10 anos com uma doença auto-imune (tiroidite de Hashimoto) e dicas para uma vida melhor

18 de junho de 2018

Quando nos diagnosticam aos 22 anos uma doença auto-imune que vai mudar a nossa vida para sempre, não é fácil adaptarmo-nos a isso. Posso dizer-vos que vivi muito tempo revoltada. Porque sempre tinha sido saudável, não fumava, mal bebia, alimentava-me bem; Porque razão isto tinha que me acontecer a mim?

Uma das coisas que desde cedo aprendi foi a relativizar e a colocar-me, como se costuma dizer no inglês, nos sapatos das outras pessoas. Não tinha um tumor. Não tinha diabetes. Não tinha fibriomialgia e tantas outras condições com as quais é uma merda (lá vem as asneiras mas já sabem que gosto de escrever com intensidade) viver e que também implicam tantas mudanças nos hábitos.

Aos 22 anos foi-me diagnosticado tiroidite de Hashimoto que, no meu caso, reverteu num hipotiroidismo porque, ao ser atacada pelo meu corpo, a minha tiróide deixou de funcionar. Nunca na vida tinha ouvido falar da tiróide. Nem sabia o que era. O nome era-me estranho. E posso dizer-vos que há 10 anos também não se falava tanto disto como hoje. Não havia tanta informação. E eu demorei longos cinco meses até me terem diagnosticado e eu ter finalmente descoberto o que raio se passava comigo.


Segundo a Associação das Doenças da Tiróide, calcula-se que mais de um milhão de portugueses seja afectado por disfunções da tiróide - principalmente as mulheres. 

Nos últimos anos tem havido uma incidência cada vez maior destas doenças em todo o mundo e ainda se discute e se estuda o que poderá estar nessa origem. Neste momento, estima-se que mais de 200 milhões de pessoas em todo o mundo sofram com doenças da tiróide e cerca de 60% não sabe.

Vou contar uma história. Tudo começou no verão de 2007. Estava magra - muuuito magra - e deixei de ter menstruação mas na altura não me preocupei muito com isso. Quando Setembro chegou, fui para o último ano da faculdade e aí, sim, a coisa ganhou contornos mais reais. Toda a gente me perguntava se estava bem, se andava a comer, se estava anoréctica. Já eu, pelo contrário, achava que estava era grávida. De Setembro a Dezembro continuei a emagrecer a olhos vistos (cheguei a pesar 42kg), a não ter menstruação e, para juntar à festa, começaram outros sintomas: insónias, ataques de ansiedade, tonturas, desmaios, o cabelo começou a cair-me vertiginosamente e aí, acreditem, eu achava que estava a morrer porque sempre fui dramática e hipocondríaca. Passava noites inteiras sem dormir e depois adormecia no estágio e nas aulas. A meio de um exame tive um ataque de ansiedade e fui embora. E o cansaço... Andava tão cansada que parecia que arrastava pesos às pernas e qualquer tarefa me era penosa de fazer.

Eu em 2008 na altura em que estive mais magra. Não me lembro se aqui já sabia que tinha uma doença auto-imune.



Depois de mil e uma análises, exames e até um TAC à cabeça para descartar a pior palavra de sempre que é um tumor, a palavra "tiróide" entrou na minha vida. Afinal não estava a morrer. Afinal o que tinha era simples e resolvia-se com um comprimidinho todas as manhãs. E a vida continua e vivemos todos felizes para sempre.

Foi isso que me disseram mas, acreditem, não foi nada disto que se passou.

A nossa medicina convencional é limitada e não podemos depender apenas dela

É de tal forma condicionada que, 10 anos volvidos, posso dizer-vos que ainda hoje ando a lidar com sintomas e a descobrir formas alternativas de os melhorar. A grande maioria dos médicos não está aberta a ver para lá da sua área de actuação e a explorar outras respostas para cada paciente. E o ser humano é formatado para aceitar esta visão como sendo a única e esta resposta como a mais segura.

Deixem-me só explicar de forma simples o que é uma doença auto-imune. É uma doença em que o próprio corpo a cria, por assim dizer. É como se o corpo produzisse um ataque contra si próprio. Normalmente o sistema imunitário protege o nosso corpo dos invasores externos produzindo anti-corpos que destroem esses invasores. As doenças auto-imunes ocorrem quando estes anti-corpos atacam o próprio corpo ou órgãos específicos, como é o caso da tiróide. Como são doenças que, normalmente, envolvem muitos sintomas e podem ser confundidos com qualquer outra doença, por vezes é difícil chegar a um diagnóstico.

O tratamento para as doenças da tiróide é tomar uma hormona diária que simula o funcionamento da tiróide. Parece simples. O que ninguém nos diz é que, muitas vezes, vamos passar muito tempo, se não anos, com sintomas porque essa hormona não resolve tudo. E há também o risco do aparecimento de nódulos (são células que crescem anormalmente devido a este ataque do corpo à tiróide). Eu tive nódulos desde o início, eventualmente porque a minha tiróide já não funcionava há muito tempo até os sintomas se terem tornado de tal forma descontrolados (mas são minúsculos e estão estagnados). Mas há quem tenha nódulos sem ter uma doença da tiróide e há quem desenvolva para um tumor sem sequer sofrer desta doença auto-imune (foi o caso da minha mãe mas esta história fica para depois). Assim, é importante ir controlando a tiróide dado o aumento dos casos desta doença nos últimos anos.

