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  • Helena Magalhães

3 meses no ginásio e algumas observações sobre coisas ridículas


Os meus pais moram ao lado de um que tem grandes paredes em vidro para a rua. Mas não é um ginásio qualquer. É um daqueles que treina pessoas para competições de culturismo… até às onze da noite. Sempre que lá vou jantar e, de papo cheio, entro no carro para ir para casa, passo pelas grandes paredes de vidro onde vejo uma dúzia de tipos musculados em t-shirts de alças a grunhir e a levantar pesos. Questiono-me sempre se não terão família, esposas, filhos ou, sei lá, um sítio melhor onde estar às dez da noite.

Não é isto que me aflige, na verdade. Isto era apenas uma observação.

De Julho até agora – o tempo em que passei fisicamente quatro dias por semana num ginásio com o grupo do lar de idosos – observei uma série de coisas que, essas sim, me afligem e me fazem uma confusão tremenda. Ou se calhar sou eu que já estou com a personalidade da velha rezingona.

O que fazem miúdas de 16 anos num ginásio?

Esta foi a primeira coisa que me deixou perturbada: ver miúdas de 16 e 17 anos no ginásio. Mesmo no tempo em que era absolutamente fã da Malhação (deixava a gravar em casa enquanto ia para a escola), e as primeiras temporadas foram filmadas no conceito e espaço do ginásio, nunca tive esse chamamento. Aquilo era algo mesmo muito fantasioso, uma coisa muito “abrasileirada” onde as adolescentes “malhavam” todas as tardes na academia ao mesmo tempo que estudavam para o “vestibular”. Os namoricos, os dramas e as acções aconteciam entre uma aula de dança e uma sessão de bicicletas, lembram-se? Mas, na verdade, nunca tive amigas que andassem no ginásio. Andávamos sim no basquet, na natação, na patinagem, no corfebol e sei lá mais em que desportos de competição pelo prazer de jogar. Então, confesso que me faz confusão ver adolescentes em cima de máquinas simplesmente a passar o tempo. Como se não houvesse nada de melhor para fazer aos 16 anos.

E a maioria (para aí 95%) das que vi são miúdas com corpos absolutamente normais, de mini-calções, top curtos, maquilhadas e todas elas menores de idade. Do modo que me custa compreender porque razão adolescentes estão em cima de uma bicicleta a olhar para nós – os velhos – na piscina, ao invés de estarem, sei lá, a fazer qualquer outra coisa. No outro dia no balneário assisti a uma conversa entre três miúdas que me deixou ali parada a olhar para elas de cuecas na mão deliberadamente a ouvir. Mesmo à velha.

– Não sabia que vocês andavam cá – diz uma miúda loira em mini calções de lycra (que saudades de usar calções de lycra sem ficar com as bochechas do rabo a abanar para todos os lados) para outras duas que se estão a vestir, também elas de mini-calções. – Só começámos mesmo hoje – responde uma das outras – viemos ver agora como é. – E vão fazer o quê? – pergunta a loira. – Vamos fazer máquinas, claro, bicicletas e se calhar a zumba – responde a mesma. – Ah! Eu também faço máquinas para tonificar – diz a loira radiante por vir a ter companhia – amanhã na escola bora ver o horário para combinarmos vir as três juntas.

E eu estava a olhar porque a miúda loira era perfeita. Aliás, eram as três. Tinha um corpo bonito, um rabo redondo como só se tem aos 16 anos – claro que olhei – e umas pernas sem qualquer grama de celulite. Porque não estão, então, a passear? A curtir a adolescência? A namorar? A ver os rapazes da escola? A ir ao centro comercial? À praia? Ao cinema? A ler? Ou em casa de amigas a escrever diários e a ver filmes? A falar sobre a vida? Se calhar agora já não se vive a adolescência como no meu tempo, é verdade, mas todos os dias que vejo uma miúda sentada em cima de uma máquina apetece-me arrancá-la de lá e mandá-la viver a sua juventude porque vai passar a voar. Meu Deus, se calhar transformei-me numa velha.

