Porque gostamos de cães, comemos porcos e vestimos vacas?

30 de dezembro de 2018


Se os matadouros tivessem paredes de vidro, todos seríamos vegetarianos. Mas continuamos a acreditar nas vacas felizes a pastar no campo. Melanie Joy lança em Portugal livro controverso e desafiante.

Imaginem o seguinte cenário: são convidados para um jantar em casa de amigos, a mesa tem bom aspeto, a travessa fumegante dos aromas da carne, dos temperos e dos vegetais enche a sala e abre-vos o apetite. E quando começam a comer… está delicioso. Então pedem a receita ao vosso amigo. E ele partilha-a com todo o prazer. “Começamos com 2,5 quilos de carne de… goldenretriever bem marinada e depois…”. Provavelmente acabaram de perder o apetite. Se forem como a maioria das pessoas, ao saber que estavam a comer um cão, as vossas sensações passariam automaticamente de prazer a repulsa. 

Reagimos mal à ideia de comer cães. Mas, na maioria dos casos, não reagimos mal à ideia de comer vacas e outros animais. Melanie Joy é psicóloga social e professora na University of Massachusetts Boston. Além de fundadora da associação Beyond Carnism, já correu o mundo a dar palestras sobre carnismo. Controverso e desafiante, o seu livro Porque gostamos de cães, Comemos porcos e Vestimos vacas foi lançado há dois meses em Portugal e procura fazer-nos questionar: porque acreditamos que não faz mal matar alguns animais mas outros sim? Andei a lê-lo e, enfim, embora não seja vegetariana (mas consumo pouca carne), gostei muito e mudou a minha perceção sobre estes temas. Acho que foi um abre-olhos e que é um livro importante a longo prazo e na mudança social que tem (e vai) haver.

Existem vaquinhas felizes?

Paul McCartney afirmou uma vez que, se os matadouros tivessem paredes de vidro, todos nós seríamos vegetarianos. O músico acredita que, se todos conhecêssemos a verdade sobre a produção de carne, ninguém iria querer comer animais. “No entanto, nós sabemos a verdade. Sabemos que a produção de carne é um negócio sujo, mas preferimos não saber quão sujo é”, diz Melanie Joy. Estamos habituados a ver anúncios na televisão que nos mostram “vacas felizes” em prados verdes, livres e satisfeitas a pastar tranquilamente. E provavelmente até nos sentimos mais tranquilos por imaginar que aquelas vacas são mesmo felizes. “É tudo mentira”, escreve Joy. “É totalmente desonesto, mas não é ilegal. Podemos fazer o que quisermos a um animal cuja carne, leite ou ovos pretendamos vender, assim como podemos mentir à vontade a esse respeito”.
No ano passado, um anúncio da cadeia de fast food KFC causou polémica e indignação porque mostrava uma galinha a passear num armazém e o slogan dizia “a galinha, a galinha inteira e nada mais além da galinha”. Ao jornal britânico The Independent, Joy disse que as pessoas reconheceram este anúncio como nojento e isso é um bom sinal. “Isso mostra que a nossa consciência está a mudar. As perceções estão a mudar e mais e mais pessoas estão a reconhecer que não é necessário comermos animais. Quando retirarmos a justificação para nos alimentarmos de animais, essa escolha vai adquirir uma nova dimensão ética”, explicou.
Melanie Joy diz que não é fácil descrever com precisão quão terrível é o modo como os animais de criação são tratados nos nossos dias. Mas abre o véu a esta realidade obscura que o sector do agronegócio tenta manter invisível a todo o custo: dezenas de milhares de galinhas mantidas em gaiolas em armazéns sem janela e com os bicos decepados para não se mutilarem ou matarem umas às outras; as vacas leiteiras são mantidas em currais de engorda a abarrotar, praticamente incapazes de se mover e sem acesso a uma única folha de erva; para poupar dinheiro no transporte, o maior número possível de porcos é comprimido nos veículos onde muitos acabam por morrer; e sim, nos matadouros, muitos animais são espancados, chicoteados e pontapeados para cooperarem.
Vi um funcionário afastar uma galinha de cima do ventilador de chão ao pontapé e vi sistematicamente galinhas atiradas de um lado para o outro […]. Enquanto um dos trabalhadores falava sobre futebol americano, esborrachou uma galinha na correia transportadora, imitando o gesto de atirar a bola ao chão num touchdown“, escreveu Josh Balk, um ativista que trabalhou infiltrado num centro de abate antes de se tornar num dos diretores da Humane Society of the United States.
Preferem comer uma costeleta ou costelas de porco?