Eis o que me aconteceu nos primeiros anos: tomava a minha hormonazinha religiosamente todas as manhãs mas continuava a ter muitos sintomas incómodos que me tiravam qualidade de vida. 

Continuava sem ter menstruação (tinha de tomar a pílula para a induzir), tinha muitas tonturas no dia a dia sem qualquer razão aparente, quebras de tensão mesmo quando tinha acabado de comer, imensa ansiedade ou fases em que tinha muitas insónias com outras em que dormia até às três da tarde. E andava sempre cansada. SEMPRE!

Os endocrinologistas diziam que tinha de me habituar porque, eventualmente, seria uma condição para o resto da vida. E digo-vos: aos 26 anos, não achei que isto era qualidade de vida para mim. Não concordei que teria que me habituar. E achei esta visão da medicina tão limitada que era frustrante consultar médico atrás de médico e ninguém me dar respostas. Um deles chegou a sugerir retirar a tiróide para, assim, resolver logo o problema de uma vez por todas. Como se retirar um órgão sem qualquer motivo fosse a solução.

Foi quando descobri a homeopatia que, literalmente, mudou a minha vida. Sou uma entusiasta desta área e confio no Dr. Nuno Oliveira (podem ver o site dele aqui e não, obviamente que não me está a pagar minha gente, já era paciente dele muito antes de ter um blogue e já falei que sou adepta da homeopatia noutros posts) que, desde sempre, foi aberto comigo:

se eu quisesse muito deixar de tomar a hormona, poderíamos tentar chegar a um cocktail certo de medicação homeopata que fizesse o mesmo. Mas seria um longo trabalho até encontrar a fórmula certa. Eu não queria deixar de tomar a hormona nem tinha nada contra ela. Só queria acabar com todos estes sintomas. E foi nisso que trabalhámos.

Só para terem uma noção, tomei vários indutores de menstruação passados pelo endocrinologista que não me fizeram rigorosamente nada. Tomava porcarias atrás de porcarias e a menstruação continuava sem aparecer. Uns dias após fazer um tratamento homeopático para induzir a menstruação, eis que ela deu o ar de sua graça e, até hoje, nunca mais tive falhas. O mesmo fizemos para as tonturas, para as quebras de tensão, para o cansaço e para as insónias. E até para a ansiedade, como já contei noutros posts. E o que é que aconteceu? A minha vida deu uma volta de 360 graus porque passei a ter qualidade de vida. O que a homeopatia fez foi equilibrar o meu corpo face a esta doença auto-imune.

Então esta é a minha principal dica para quem sofre de doenças auto-imunes: se necessário, procurem outras alternativas à medicina convencional. Procurem outras respostas que vão de encontro ao que vos preocupa ou que vos tira qualidade de vida. Não aceitem um só diagnóstico. E nunca, mas nunca aceitem que vos digam que terão de se habituar a viver assim - qualquer que seja o vosso problema de saúde.

E hoje?

Bem, hoje a minha vida é quase igual ao que era antes de me ter sido diagnosticada esta doença. Com alguns ajustes, é claro. Porque o meu corpo mudou e eu tive que me adaptar a este novo corpo. Tive de deixar de viver frustrada porque agora havia coisas que tinha de mudar. E acho que isso é algo que toda a gente com uma doença auto-imune tem de interiorizar. A nossa vida não fica uma merda e eu odeio quando estou a ler relatos de pessoas com doenças da tiróide e que só se queixam e dramatizam toda esta doença. Não quero, de modo nenhum, inferiorizar os seus problemas mas de todas as doenças que podia ter, acredito, sem dúvida, que tive uma sorte do caraças por ter tido esta.

O que mais me incomoda? Tenho pouca tolerância ao frio e ao calor. Fazer longas tardes na praia ao sol deixou de ser possível para mim porque a minha temperatura corporal é diferente da das pessoas ditas normais e sofro muito ao calor, a tensão baixa e sinto-me mal. Deixei de ter resistência física para tantas coisas que adorava como andar de bicicleta ou dançar. O que significa que continuo a fazer isso mas com alguma moderação. Claro que vou à praia e apanho sol mas, lá está, com moderação e sempre fora dos picos de calor. E a ansiedade, claro a ansiedade. Mas com ela é um trabalho para o dia a dia.

