As redes sociais não são um local feliz (deixei de seguir tanta gente e vocês deviam fazer o mesmo)

21 de novembro de 2017



Este era um texto que já tinha escrito há muito tempo mas que, como em tudo na vida, senti que precisava de alguma maturação. Ou de assentar as ideias e voltar relê-las mais tarde para ver se ainda sentia o mesmo. Porque - acreditem - há imensos textos aqui que, quando os volto a reler, tenho uma vontade louca de os apagar. Ou porque as minhas opiniões mudaram, ou porque os escrevi num momento de tensão ou até porque já não sinto os temas da mesma forma. Mas, ainda assim, tenho-me mantido fiel às minhas próprias emoções e estados de espírito e (ainda) não apaguei nada. Tudo o que lêem - quer no momento, quer meses depois - continua na mesma forma crua e emocional da altura em que foi escrito. E este é um trabalho interno que tenho vindo a fazer - aceitar que, depois de publicado, não posso alterar nada. Tal como se tivesse sido publicado em papel. É essa a obrigação do escritor e até uma forma de não defraudar o leitor.

Eis então porque me questiono se vale mesmo a pena a quantidade de tempo que perco a ver as redes sociais quando, na prática, não me deixam feliz. E deixarão alguém?

Redes sociais, vida real, divertimento e solidão

Há uns tempos fiz uma limpeza ao instagram e deixei de seguir umas 150 pessoas. Ora contas de marcas, ora contas de insta-celebridades, ora contas de pessoas que, na verdade, não me apetecia ver. Não amigos, claro, porque esses são poucos e interesso-me pelo que partilham. Mas conhecidos. Porque isto de conhecermos as pessoas e sabermos (muito ou pouco) da sua vida real faz com que, quando as vemos na sua vida virtual, nos sintamos enjoados com a quantidade de - desculpem-me - merda que publicam.

Queria então analisar porque vemos redes sociais. Talvez para nos inspirarmos, certo? Para nos rirmos. Para nos divertirmos. Para ficarmos um pouquito mais felizes de manhã a caminho do trabalho ou na hora de almoço enquanto deambulamos com o telefone na mão. Para aprendermos qualquer coisa. Para coscuvilhar até a vida alheia. Para viajarmos sem sair de casa. Para ver sítios diferentes. Para ver comidas que queremos experimentar em casa. Para conhecer estilos de vida de pessoas do mundo inteiro. Este é, para mim, o lado bom das redes sociais. E sigo pessoas do mundo  e adoro ver as suas casas, o que comem, onde vão, o que usam, o que leem, como se vestem e retirar daí algo novo para a minha vida. Esta internacionalização que só se tornou possível com a internet é mágica e abre-nos os horizontes. Tem o poder de nos tornar até pessoas melhores. Mais instruídas. Mais abertas ao estranho, ao diferente. É cultura. É riqueza. É informação útil.

Mas isso não acontece se seguimos demasiadas Kardashians e insta-porn-stars e uma quantidade abstrata de gente que partilha uma quantidade de merda irrelevante que só nos torna mais fúteis e burros. Mas ainda assim, também é bom ver este lado mais faits divers da vida. Eu adoro ler e ver filmes e séries e documentários mas também adoro ver reality shows e torcer por coisas tão parvas como o Gaz ficar com a Charlotte no Geordie Shore. Isto faz de mim uma pessoa fútil? Não. Faz de mim uma pessoa normal que se diverte com uma quantidade ínfima de coisas - umas boas, outras más.

Só que as redes sociais também nos permitem entrar na vida dos outros e deixar que os outros entrem um pouco na nossa vida. E temos vontade de partilhar tanto (e demais, até) e, em troca, ter mais likes, mais comentários, mais seguidores, mais marcas, mais dinheiro que perdemos a noção do que partilharmos e da percentagem de realidade que estamos realmente a passar. E será essa realidade virtual aquilo que, na vida real, nos faz feliz?

