As mulheres com filhos também excluem as amigas que ainda não os têm

6 de setembro de 2018


Sempre ouvi dizer que quando tens filhos é que vês quem são os teus verdadeiros amigos. E é verdade. Percebo plenamente a ideia. Porque conviver com amigas com filhos é a maior treta. Principalmente se forem daquelas que só falam disso e, desde que ficaram grávidas, só há um único tópico de conversa à sua volta - o rebento que carregam na barriga. Infelizmente, as vossas amigas sem filhos não vão acompanhar do mesmo entusiasmo, enfim, é como se deixasse de haver sintonia. É horrível, eu sei.

Mas vá lá mulheres com filhos, o problema não está todo em nós - mulheres sem filhos. Eu sei que ainda não vivemos a magia da maternidade, o carregar um pequeno ser na nossa barriga que faz com que nada mais interesse porque temos o mundo em nós. Eu entendo tudo isso. Mas há mais vida para lá da vida que vocês têm nos braços.

Nos últimos anos, algumas das minhas amigas próximas casaram, engravidaram e tiveram pequenos seres a sair de dentro das suas vageges que se transformaram em mini humanos simpáticos que gosto de ver de tempos a tempos. Mas ao fim de dois ou três jantares em que o único tema de conversa é filhos, é lógico que deixo de ir porque, por mais que goste delas, não tenho energia para estar em grupo a ouvir falar de filhos e fraldas e iogurtes e pomadas e dentes e alergias e escolas e todo esse rol de temas maternais que, feliz ou infelizmente, ainda não fazem parte da minha realidade. Cria até alguma pressão e solidão. É o estar rodeada de pessoas que parece que já estão um passo à frente enquanto eu contínuo aqui na minha vida tola que não ata nem desata porque ainda não saltei para a casinha da maternidade neste jogo de tabuleiro que é a vida onde andamos a todos a correr.

Mas queria dizer uma coisa a quem me lê e tem filhos: é que as vossas amigas que não têm filhos, ainda não foram iluminadas com esse amor e não vão ter a paciência que gostariam. E isso não significa que já não gostem de vocês. Significa apenas que querem voltar a ter um pouco da amiga pré-criançada. Aquela com quem jantavam e falavam sobre a vida, aquela com quem iam ao cinema ou lanchar ou à praia ou às compras ou a um bar. Aquela com quem ficavam apenas no sofá a comer pipocas e a ver vídeos no YouTube. E essa amiga não tem de desaparecer por completo só porque agora há um filho que ocupa grande parte do seu tempo.

Eu sei que quando tiver filhos, toda esta conversa me vai parecer certamente (e provavelmente) descabida. Via-se logo que ainda não tinha filhos, imagino o meu eu do futuro a dizer quando ler este texto sabe lá Deus quando. Mas também sei que não vou querer dizer adeus ao meu eu do presente. Porque não sinto que um filho me vá definir e tomar conta de toda a minha vida. Acredito que vou querer continuar a ser eu para transmitir ao meu filho todas as coisas boas que fazem parte de mim e que, tenho a certeza, também o tornarão melhor pessoa.

Mas também vejo acontecer o oposto. Amigas que têm filhos e já só fazem planos com outras com filhos e afastam-se, consciente ou inconscientemente, das suas amigas sem filhos. E isto, enfim, também é normal. Ao longo da vida vamos estar sempre a ter mais ou menos sintonia com as pessoas. E é natural que as nossas amigas com filhos agora passem mais tempo com quem também está na mesma fase da vida que elas e que vos acabem por abandonar um pouco. Acreditem, eu sinto-me excluída constantemente.

Então, acho que é preciso ter sensibilidade para os dois lados. Tanto para nos tentarmos integrar na nova vida das nossas amigas e nos seus horários como para vocês - mulheres com filhos - conseguirem despir por uma tarde ou uma noite o vosso papel de mãe e vestirem a vossa capa de mulher.

Porque essa capa é a que nos vai acompanhar a vida toda.

5 comentários

  1. Compreendo perfeitamente o que sentes quando estás rodeada de amigas com filhos, Helena. É normal praticamente só falarem dos filhos quando se juntam várias, especialmente quando ainda não têm muitas amigas com filhos, o que faz com que se "agarrem" a esses raros momentos.
    Por acaso não tenho razões de queixa quanto às minhas amigas mães e, até ver, temos um excelente equilíbrio de conversas de bebés e outros assuntos. Há espaço para tudo. :D

    Pensa assim: as conversas de filhos não duram para sempre; quando forem adolescentes... bem, quem é que gosta de falar sobre adolescentes? ahahahah

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  2. Falo em nome de mãe (mas acho que nunca fui uma mumzilla ehehe) mas a verdade é que um filho muda a nossa vida por completo. Mas, ao mesmo tempo, também sempre continuei a gostar de estar com as minhas amigas (tal como o meu marido está com os amigos), de fazer planos com elas sem levar o meu filho até para me abstrair. Mas também sei que há mães que simplesmente não conseguem ter a logística de voltar à sua vida anterior porque um filho também nos absorve muito os dias. Mas é como dizes: é preciso sensibilidade e equilibrio para se estar com as pessoas de quem gostamos enquanto mulheres, amigas e não enquanto mães. Porque somos todos esses papéis :)

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  3. Helena, sou sua xará do Brasil e, de vez em quando, passo por aqui para ler seus textos, pois costumo gostar! Não sou de me manifestar pela Internet, porém, dessa vez, gostaria de participar da "conversa"!
    Sou mãe de 2 rapazes (de 19 e 14 anos) e sempre me "policiei" para não ser chata, falando muito de mim e dos filhos (que é quase sinônimo para algumas mulheres), tanto para as amigas com como para as sem filhos. Trocas de experiências são sempre bem-vindas, mas algumas mamães exageram, até para quem poderia tirar algum mínimo proveito da situação... já ouvi muitas explicarem, em detalhes, como seus filhos são bons, talentosos, os melhores em tudo. Nessas horas lembro de Álvaro de Campos/Fernando Pessoa e seu "Poema Em Linha Reta". Porém, para mim, o pior de tudo ocorre quando se cria a fantasia de que a maternidade é sempre maravilhosa, sensacional, imperdível e natural. Engravidei porque quis e não me arrependo; vivi e vivo momentos inesquecíveis por conta disso, mas ninguém (ou poucas mães) estão dispostas a revelar que também há dor, decepção, culpa e sofrimento, entre outros, - como toda experiência humana! A maternidade é, sem dúvida, idealizada. Por fim, quero acrescentar que, quando falamos muito do outro (e esse outro pode ser seu filho), talvez seja por causa de uma vida vazia. Afinal, apesar de mãe, também sou mulher, profissional, turista, leitora, esportista, ..., tenho uma vida completa e posso conversar sobre outros assuntos!

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  4. Cara Helena,

    Desde já, um bem haja pelo seu magnífico blog.
    Como Pai solteiro, compreendo perfeitamente o descrito, no entanto por coincidência ou não, estou neste momento num aniversário de um amigo de longa data em que o tema é a amizade.
    Estou de rastos, isto porque apenas sinto que a amizade, tal como a vida é uma passagem. Cada vez mais, vejo que precisamos de ter DEUS (JJ) para orientar a nossa pequena estadia.
    Um forte abraço Daniela TAXA

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  5. Sinto muito isso quando tenho amigas que passam a ser mães e nunca mais podem ou querem alinhar em programas connosco :) partilhei a ver se alguém lê e se revê

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