Melanie Joy diz que o consumidor moderno sente-se cada vez mais retraído com aquilo que come. É por isso que o sector do agronegócio animal utiliza a linguagem para camuflar a realidade da carne. Nós não nos queremos lembrar que estamos a comer carne de vaca moída, costelas de porco ou pernas de ovelha. Preferimos ler que comemos hambúrgueres, costeletas e bifes. O objetivo é que o consumidor olhe para a carne e veja aquilo que vai comer em vez de pensar naquilo que o animal era.

E os ovos e o leite?

Eu não como ovos nem bebo leite há muitos anos. E Joy diz coisas interessantes sobre isto: As galinhas poedeiras são as que são usadas única e exclusivamente para a produção de ovos, mantidas em gaiolas de arames onde nem as asas conseguem abrir e por lá ficam cerca de um ano até deixarem de conseguir produzir ovos de forma lucrativa. Aí são enviadas para abate. Esta realidade cruel aplica-se igualmente ao leite e parece inacreditável que a maioria das pessoas parta do princípio de que se pode conseguir obter leite sem prejudicar a vaca. Melanie Joy escreve que muitas vacas passam a vida em fábricas de lacticínio onde são acorrentadas pelo pescoço ou ficam enclausuradas em pequenas celas de estábulos, são injetadas com hormonas de crescimento geneticamente modificadas e são engravidadas de modo artificial todos os anos com o objetivo de maximizar a produção de leite e ordenhadas por máquinas durante dez meses por ano. Embora o ciclo de vida natural das vacas seja de aproximadamente vinte anos, ao fim de apenas quatro numa exploração leiteira são enviadas para abate.

Os três N que justificam o consumo animal

Porque consumimos carne? Porque é normal. Porque os nossos pais consomem. Porque os nossos avós assim lhes ensinaram. E os seus avós a eles. Mas o que nos leva a amar o nosso cão ou o nosso gato ao ponto de os considerarmos como membros da nossa família porque temos uma relação emocional com eles mas, por outro lado, conseguimos chamar “jantar” a um porco e compramos numa loja um casaco da moda feito de pele de vaca? Joy diz que amamos cães e gatos e comemos porcos e vestimos vacas não por serem animais diferentes (as vacas, tal como os cães, têm sentimentos, preferências e consciência) mas porque a perceção que temos deles é diferente. E, portanto, a nossa perceção da sua carne também é diferente.
E porque é que, de entre dezenas de milhares de espécies animais, provavelmente nos sentimos repugnados com a ideia de comer praticamente todas, com a exceção de um pequeno punhado delas - vacas, porcos, ovelhas, galinhas, coelhos, peru...? Nós comemos vacas porque aprendemos que é normal gostar delas. No Cambodja é normal gostar de tarântulas fritas. Na Islândia é normal gostar de testículos de carneiro sob a forma de paté avinagrado. E se num grande número de culturas, muitas espécies de animais “comestíveis” são vistos como “não comestíveis”, isto prova que o responsável por determinar os animais que devem ser “comidos” é o preconceito cultural e não a lógica ou a necessidade.
Eis os os três N que Melanie Joy diz que são invocados para justificar o consumo de carne: é normal, é natural e é necessário. Estes três N estão tão enraizados na nossa consciência social que guiam as nossas ações sem sequer pensarmos sobre eles. Aceitamos que são verdades universais quando são apenas opiniões generalizadas. 

É normal porque são normas que nos foram ensinadas e aceitamo-las em piloto automático.
É natural porque acreditamos que comer carne é natural porque os seres humanos têm caçado e consumido animais desde há milénios. 
É necessário porque existe a crença de que comer carne é uma necessidade inerente à sobrevivência da espécie humana.