Eis porque deixei de seguir tanta gente portuguesa


Porque me sentia irritada todas as manhãs ao ver as suas fotografias e os seus vídeos de uma vida fantástica que não e é real. E isto é tóxico. Faz-nos desejar ter essa felicidade e, quando não a sentimos, culpamo-nos a nós. Porque a nossa vida é uma merda. Porque não temos aquele namorado, aquelas roupas, aquela maquilhagem oferecida, não fazemos aquelas viagens, não acordamos daquela forma, o nosso namorado não nos faz aquelas surpresas, não vamos àqueles sítios, não temos aquele corpo... e podia continuar.

Mas sabem o que é que acontece por trás daquela foto perfeita? Tal como a Vânia me contou na minha primeira história de Girl Power, na maioria das vezes o que acontece é... nada. Mostramos o que queremos e não aquilo que realmente sentimos ou vivemos.

Seguia pessoas que mostram uma relação virtual perfeita mas, na vida real, os namorados não lhes tocam, não se sentem amadas, desejadas nem sequer felizes. Mas partilhar uma fotografia juntos dá muitos likes e isso é que interessa. Seguia pessoas que mostram uma vida cheia de coisas mas, na vida real, mal têm dinheiro para comer porque gastam tudo a comprar roupa e maquilhagem para mostrar nas redes sociais. Seguia pessoas que mostram um estilo de vida incrível mas, na vida real, passam o dia agarradas ao telemóvel e à máquina fotográfica, deixaram os estudos e os empregos para tirar fotografias que dão likes em sítios que dão likes com roupas que dão likes. Seguia pessoas que apelam à felicidade e ao aceitarmo-nos como somos mas, na vida real, são tristes, deprimidas, alteram as suas fotografias, colocam tantos efeitos que, no fim, aquilo que publicam é um desenho animado de si próprias mesmo que gritem aos sete ventos que se aceitam com todas as suas falhas.

E isto é o quê? Tóxico. Estar diariamente a receber este tipo de informação que sabemos que não é real, é tóxica. Fica a matutar no nosso inconsciente. Deixa-nos irritados. É por isso que as redes sociais nem sempre nos fazem bem. E contribuem para uma solidão que afecta cada vez mais pessoas.

Talvez o mais importante seja saber filtrar o que se partilha

No outro dia, houve alguém que me disse: tu escreves sobre a tua vida pessoal e, ainda assim, mostras menos do que as outras pessoas. E isto deixou-me a pensar que talvez esteja no bom caminho. Porque escrevo sobre coisas pessoais, é certo. Mas é uma parte da minha vida já editada. O que lêem são histórias. A maioria delas pertencentes ao passado, o que me dá tempo de as maturar. É este o poder das crónicas: escrevê-las já com um certo conhecimento que só o tempo nos dá permite-nos inspirar o agora. O nosso passado inspira o presente das pessoas. E todos temos a aprender com isso. Durante os dois anos em que escrevi a crónica O Amor é Outra Coisa, estava a viver mil e uma outras coisas diferentes que não estava a partilhar. Algumas dessas coisas acabaram por inspirar ao livro.

Mas no momento real não me fazia sentido estar a mostrá-las. Porque a vida é imprevisível. E como não vivemos um guião pré-escrito e que podemos reescrever à nossa maneira, quando as reviravoltas da vida se dão, não temos tempo de as editar para, nas redes sociais, mostrarmos apenas o lado bom. Então, vamos ficando em relações de merda com pessoas que nos tratam mal mas já mostrámos tanto e recebemos tantos likes quando publicamos fotografias juntos que agora não queremos assumir publicamente que essa relação falhou. Que aquela felicidade de conto de fadas não era real. Que depois daquela fotografia juntos a rir na cama, cada um ia para seu lado. E isto aplica-se a tudo e não só às relações virtuais. Mas esta é a praga das relações modernas - o querer partilhar tudo com o mundo como, aliás, já tinha escrito neste post.

Claro que não sou extremista. É bom partilhar aquela viagem que estamos a fazer. Aquela praia onde fomos. Aquele bikini novo tão giro que comprámos. Aquele jantar com as amigas. Aquela tarde no café. Aquele restaurante novo. Aquela vista gira de Lisboa. A nossa decoração da casa. Os nossos gatos. Podemos partilhar tudo e mais alguma coisa e, ainda assim, não partilhar demais. O filtro depende de nós e da tónica que damos ao que mostramos.

