir ao sábado porque está vazio e as aulas só têm quatro ou cinco velhotes. E assisti a uma situação ridícula. Com o balneário vazio e 99% dos cacifos livres, entrou uma velhota e veio directamente para o meio - entre mim e a minha mãe. Ficou ali toda nua só de chinelos nos pés, a tirar a sua roupa da mala e a vestir o fato-de-banho colada a mim e à minha mãe que, entre risos, fazíamos gestos por trás dela e nos questionávamos porque razão veio para o nosso espaço pessoal com todo um balneário vazio. Só me ocorre que é daquelas que quer aquele cacifo porque quer e porque sim e nada mais serve.

Afinal, os pêlos púbicos não se querem à la bebé 

Além das velhotas que passeiam nuas, claro que dou por mim a olhar para outras mulheres. Serei só eu? Acho que é perfeitamente normal. Não posso estar no balneário de palas nos olhos. E a verdade é que tenho observado que praticamente todas têm pêlos púbicos. Tufinhos, vá. Esta é uma daquelas conversas do género em que ninguém vê a Casa dos Segredos mas toda a gente sabe o que se passa. Parece que toda a gente diz que faz depilação à brasileira só para parecer fixe mas a verdade não é bem assim. O que até me deixou bastante tranquila. Viva o tufinho.

E outras coisas ridículas que, como quem não quer a coisa, fui observando

As selfies... ai as selfies. Parece que toda a gente treina de telemóvel na mão. As raparigas fazem selfies no espelho do balneário e em cima das máquinas. E numa das salas de aulas de grupo está afixado num papel enorme à porta: proibido tirar fotos ou filmar. Isto era escusado (acho eu...).

Uma notícia do jornal I diz que uma em cada dez pessoas tem orgasmos durante um treino no ginásio. Adorava tê-los. Mas é impossível no meio de velhotes em fato-de-banho cueca que cantam durante a aula de hidroginástica, pipis no balneário e tipos em t-shirts de mangas cavas que levantam pesos com cara de quem está na sanita a fazer força (diga-se, para o nº2 sair), vermelhos e com as veias da testa salientes.

Há um dia por semana em que a minha aula de hidroginástica é ao mesmo tempo que a natação de uma turma de miúdos. Os pais aglomeram-se durante 45 minutos no vão de escada à porta de vidro para a piscina a tentar ver o seu rebento a saltitar na água. Não seria mais útil usarem esse tempo para fazerem qualquer coisa por eles? Só imploro para não me tornar numa dessas mães.

Estas são as mesmas mães que - cinco minutos antes da aula de natação da criançada acabar - já estão lá em baixo a guardar o seu chuveiro de toalhas e champôs na mão. Como a aula de hidroginástica acaba cinco minutos antes da natação, sempre que chego ao balneário tenho de andar pelos chuveiros tipo 'onde está o Wally?' à procura de um que não tenha uma mãe lá dentro a fazer de cão de guarda.

Se eu vou continuar no ginásio? Sim. Por várias razões. Já estou óptima do joelho e podia parar as aulas de hidroginástica mas vou para acompanhar a minha mãe que ela, sim, precisa de se mexer mais. E a verdade é que acabei por gostar delas. Sou quase uma ginasta da água e sinto-me sempre bem quando saio de lá. Mas a minha capacidade para tolerar um ginásio termina aqui. Dêem-me uma piscina em casa e deixo de lá ir.

14 comentários

  1. Epá, obrigada! Achava que era a única a estranhar as miúdas nos ginásios. Não me parece a evolução natural. Lembro-me de me ter inscrito num aos 18 anos e sentir-me um pouco deslocada daquele ambiente, com saudades de fazer desporto efectivamente. As aulas de grupo ainda se safavam mas mesmo assim não é a mesma coisa. Ainda hoje, aos 35, tenho saudades de jogar basket ou de patinar. #aadolescênciajánãoéoqueera

    ResponderEliminar
  2. Também já andei em alguns ginásios e notei que me sinto bem é na piscina. Gosto de vez em quando de correr mas o treino de nadar sabe-me sempre bem - se tivesse uma mais próximo de casa ou em casa, era perfeito!

