Os ídolos de antigamente e a nova geração de ídolos virtuais estúpidos

11 de janeiro de 2018


Estava a ler a publicação da Ana Galvão sobre isto das redes sociais e dos perigos inconscientes que se propagam por este mundo fora e aproveitei para dizer de minha justiça. Claro que podia estar a fazer mil e uma coisas mais interessantes e proveitosas e ainda no outro dia uma amiga que discute comigo estas ideias me dizia: não vale a pena falarmos sobre isto porque ninguém quer ouvir. E é verdade, ninguém quer ouvir. As pessoas encolhem os ombros e olham para o lado. Porque, pronto, lá vem esta bater no ceguinho. Mas se eu não usasse esta minha plataforma para falar de coisas que me fazem sentido, de que me serviria tê-la? Para mostrar fotografias minhas em lingerie? (esta foi mesmo matreira, eu sei). Vamos lá:


Eu não gosto do YouTube. Não gosto porque não tenho paciência, talvez porque já sou de outra geração. Não gosto porque criou todas estas personagens que usam o público infantil e (ainda) com pouca consciência de si próprio para ganhar dinheiro e alimentar a sua fama virtual (que nem sequer é real). Eu não conheço os youtubers dos jogos e dos miúdos a que a Ana se refere, mas passam-me pelo estreito as youtubers de moda e beleza que na verdade não sigo porque haja paciência para ver alguém maquilhar-se pela quinquagésima vez. Ainda assim, gosto de ir vendo algumas coisas para me ir mantendo a par. E cheguei à conclusão (e falo sobre isto com imensa gente) que isto das youtubers são as novas Floribelas, se é que me entendem. É temporário e vai acabar porque os adolescentes vão crescer e vão querer outras coisas. E os que agora são crianças e daqui a cinco anos vão ser adolescentes, também irão gostar de outra coisa qualquer que vai aparecer, outras influenciadoras que (com um pouquinho de sorte) passarão melhores mensagens. Porque o mundo gira e é cíclico. Quando eu tinha 13 anos, ficava louca com as Spice Girls e colecionava tudo, comprava tudo, lia tudo, via tudo, sabia tudo. Estivessem as Spice Girls Instagram e à distância de um like, o meu cérebro também teria parado de funcionar temporariamente. As miúdas agora de 13 anos não têm Girl Power mas têm roupas e maquilhagem e youtubers que as incentivam a comprar mais roupa e mais maquilhagem para serem iguais a elas e ganharem de graça ainda mais roupa e maquilhagem. Não é parecido. Mas o mundo muda e as gerações mudam com ele, eu sei.

A diferença é que antigamente havia este endeusamento das estrelas. Eram pessoas distantes que habitavam outra galáxia e isso também trazia alguma consciência relativamente ao que passavam para o público. Houve um dos Backstreet Boys que foi não sei quantas vezes para reabilitação mas para o público juvenil nada disto passava. Agora temos o Piruca em Portugal que aparece com droga nas suas fotografias no Instagram (literalmente molhos de droga em pratos) e molhos de notas na mão. Não há aqui uma associação duvidosa? Mas ninguém faz nada. Ainda lhe pagam para dar concertos. Ainda o chamam para programas de televisão. E isto é assustador. Ler os comentários das crianças que ouvem as suas músicas e o têm como ídolo a seguir pode ter consequências drásticas. Porque é extremamente grave quando um cantor que fala para miúdos tem zero consciência do seu impacto.

O problema desta perda do endeusamento e da criação de estrelas virtuais que nascem da noite para o dia sem nenhum propósito levou a uma ânsia desmedida por se querer ser igual. Nenhuma miúda aspirava a ser uma Spice Girl porque as Spice Girls eram uma espécie de mitologia e, sejamos honestos, era preciso saber cantar, dançar e ter, no final do dia, um talento. Lembro-me de uma vez ter sonhado que ganhava num concurso as roupas da Geri e ter acordado com o coração a mil. Porque elas habitavam um universo meio fantasioso.