Amanhã? Uma alimentação sem glúten

Ao fim de dez anos com uma doença auto-imune soube que deveria fazer uma alimentação sem glúten.  Logo eu, que nunca liguei a nada destas coisas. E, mais uma vez, me questiono como é que em dez anos e tantos endocrinologistas e médicos pelo caminho, nunca ninguém me falou disto. Ressalvo que estas interpretações às doenças da tiróide ainda não estão comprovadas, embora todos os estudos que tenham sido feitos em pacientes com doenças da tiróide que adoptaram uma dieta sem glúten, tenham mostrado melhorias de todos os sintomas, melhor funcionamento da tiróide e, em algumas casos, reversão da doença. Mas o que está comprovado é que a doença celíaca (intolerância ao glúten) e os distúrbios auto-imunes da tiróide compartilham uma predisposição genética comum.

Assim, o mecanismo que explica a tiróidite a partir de uma sensibilidade ao glúten é que a gliadina, a molécula do glúten, quando rompe a barreira de protecção do intestino e entra na corrente sanguínea, gera a produção de anti-corpos. Estes anti-corpos fazem com que o organismo ataque a tiróide. Em conclusão? Sempre que comemos alimentos com glúten estamos diariamente a atacar a tiróide.

Ao fim de 10 anos a tomar uma hormona, seria de esperar que o hipotiroidismo estivesse controlado ou, pelo menos, estabilizado. Mas, na verdade, isto ainda não se verificou. Já cheguei a tomar uma hormona de 50mg e, neste momento, tomo uma de 125mg. Porque razão a minha tiróide continua a funcionar pior e pior e eu tenho de tomar doses cada vez maiores de hormona?

Dá que pensar, certo? Então, mais uma vez, procurei respostas alternativas e já iniciei o corte do glúten da minha alimentação e irei fazer análises mensais para ver a resposta da minha tiróide a esta dieta. Falarei sobre isto noutro post.

Para mais informações, dicas, conselhos e dúvidas podem consultar o site da Associação das Doenças da Tiróide - aqui.

Esta fotografia foi tirada no meu dia de anos em 2007 - doente, a pesar 42kg, pele e osso literalmente, sem dormir e sem respostas para o que se andava a passar comigo. Em Fevereiro de 2008 diagnosticaram-me a tiroidite de Hashimoto. 

Os sintomas das disfunções da tiróide passam muitas vezes despercebidos porque são semelhantes aos efeitos do estilo de vida acelerado do nosso quotidiano. Talvez só num estado muito avançado (como o meu estava) os sintomas se tornem de tal forma descontrolados. Se sentem que algo não está normal no vosso corpo, façam rastreios, análises regulares e não ignorem os sinais que o vosso corpo vos dá.

4 comentários

  1. Olá! Também tenho tiroidite de hashimoto há uns 5 anos . Não tenho nem nunca tive nenhum sintoma !!! Nada !! Apenas estranhei na altura ter aumentado uns 3 a 4 kg e comia pouco .. e por mais cuidado que tivesse com a alimentação não os conseguia perder . Mas nem numa referi isto ao médico . Descobri que tinha através de análises . Fiz um check-up e apareceram os anti corpos ;) tomo eutirox 75 mg . Mas acho que tenho sorte . Não tenho sintomas . Mas sim, sei que a alimentação influência bastante : o glúten, os laticínios, soja . Não os retirei completamente à exceção da soja que faz muito mal . Acho que o exercício físico ajuda bastante e contraria aquela falta de vontade de fazer as coisas ;) beijinhos !

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  2. Não gostei da forma com se dirigiu aos médicos, já que é extremamente arrogante e prepotente. Se eles não têm respostas, o mais adequado é reunirem-se com os colegas de outras especialidades, de forma a conseguirem um melhor diagnóstico e um plano de tratamentos. Foi consultada pela seguinte especialidade - endocrinologia ? Os medicamentos que tanto criticou são eficazes e seguros.

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  3. Deparei-me com um artigo a gozar com este no facebook...
    Não acredito em homeopatia porque é, simplesmente, absurdo. No entanto, cada um faz o que quer.
    Mas fiquei curioso sobre as outras alterações que fez, pois acredito que o que realmente fez diferença talvez tenha sido a alimentação e exercicio, nao?

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  4. A mim foi-me diagnosticada a tiroidite de Hashimoto, aos 8 anos (já lá vão 25 anos) e apenas tomei medicação durante um breve período de tempo, pois o médico endócrinologista que me acompanhou durante 20 anos, achou (e muito bem devo dizer) que os comprimidos não me iam ajudar, o que ia ajudar era controlar a alimentação e fazer uma ecografia à tiróide de 6 em 6 meses para acompanhar a evolução.
    No meu caso em concreto possuo um elevado numero de pequenos nódulos (alguns com menos de 2 milímetros) que se têm mantido assim até hoje e caso surja algum nódulo com tamanho superior a 6~7 milímetros, então o médico pede uma biopsia a esse nódulo, para avaliar se se deve remover ou não!
    Sintomas? Poucos ou nenhuns para além do excesso de peso permanente (deixei de fazer exercício físico regular pois dava mais vontade de comer...) mas de resto julgo que o problema pode não estar nos médicos ou na medicação, mas é sempre mais fácil chutar as culpas para o lado

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