    ResponderEliminar
  3. Olá Helena! Sigo o teu blog especialmente pelas crónicas sobre o chefe (também já fui jornalista), e, por curiosidade, (e partilhar do teu ódio aos ginásios) li também este texto. Infelizmente, - e como o mundo devia ser feito também por respeitar a diferença de opiniões - achei este texto teu altamente preconceituoso, particularmente nas observações "sociológicas" ao comportamento das mulheres. Posso dizer-te que tenho metade da idade dessas velhotas e padeço da mesma condição: sinto-me extremamente confortável a secar o cabelo despida, a tratar do rosto e corpo despida. Não porque queira exibir-me (faço-o em casa quando estou só), mas simplesmente porque me é bastante confortável e para mim pele é apenas isso, pele. Uma vagina ou um rabo ou um par de seios são tão banais como um dedo do pé. A sociedade é que carregou estas partes do corpo humano de preconceito, de tabu, de "privacidade". É aqui que nos distinguimos dos animais, mas pelas piores razões.

    De qualquer forma, com todo o respeito, quis deixar a minha opinião :). Obrigada e bom resto de trabalho! Sofia

    ResponderEliminar
  4. Como me identifico com o que escreveste! Os ginásios revestem-se de fenómenos únicos que dificilmente entendo. Ainda ontem comentava com uma amiga que no ano passado inscrevi-me num, aguentei heroicamente 6 meses e depois disse “isto não é para mim.” Optei pelo ar livre. Corrida, caminhada e treinos funcionais com um grupo de amigos na praia. E sou muito mais feliz. Gostei muito do teu post, arrancou-me umas boas gargalhadas!
    Bjs
    Rosarinho

    ResponderEliminar
  5. Olá Helena, ao ler isto pergunto-me, não andarás no ginásio errado? Ando no ginásio há 4 anos, tomei essa decisão depois de deixar de fumar e querer ter uma vida mais saudável. Não sou viciada e muitas vezes até nem me apetece ir mas, assim como tu, sempre que saio de lá sinto-me melhor. No meu ginásio fiz amigos e é quase como ir "beber um café" pois à mesma hora que eu vou já há um grupo de pessoal porreiro que vai treinar e conviver um pouco. Mas tenho consciência (pelo que os outros me dizem pois nunca andei noutro ginásio) de que o ambiente neste ginásio é diferente. Posso dizer-te que na maioria não há aquele pessoal que vai mais para olhar para o espelho que para treinar, nem bonecas maquilhadas que só vivem para o Facebook e não vão lá fazer nada. Também há meninas de 16/17 que vão com os pais que também andam lá e há mulheres de 40 com calções de lycra que fazem por continuar a ter o corpo dos 20 (e conseguem-no com exercício). Qual é o mal? Afinal estão só a fazer algo que só faz bem, com 16 ou com 80 anos! Mas também há coisas que me irritam como as senhoras que falam como se estivessem na feira e as que vão tomar banho e deixam tudo espalhado. Também há as que andam sempre nuas e também faço por me vestir o mais rápido possível mas isso acaba por me passar ao lado. Mais importante que o material e as condições que nos possa oferecer um ginásio é o seu ambiente, se não nos agrada talvez esteja na hora de mudar! Beijinhos *

    ResponderEliminar
  6. Hahaha sempre pensei que eu com 24 era uma velha por me questionar o que faziam as miúdas de 16 anos no ginásio, espera onde eu ando há 3 miúdas de 12/13 anos!!!
    Quando comecei perguntavam sempre "Então quantos quilos queres perder? O que queres mudar?" e ficavam sempre espantados quando dizia "não vim perder quilos e não tenho nada no meu corpo que queira mudar", para mim é sobre ir lá deixar toda a vontade de bater em certos colegas ao fim de 8h num escritório ��

    ResponderEliminar
  7. É sempre tão cómico ler os teus posts porque tens a coragem de dizer aquilo que a maioria pensa mas ninguém diz
    Também gostava de perceber as velhotas nuas no balneário, sempre foi algo que me intrigou, isso e as selfies, os cabelos arranjados e a maquilhagem. O ginásio passou a ser mais um estúdio de fotografia!

