Para todas as adolescentes de hoje que se sentem estranhas, deslocadas e uma aberração

24 de janeiro de 2018


Deixem-me dizer-vos uma coisa: eu fui uma adolescente bizarra e totalmente desenquadrada do mundo à minha volta. Se nos anos 90 e início de 2000 se falasse de bullying, claro que eu teria feito parte das tristes estatísticas embora sem nunca me ter apercebido porque tive a sorte de ter uma estrutura que me fazia não ficar incomodada quando gozavam comigo. E sabem no que é que isso me tornou? Em mim própria. E o mundo muda e nós crescemos e a vida continua e, acreditem, há situações da vida em que me continuo a sentir exactamente como me sentia aos 14 anos de aparelho nos dentes, cabelos estranhos, borbulhas na cara e ninguém me convidar para dançar um slow nas matinés do Bauhaus. Volta e meia, continuo a sentir-me desenquadrada mas é exactamente nesses momentos que chego mais perto da pessoa em que me estou a tornar.

Esta ânsia por sermos mais, por chegarmos mais longe, por fazermos diferente é o que faz o mundo girar. É o que nos torna pessoas de sucesso. Pessoas que vão fazer qualquer coisa mais.


Por isso, tu, desse lado, que te sentes desenquadrada e deslocada, acredita, estás no bom caminho.

Esta semana, uma amiga partilhou comigo a sua preocupação relativamente à irmã mais nova que está neste momento na escola, tem 15 anos e está a viver exactamente esta fase tão solitária e estranha que é a adolescência numa escola onde ela não se integra, onde não é igual às miúdas de 15 anos do Instagram e onde é gozada e excluída por ser diferente.

No meu tempo não havia redes sociais, Instagram, revistas com 200 páginas de roupa para comprar e a dizer que tens que te maquilhar. Parece que hoje em dia toda a gente só se preocupa com a aparência física mas essa pressão também existia à minha volta (embora numa escala mais pequena, claro). E está mais do que visto que eu nunca fiz parte do grupo das raparigas giras da escola. Aquelas que tinham cabelos compridos de risco ao lado, argolas nas orelhas, calças de ganga justas e mochilas Eastpak pequenas cor-de-rosa e lilás. Toda a gente se tentava integrar, ser aceite por essa pequena e estranha sociedade que era a escola. Até eu, claro. E o que é que isso me tornou? Em mim própria.

Sabem o que é que significa ser popular? Nada. Grande parte das raparigas da minha adolescência que eram populares, hoje em dia, em adultas, não chegaram tão longe quanto a sua popularidade o previa. Porque aparência e roupas nãos nos levam até à faculdade, não nos fazem ter bolsas de mérito, não nos dão empregos incríveis e não nos tornam mulheres de sucesso.

Nunca me embebedei nas festas em casa de amigos mas tive a melhor adolescência de sempre porque nos divertíamos para caraças. Não perdi a virgindade com um rapaz qualquer e quando o fiz, aos 17 anos, com o meu primeiro namorado a sério, foi mágico. Nunca vivi aqueles romances de cinema que as raparigas giras da minha escola viviam com os rapazes também eles mais giros mas apaixonei-me muitas vezes e tive namoricos de adolescência que foram intensos e maravilhosos. Nunca fumei droga atrás do ginásio da escola com os rapazes populares mas também não me tornei numa dessas raparigas que fazem tudo para serem aceites. Nunca usei roupas de marca porque a minha mãe não me comprava e também não foi por isso que a minha vida acabou. E o mais próximo que estive de maquilhagem foi de purpurinas nos olhos e batons de gloss pegajosos que se colavam todos ao cabelo.

E sabem que mais? Ainda bem. Porque toda a minha adolescência deslocada me levou para uma vida adulta do caraças. E também vos vai levar a vocês.

Seis coisas que eu gostava de ter sabido quando era uma adolescente estranha

Tudo aquilo que vos faz sentir uma aberração vai ser a fonte do vosso sucesso

Tudo aquilo que vocês são e que vos faz sentir uma aberração pode ser exactamente o que vos vai tornar incríveis na vida real. Eu escrevia cartas de amor para um rapaz mais velho chamado Johnny e colocava-as no cacifo dele. Não foram meia dúzia de cartas, acreditem. Foi toda uma caixa de postais, cartas, poemas, músicas e bilhetes que ele guardou (e em adultos nos rimos quando nos reencontrámos). E ninguém diria que esta ânsia por escrever todos estes sentimentos me iria trazer exactamente aqui - a escrever para vocês.

Os outros vão sempre rir-se de vocês. Riam-se também.