Só depende de nós tornar as redes sociais um local feliz. Com mais realidade e menos filtros. Mais amor e menos ódio. Mais inspiração e menos ostentação. Mais mensagens positivas, mais cultura, mais diversão.

No geral, mais vida e menos obsessão com likes.

10 comentários

  1. Helena... TÃO verdade. Desde o início deste ano (2017) que tenho vindo a des-seguir muitas contas que não me deixam mais feliz, que não me inspiram. Ou contas de pessoas que até gosto no virtual e depois conheço e vejo logo que nada daquilo é real, pois a pessoa na "vida real" é só obcecada pela atenção e tudo o que faz é para captar atenção. Entre muitas outras razões, o meu mote é agora: editar, editar, editar. O que escrevo, o que publico e o que vejo. Sou só uma pessoa e não dou conta de tanta felicidade maravilhosa e de tanta vida sem pingo de tristeza. ;)

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  2. Cada vez mais penso como tu. Sobretudo porque notava que quando andava feliz não ia ao facebook quando estou de férias em algum local com amigos ou namorado não me lembrava do tlm a não ser para tirar fotos :) é tão bom não é? uso o facebook para divulgar o meu trabalho, agradecer, informar, pedir conselhos, mas tento segurar-me para não partilhar demais :)

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  3. É mesmo tóxico... muito tóxico...
    Com isto está na altura de voltar a fazer uma limpeza...

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  4. Fantástica crónica Helena! :)

    Acrescentando um pouco da minha experiência, não vivi o boom das redes sociais na altura devida ou quando surgiu o Facebook e o Instagram. No entanto, fui apanhada mais tarde.
    Confesso que mais valia não ter sido. Apesar de não publicar nada da minha pessoal, tornei-me demasiado viciada na vida perfeita das outras pessoas e depois de meses a matutar nisso, percebi que estava a perder prazer em actividades do quotidiano.

    Percebi que tinha dificuldade em aceitar por exemplo, estar em casa durante o fim de semana, porque me apetece descansar e ver séries ou simplesmente não fazer nada. Dava por mim a pensar que enquanto eu estava em casa, toda a gente lá fora estava a ter uma vida bem mais interessante.

    E isso piorou durante o verão, onde parece que o sol e a praia torna as pessoas ainda mais burras e desinteressantes (parece um efeito generalizado - as pessoas só procuram sol sol sol sol sol) e onde há um apelo constante para a pessoa viver desmedidamente (o verão convida a saídas e passeios).
    E logo eu, que sou pessoa de Inverno e frio... Gosto muito de conviver e passear e tudo isso, mas no verão, parece que as pessoas não pensam em mais nada.

    Andava tão ansiosa por sentir que a vida me estava a passar ao lado (dado a quantidade de fotos fantásticas que as pessoas publicam nos sítios mais in), que tive de perceber se seria a única pessoa neste mundo a sentir isso.
    Foi um passo até descobrir o conceito de "Fear of missing out" e o quanto as redes sociais têm um impacto tão profundo em nós.

    Cheguei a um estado de ansiedade tão grande que percebi que tudo se devia ao facto de fazer scroll demasiadas vezes na vida dos outros.

    E ler testemunhos de outras pessoas a passar pelo mesmo, ajudou muito.
    Deixei de seguir muitas pessoas e já nem penso muito nisso.

    Se antes já era reservada a partilhar, agora ainda mais. Tenho amigos que valorizam em demasia isso e eu consegui desapegar-me. Mas torna-se mais fácil nesta altura do inverno, onde parece que não há uma pressão social tão grande para "viver" e onde se torna mais aceitável o conceito de "Netflix and chill".