Os perigos desta falta de endeusamento que as redes sociais criaram

Ao dia de hoje, as e os youtubers falam para os adolescentes. E óbvio que ninguém é obrigado a ser um modelo ou a fazer da sua personagem virtual um exemplo a seguir, mas é preciso ganhar algum bom senso. E a culpa disto ser uma selva é de todos nós por alimentarmos esta inconsciência. E das marcas por quererem fazer dinheiro com estas estrelas virtuais, sugando-as para a saga dos patrocínios desmedidos. Mesmo quando os youtubers estão a gritar asneiras, a dizer aos miúdos para faltarem às aulas, a mostrar a sua mansão (paga pelas marcas) nojenta, suja e desarrumada, a mostrarem as suas facturas onde gastaram 700€ em porcarias, a saltarem da varanda para a piscina, a obrigarem as namoradas a fazer as suas camas enquanto se riem... e toda a gente se ri. Mas estes youtubers têm milhares de visualizações, não há um controlo (como antigamente ou ainda como na televisão) no tipo de conteúdos que acaba por ser publicado e visualizado pelo público ainda tão infantil.

Claro que tudo correria bem se as e os youtubers soubessem dizer que não. Se fossem minimamente inteligentes para pararem para pensar: epá não, o meu público tem 14 anos e dizer-lhes para faltarem às aulas ou falar de cremes para a celulite não faz sentido. Mas não. O creme da celulite paga mil e quinhentos euros por um vídeo? Bora lá minha gente!

E é aqui que isto se torna grave. Entre as mil e uma coisas estúpidas que já vi serem faladas por youtubers com milhares de seguidores da faixa etária 10-15 anos destaco patrocínios a comprimidos para dormir, cremes para a celulite, maquilhagem de luxo (Chanel, Dior, YSL e afins), roupas caras, sapatos que custam três dígitos, cremes anti-idade e mais roupas e mais sapatos e mais malas. Fotografam-se em lingerie porque ser sexy é fixe, a beber vinho na praia e são embaixadoras disto e daquilo e quanto mais caro melhor. Viajam para aqui e para ali, incentivam a usar o mbway para se fazer compras online e no meio disto tudo esquecem-se da coisa mais importante: o seu público tem 14 anos. E claro que a culpa não é só delas. A culpa é em grande parte das marcas que veem aqui potencial para divulgar as suas coisas mesmo que o target nem sequer lhes interesse. Se há quinze anos as Spice Girls divulgavam chupa-chupas, batatas fritas e desodorizantes porque se focavam no seu público e havia um controlo no tipo de publicidade que fazia sentido para elas, os novos ídolos dos adolescentes de hoje não têm ninguém a orientá-los ou a criar uma estratégia a longo prazo. As agências de influenciadores não contam porque querem fazer dinheiro à força e vão chupar o máximo que puderem de cada youtuber, de cada influenciadora sem qualquer pudor em lhes destruir a imagem e o futuro (como a Pepa e a mala Chanel porque não houve ninguém na marca que se tivesse preocupado com a imagem que ela iria passar para o público). Se a marca X de lingerie paga, toca a tirar fotografias na cama em soutien e cuecas, força. Se aquela farmacêutica paga, diz que este chá para dormir é óptimo para as insónias, força. Isto faz com que estes ídolos juvenis façam publicidade às coisas mais estúpidas e comuniquem para o seu público de 14 anos de uma forma perigosa e inconsciente.