    ResponderEliminar
  8. Matei-me a rir com isto, mas é verdade! Eu sendo mulher fico tão constrangida quando entro no balneário, não preciso de ver os pipis das outras. E não me venham com a história "ai até parece que não tens uma, estás no meio de mulheres", e então? Preciso de ver o teu tufo?!

    E o mesmo com a malta nova, estão lá porquê? Não tenho nada contra, mas chateia quando se põem de telefone às SMS e a ocupar a máquina sem necessidade.

    Bjs

    ResponderEliminar
  9. Adorei o post. Nem dei pela dimensão dele com tanta afinidade e alívio por saber que não estou sozinha no mundo.

    Apenas acrescento uma coisa a esse rol, que me irrita profundamente e é transversal em todos os ginásios que já fui: a malta deixar os seus sacos nos bancos e ir treinar ou duchar. Em balneários com espaço reduzido, ter alguém a ocupar um duche e um banco... e depois lá estou eu de toalha enrolada a vestir-me num canto qualquer sem ter onde pousar o que quer que seja.

    E adoro fazer hidroginástica com a malta da terceira idade :D :D

    ResponderEliminar
  10. post pobrezinho. tanto paternalismo da treta, tanta coisa a apontar... credo menina.

    ResponderEliminar
  11. Para mim o pior de tudo mesmo, são "essas mães" que vão guardar o chuveirinho para os filhinhos tomarem banhinho! Que horror...isso era coisa para me dar um avc de cada vez que lá fosse...credo!!!!

    ResponderEliminar
  12. Bravo! FI-NAL-MEN-TE alguém que menciona o facto de existirem sempre as mulheres que andam nuas pelos balneários, gostam de pôr o creme nuas de perna aberta, secam o cabelo nuas, conversam nuas, falam ao telemóvel nuas, etc.

    Por mim, as queridas até podem andar nuas a fazerem o pino em casa, no jardim ou garagem delas o tempo todo se quiserem, mas num espaço COLECTIVO deve imperar bom senso e a educação - lá porque estou num balneário e obviamente tenho de me despir para tomar banho não significa que eu tenha de me estar a marimbar para as outras pessoas COMO SE ESTIVESSE NA MINHA CASA.

    As queridas que vêem olhares preconceitosos em quem não gosta de andar sempre nu ou de ver 30 pessoas nuas a exibirem-se em seu redor têm uma lacuna grave e que é mais fácil de colmatar em tenra idade...

    Talvez seja boa ideia surgirem outros "grupos" de mulheres nos balneários, por exmemplo: o que "gosta de fazer depilação e cortar unhas nos balneários"! É uma EXCELENTE ideia depois do banhinho os poros estão abertos, a pele limpa de gorduras e poluição e a unhas molinhas. Se alguém quiser começar este "movimento" eu alinho, mas visto o soutien e cuequinha à mesma! =D

    ResponderEliminar
    Respostas
    1. Tirando dois ou três comentários de pessoas aparentemente "iluminadas", o resto resume-se a mulheres mesquinhas, preconceituosas, complexadas e muitíssimo atrasadas. Aliás, atrevo-me a dizer que é exatamente por este tipo de pensamento que ainda estamos neste patamar sexista. Tratem mas é dos vossos pipis e deixem de cobiçar os outros.

      Eliminar
    2. Jesus Anónimo, tanta matéria podre aí dentro. É uma sátira. Deixa-te lá ficar com o teu pipi sem sentido de humor que o nosso vai continuar a rir. A vida já é demasiado séria para não podermos brincar com coisas tão básicas como esta.

      Eliminar

Latest Instagrams

© Helena Magalhães. All Rights Reserved. Design by Fearne.