    Este artigo também me ajudou muito: https://www.theguardian.com/technology/2017/oct/05/smartphone-addiction-silicon-valley-dystopia

    Temos tanto mas tanto que explorar este tema!
    Obrigada pelo teu testemunho! **

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  5. Identifico-me em tudo com este teu texto - retrata a minha opinião atual. Tenho um blog e só ainda não saí do face, pk dá jeito para os grupos no chat que tenho para os amigos. E todos os dias faço dislikes. E se falarmos em blogger em especial - é um sem fim de coisas para dizer. Obriga pela partilha - vou emprestar o teu livro à terceira amiga (eu sei, elas compararm, mas tb me emprestam muitos).

    Beijinhooo
    Rtissima Blog

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  6. Gosto tanto de te ler Helena. Já falámos sobre tudo isto e sabes que concordo contigo.
    Acho que o importante é mesmo saber dosear. E depois acho que no fundo depende de nós. Ou seja, quanto mais pessoas reais procurarmos, menos "realidades" alternativas existirão, porque cansa... a perfeição cansa, principalmente porque é irreal. O bom da vida é a ligação que construímos com os outros e com pessoas assim não conseguimos construir uma ligação, apenas frustração.
    Beijinhos

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  7. Meu Deus, que vontade de partilhar este teu texto, tanto no meu perfil pessoal, como na minha página de fãs. Este texto está "spot on, girl"! :)

    Indiretamente, escrevi semelhante, num desabafo rápido de hora de almoço, sobre a Black Friday e o consumismo incitado por marcas, por estímulos, por impulsos e de como a minha decisão, este ano, é não ceder. Pensar no futuro e nos outros.

    O interessante é que, por exemplo, só regressei ao Instagram este ano, depois de 2 anos afastada, exatamente por ter querido aprender a saber quem sou no meio da pressão da imagem, do instantâneo, da fotografia perfeita.
    O meu IG não é clean, perfeito, super pensado. É humano, com tudo o que isso indica. E lá, até mais do que no Facebook, como uma extensão do blogue, faço publicações de auto-análise, de memórias, de locais e de sentimentos... mas percebo, perfeitamente, que o grosso do IG não é isso - daí não cai na loucura de seguir e de gostar tudo e todos...

    Obrigada por este pedaço teu, connosco.

    Beijinho,

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  8. Helena... o quanto me identifico com aquilo que dizes, no outro dia peguei no meu telefone e reparei que não tinha nem uma fotografia sem maquiagem ou sem filtros, reparei que tinha medo de fazer um simples stories no instagram a falar para não mostrar o aparelho e dei por mim a criticar-me ao ver outros stories e a pensar “porque não sou Assim?”.
    Tirei uma foto sem maquilhagem, sem cabelo arranjado e sem filtros, escrevi um texto enorme precisamente sobre isto (e os meus problemas de aceitação e amor próprio) que ficou nas notas do telefone para um dia publicar (se tiver coragem). Removi amizades do Facebook e deixei de seguir pessoas no instagram e YouTube percebi que estava rodeada de coisas tóxicas e fúteis e foi o melhor que fiz!
    Obrigada Helena por partilhares connosco o tão pouco mas que é tanto, por que há sempre alguém que se identifica com as tuas histórias. Um beijo

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  9. Ora aqui está a verdade. Eu não acredito que o pessoal acorde bem disposto ou que passe o dia a ter uma vida espectacular. Há dias em que me apetece fazer vídeos reais pq ninguém tem uma vida perfeita pah Os vídeos "olhem a minha rotina matinal" metem raiva - pessoal sabem quantas vezes entorno qualquer coisa para o chão logo de manhã? Quase todos os dias... Não me venham com o peixe "tudo é lindo, tudo é fantástico" porque epah não cola

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  10. Olá Helena,
    Antes de mais, parabens pelo blog fantástico.
    Adorei o texto. Li este post e dei por mim a pensar em todas as minhas inseguranças, invejas e tristezas que tenho quando muitas vezes percorro as redes sociais.
    Existe uma grande necessidade de ver e conhecer a vida alheia, muitas vezes só para lamentar e pensar como a nossa própria vida é triste. E depois de ler isto, a conclusão que tiro é que maior parte das vezes, somos nós próprios que assim a tornamos.
    Hoje comprometo me comigo mesma a filtrar e a só manter o que me faz bem.
    Obrigado pelas tuas palavras❤️

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