Esta inconsciência não é tão ingénua assim. Prova disso é a tentativa constante que as youtubers têm em mostrar que o seu público, afinal, é adulto. Vejam marcas, afinal as pessoas de 20 anos seguem-me. Mas basta perder 5 minutos a ler comentários em meia dúzia de youtubers para lhes tirar a carapuça: não há um único comentário de uma pessoa adulta. E eu perdi no outro dia cinco minutos a folhear a nova revista Maria Vaidosa para sentir uma pequena dor na alma. Não havia um único conteúdo interessante ou de valor para as adolescentes, nem um testezinho de amor para saber se ele gosta, ou não, de mim. 90% da revista é roupa e maquilhagem (diga-se de passagem, bem cara e totalmente inacessível a 99% das adolescentes portuguesas). Lá pelo meio há uma entrevista ou duas a famosas portuguesas, umas dicas para esquecer o ex-namorado no Tinder (isto é assustador!), famosos cool para seguir no Instagram e pronto.

E que mensagem é essa que se está a passar à próxima geração? Uma imagem de perfeição irreal. De objectivos errados. De futuros deslumbrados. Uma imagem com valores fúteis onde tudo o que importa é teres roupa, maquilhagem e seguidores.

Andamos todos tão preocupados com o feminismo e o assédio e não paramos para pensar no que as (e os, claro) adolescentes de hoje estão a assimilar. Nas mulheres (e homens) adultas que se vão tornar graças a todas estas influenciadoras (e influenciadores) duvidosas a que nós continuamos a bater palmas e a ver, a comentar e a meter like.

11 comentários

  1. Clap! Clap! Clap!

    Tenho um sobrinho-afilhado de 13 anos, louco e encantado por gamming e por youtubers.

    Tenho tido conversas realistas com ele, que sei que ouve, mas não entende... para quê? Se o dark side “tem cookies”?

    Saudades de sonhar, almejar e suspirar com as Spice, os 5ive e a nossa geração ;)

    Beijinho

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    1. O dark side tem cookies ahahah é isso mesmo! Esta é a primeira geração que vai sofrer com os danos das redes sociais e vai ter de haver uma mudança obrigatoriamente :/

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  2. Olá Helena!

    Não costumo comentar muito o teu blog mas depois de ler este post não poderia deixar passar. Concordo contigo em parte e em parte discordo.

    Apesar de concordar, sim, e achar (também sim!) que muita youtubers criam conteúdos completamente descabidos para o seu público-alvo acho que outras acertam na mouche.
    Claro que falar de maquilhagem caríssima ou de roupa caríssima ou de MB Way e coisas do género para adolescentes de 12-15 anos não faz sentido e claro, são pagas e fazem-no apenas e só por isso, sem ligarem sequer à voz que têm e ao que estão a passar para o outro lado mas também há quem faça exatamente os mesmos conteúdos e que tenha um público-alvo mais velho dos 18 aos 25 e aí faz todos o sentido.
    Quem vê um vídeo de maquilhagem, não o vê por ser diferente e nunca ter visto, mas sim porque é entretenimento. Eu própria, muitas vezes, em transportes ou em momentos mortos em que não tenho o que fazer ligo os phones ao telemóvel e sou a primeira a ver essas vídeos desinteressantes só para passar o tempo mais depressa. Acho que pior do que isso são mesmo os chamados "Weekly Vlogs", que são vlogs semanais em que as youtubers gravam o seu dia a dia 24h 7 dias por semana e publicam. E fazem isto durante meses, todas as semanas. Algumas delas até têm como objetivo para 2018 fazê-lo o ano inteiro. Isso sim, eu acho desmedido, acho um ataque à privacidade e individualidade de cada um e, obviamente, não tenho pachorra para ver porque vai na volta o dia a dia de quem grava é sempre a mesma coisa. Já enjoa...

    Quanto aos youtubers da casa, sim, também não gosto e não percebo o intuito nem a importância deles (porque esses não têm mesmo nada a dizer nem nada a ensinar, afinal... nem trocar um pneu do carro de 50.000€ que usam sabem) mas respeito, claro. Já nas youtubers de moda e beleza vejo, algumas vezes, boas iniciativas e a preocupação de inspirar e influenciar alguém a mudar de hábitos, a ser melhor, a fazer mais, etc.