Aprendermos a rirmo-nos de nós próprios é uma lição de vida. E descansem porque o embaraço adolescente é diabólico mas não é eterno. Se eu não tivesse sido tão gozada pelas minhas roupas estranhas, o meu cabelo esquisito, os meus mil aparelhos nos dentes, não teria aprendido a relativizar as opiniões dos outros. Pode parecer o fim do mundo aos 15 anos quando todos queremos fazer parte de qualquer coisa, mas o segredo é não tentarem encaixar-se e simplesmente serem vocês próprios. Deixem-me contar-vos uma história: eu recortava e colecionava tudo sobre as Spice Girls. E quando elas apareceram numa fotografia com calças que ficavam por baixo do joelho (a meio da perna), obriguei a minha mãe a fazer-me umas. Acreditem, nunca se tinha visto ninguém usar calças de ganga "à pescador" (como se passaram a chamar então quando viraram tendência). Quando entrei na escola com as minhas novas calças iguais às da Spice Girls toda a gente me gozou. Perguntavam o que tinha acontecido ao resto do pano ou se não tinha tido dinheiro para comprar o resto das calças. Já não me lembro o que fiz mas, provavelmente, devo ter dado uma gargalhada ou duas. Se as Spice Girls eram cool o suficiente para usar aquelas calças, eu também. Sabem o que é que aconteceu? Depois de ter sido gozada, mais gente começou a usar aquelas calças e, de repente, todas as raparigas da escola tinham calças à pescador.

Os rapazes vão apaixonar-se por vocês e não pela vossa imagem

E hoje em dia, em adulta, aos 32 anos, lembro-me sempre que se houve quem gostasse de mim quando usava aparelho e tinha um corte de cabelo estranho, também há quem se vá apaixonar agora.  Por vezes, podemos cair na tentação de ser diferentes para que alguém goste de nós mas, acreditem, o rapaz certo vai gostar de vocês exactamente como vocês são.

Ser-se cool é totalmente subjectivo

Quem é que define o que é cool? Os likes no Instagram? As roupas de marca? Ser a rapariga com mais rapazes atrás? Acreditem, nada disso é cool. Eu e as minhas amigas escrevíamos diários, jogávamos basquetebol, tirávamos fotografias parvas (porque o pai de uma das minhas amigas tinha uma loja de fotografia), íamos ao cinema, fazíamos festas em casa a meio da tarde onde dançávamos em cima da cama e isto, para nós, era ser cool. Ter amigos verdadeiros e pessoas que gostem de nós e de todas as nossas coisas bizarras é o que faz de nós cool.

Toda a gente se sente estranha. Sim, as raparigas cheias de filtros do Instagram também.

É exactamente por isso que elas usam filtros e anseiam por likes e por se sentirem aprovadas. No meu tempo, seriam as raparigas más que gozavam connosco e fumavam atrás do ginásio com os rapazes. Sim, também elas se sentiam estranhas. Era por isso que gozavam com as outras raparigas.

Vamos ser aberrações a vida toda

Acham que eu não me sinto uma aberração? Toda a vida vai ser cheia de momentos constrangedores e pessoas que vos fazem sentir deslocadas e malucas. É por isso que temos que nos rir de nós próprios e abraçar as nossas peculiaridades. Isto faz-me lembrar uma coisa que a Katy Perry disse: são as pessoas que se atrevem a ser ridículas que fazem a diferença.

Não tenham medo de ser vocês, não percam tempo preocupados com as opiniões dos outros e nunca, mas nunca, sintam que as fotografias numa rede social vos definem.

E serem vocês próprios é a coisa mais incrível que vão fazer a vida toda.










4 comentários

  1. Ai Helena que texto tão bonito. Também gostava que alguém me tivesse dito essas coisas :-) Também fiz parte do grupo das raparigas estranhas da escola. E sobrevivemos certo? Toda a gente sobrevive <3

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  2. Olá Helena, estava a ler este texto e revi-me nele! a "sorte", foi que durante o tempo de escola tive sempre muitos amigos que me aceitavam e, podes crer, enquanto eles me aceitavam, eu levei muitos anos e percorri um longo caminho, para hoje perceber, que ser aceite, é bom, em primeiro lugar, sempre por nós! obrigada. beijinhos. ah! adoro o seu blog :)

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  3. Obrigada por este texto, revi-me em praticamente tudo. Até nas modas que mostraste nas fotografias :)

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  4. Olá Helena,
    Este é o primeiro texto teu que leio e, por isso, peço desculpa por alguma má interpretação que possa estar a fazer.
    Este tipo de textos é, sem dúvida, muito importante, há cada vez mais pressão no que toca à aparência, fama, estilo, enfim, à vida em geral.
    Mas, por muito que tenha gostado do texto, senti que também estava aqui presente a típica história de filme da rapariga não aceite/feia/gorda/marrona/o-que-for que tem uma vida boa à sua maneira no que toca a namoros, amizades, família,...
    Nem sempre é assim, nem sempre temos namorados, amigos, pessoas que se interessem por nós por sermos nós.
    Estamos sempre à espera que seja desta que alguém olhe, se apaixone ou, simplesmente, se preocupe e não se canse dos nossos muitos defeitos. (E a desejar não ser virgem aos 40 ou ser a tia solteirona.)
    Acho que também é importante falar disto porque também acontece.
    Desculpa e, de qualquer maneira, parabéns pelo texto.

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