O vegetarianismo é o futuro?

Melanie Joy não tem dúvidas – sim. “Como alguém que estudou a mudança social e como psicóloga, parece claro que o vegetarianismo vai substituir o carnismo como ideologia dominante em alguma momento. Não há razão para supor que a trajetória vai mudar. A questão não é se vai mudar, mas quando”, disse ao The Independent

Mas é necessário continuar a desafiar o carnismo por várias razões, entre elas a maior consciencialização perante a crise ambiental que estamos a viver.
Joy escreve que a produção de carne em larga escala é uma das principais causas de destruição ambiental. “Os gases de metano expelidos por milhares de depósitos de estrume enfraquecem a camada de ozono. As toneladas de substâncias químicas usadas nos animais (hormonas sintéticas, antibióticos, pesticidas e fungicidas) poluem o ar e os cursos de água. Milhares de hectares de áreas arborizadas estão a ser desmatados para possibilitar a implementação de culturas de alimentos. A quantidade de água potavel retirada atualmente dos reservatórios é maior do que a que pode ser reposta. Os principais cientistas concordam que este sistema de produção massiva de carne não poderá continuar sem gerar o colapso do ecossistema.”
Em Junho deste ano, a revista Forbes escreveu que “não precisamos de ir além dos nossos pratos para salvar o planeta. A mudança da carne e dos laticínios é a maneira mais eficaz de regenerar o nossos ecossistema e impedir a sua destruição”. E há números importantes: a carne e os latícinios fornecem apenas 18% das nossas calorias e 37% das nossas proteínas mas usam 83% das terras agrícolas. E sem o consumo de carne e produtos lácteos, o uso global de terras agrícolas poderia ser reduzido em mais de 75%, uma área equivalente aos EUA, China, União Europeia e Austrália juntos, e ainda alimentar o mundo inteiro.

Melanie Joy é vegana desde o início dos anos 90 e diz que a maioria das pessoas não se torna vegana da noite para o dia. O importante é começar por algum lado, nem que seja a ganhar consciência sobre a realidade que não nos querem dar a conhecer. Porque gostamos de cães, Comemos porcos e Vestimos vacas já está à venda em Portugal e é uma introdução a estes temas e uma forma de mudar o modo como pensamos sobre a nossa comida.

Porque gostamos de cães, Comemos porcos e Vestimos vacas, de Melanie Joy, Bertrand Editora.

1 comentário

  1. Bom, estava na dúvida se deveria ler este livro ou não mas já percebi que não. Consumo carne, apesar de ter vindo a reduzir muito e de ponderar tornei-me vegetariana ou vegan em breve. Por motivos profissionais, tenho contacto com matadouros e explorações e posso dizer que, embora não seja uma realidade de que goste, não é, de todo, a realidade desse livro. Pode ser a realidade dos Estados Unidos mas não é a nossa. Felizmente, em termos de bem-estar-animal a União Europeia tem leis muito melhores do que a maioria dos outros países e há muitas coisas aqui escritas que não se aplicam (são simplesmente ilegais):
    - nos matadouros, muitos animais são espancados, chicoteados e pontapeados para cooperarem.
    - vida em fábricas de lacticínio onde são acorrentadas pelo pescoço ou ficam enclausuradas em pequenas celas de estábulos (aliás, desconheço sequer, a existência de fábricas de lactícinios na Europa)
    - o maior número possível de porcos é comprimido nos veículos onde muitos acabam por morrer
    Enfim, há outras. Atenção que não estou a defender a indústria, simplesmente não podemos colocar tudo nos mesmos termos. Mesmo dentro de Portugal, há vacas em condições de produção muito diferentes e acho que é contra-producente cair em extremismos e colocar tudo nos mesmos termos, só isso.
    Em relação aos animais que comemos versus temos como animais de estimação, acho que é uma questão cultural. Crescemos num lado do mundo onde a norma é comer animais de produção (vacas, galinhas) e ter cães e gatos como animais de estimação. Se tivéssemos crescido na China seria diferente.

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