    É uma questão controversa? É. Mas na minha humilde opinião acho que não podemos colocar todos dentro da mesma caixa, porque de facto há alguns que se preocupam e fazem a diferença. Assiste, por exemplo, a Joana Moreira :) Super inspiradora!

    Beijinhos :*
    https://adrianarsimoes.blogspot.com/

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    1. Olá Adriana :) <3 Sim, este é um tema que tem pano para mangas e claro que não coloquei tudo no mesmo saco. Há é quem tenha algo para dizer e quem não tenha, óbvio. Mas tal como na TV há entretenimento divertido e útil, também há apenas o entretenimento sem qualquer conteúdo e os reality shows tornaram-se os reis disso. Às vezes vejo um da MTV que são pessoas que vão fazer tatuagens e escolhem a tatuagem um do outro. É absolutamente estúpido e óbvio que acho que a maioria das tatuagens não são reais porque são descabidas. É um programa para rir com a estupidez alheia, tal como muitos youtubers. Vemos para nos rirmos, para passar o tempo. Mas nós somos adultos, sabemos distinguir entre entretenimento e carreira. Esta é a primeira geração a viver num mundo onde já se nasceu com internet e esta será a geração que vai servir como "cobaia", por assim dizer, para os danos que as redes sociais vão criar nas populações. Falo dos miúdos e adolescentes de hoje que não acreditam que precisam de estudar porque veem os youtubers que nem foram à faculdade e fazem imenso dinheiro a gravar vídeos em casa. É aqui que reside o perigo e onde terá de haver uma mudança. Mas ficávamos aqui a falar horas :P

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    2. E teria todo o gosto em falar horas contigo, óbvio! :P
      Sim, nisso tens razão. Largar os estudos pelo Youtube é só estúpido. Um dia abrimos a plataforma e "ups, acabou" e depois o que se faz da vida? Vejo malta no youtube com 20, 22, 24, 26 anos e a trabalhar SÓ com o youtube. Pessoas que acabaram os seus cursos e nunca tiveram um único trabalho na área. Se um dia o youtube acabar, quem vai dar emprego a alguém com mais de 30 anos e que nunca trabalhou naquilo? Miúdos com 18 anos a quererem parar os estudos para se dedicarem ao youtube e ganharem 15.000€/mês - se um dia o youtube acabar, o que vão fazer da vida?
      Isso sou contra, claro que sim. Concordo com os canais COM conteúdo mas acho que ninguém se deve restringir apenas ao youtube enquanto profissão. Até porque isso é reduzirmo-nos a muito pouco... Não vejo como alguém se pode sentir realizado a nível profissional trabalhando só e apenas com uma plataforma online que a qualquer momento, puff! Mas enfim, são escolhas :)
      Um grande beijinho, Helena! :*

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  3. Muito bom. Obrigada por este texto. Afinal ainda há pessoas lúcidas :) Beijinhos

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  4. Tu um dia não te dás mal a criticar tanto as tuas colegas digital influencers?
    Além do mais, já vi bem mais do que uma fotografia tua em soutien por aqui. Não sei o que é pior, se foi de graça ou se foi paga.
    Mais coerência por favor.

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    1. Querido anónimo, tenho 99,9% de certeza que certamente não encontrará uma nem "bem mais do que uma" fotografia minha em soutien. Mas se um dia tirar, que seja muito bem paga porque pelo menos farei algo de útil com o dinheiro e não será paga em likes hihihi :)

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    2. "Tu um dia não te dás mal a criticar tanto as tuas colegas" - AHAHAHAHA!! - Mentalidade Pequenina!

      A discussão de ideias, desde que honesta e adulta, só incomoda pessoas mal resolvidas ou ignorantes.

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  5. subscrevo totalmente este texto. Muito bem escrito como sempre, muitos parabéns por falares de algo que muito poucos têm coragem.

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