Nunca vi tantos pipis de uma vez só

Isto é um fenómeno, acho eu, da terceira idade. Mas felizmente ainda não cheguei lá. Não entendo porque razão, depois dos 65 anos, todas as mulheres gostam de andar nuas no balneário. Secam o cabelo nuas. Arrumam a roupa no cacifo nuas. Espetam o rabo – nu – para colocar o cremezito nas pernas. E andam ali a cirandar para lá e para cá… nuas. Isto quando não estão a abrir as pernas e a inclinarem-se ligeiramente para a frente para secar o pipi com a toalha enquanto conversam umas com as outras.

É toda uma enchente visual de pipis como nunca tinha visto na vida. A minha mãe – que é uma velhota com as ideias no sítio – ficou chocada na primeira vez que começou a ver toda a gente nua à sua volta. Disse-me: meu Deus filha, nunca vou andar aqui nua. E desde então, começou a vestir-se dentro das casas-de-banho do balneário. Não precisamos chegar a tanto… é certo. Este momento do balneário pode ser vivido em meio-termo: não deve ser em total constrangimento porque somos todas mulheres mas também nunca em total liberdade. Ou seja, não é preciso andarmos de roupão e quase a tomar banho vestidas para nos escondermos do mundo. Mas também não vamos andar como se fossemos crianças de cinco anos a conversar nuas de pernas abertas no corredor. Eu visto as cuecas com a tolha à volta da cintura e, para vestir o soutien, viro-me de costas para as vizinhas. Seco o cabelo vestida. Calço-me vestida. E arrumo as minhas coisas vestida. Qual é esta necessidade de andar nua para lá e para cá como se o acto de se vestirem fosse a última coisa que têm de fazer? Não entendo.

Qual a obsessão em usar sempre o mesmo cacifo? Como se os outros tivessem sarna…

Como não tinha nada para fazer no sábado, fui com a minha mãe a uma aula de hidroginástica às cinco da tarde. Na verdade, adoro ir ao sábado porque está vazio e as aulas só têm quatro ou cinco velhotes. E assisti a uma situação ridícula. Com o balneário vazio e 99% dos cacifos livres, entrou uma velhota e veio directamente para o meio – entre mim e a minha mãe. Ficou ali toda nua só de chinelos nos pés, a tirar a sua roupa da mala e a vestir o fato-de-banho colada a mim e à minha mãe que, entre risos, fazíamos gestos por trás dela e nos questionávamos porque razão veio para o nosso espaço pessoal com todo um balneário vazio. Só me ocorre que é daquelas que quer aquele cacifo porque quer e porque sim e nada mais serve.

Afinal, os pêlos púbicos não se querem à la bebé 

Além das velhotas que passeiam nuas, claro que dou por mim a olhar para outras mulheres. Serei só eu? Acho que é perfeitamente normal. Não posso estar no balneário de palas nos olhos. E a verdade é que tenho observado que praticamente todas têm pêlos púbicos. Tufinhos, vá. Esta é uma daquelas conversas do género em que ninguém vê a Casa dos Segredos mas toda a gente sabe o que se passa. Parece que toda a gente diz que faz depilação à brasileira só para parecer fixe mas a verdade não é bem assim. O que até me deixou bastante tranquila. Viva o tufinho.

E outras coisas ridículas que, como quem não quer a coisa, fui observando

As selfies… ai as selfies. Parece que toda a gente treina de telemóvel na mão. As raparigas fazem selfies no espelho do balneário e em cima das máquinas. E numa das salas de aulas de grupo está afixado num papel enorme à porta: proibido tirar fotos ou filmar. Isto era escusado (acho eu…).

Uma notícia do jornal I diz que uma em cada dez pessoas tem orgasmos durante um treino no ginásio. Adorava tê-los. Mas é impossível no meio de velhotes em fato-de-banho cueca que cantam durante a aula de hidroginástica, pipis no balneário e tipos em t-shirts de mangas cavas que levantam pesos com cara de quem está na sanita a fazer força (diga-se, para o nº2 sair), vermelhos e com as veias da testa salientes.

Há um dia por semana em que a minha aula de hidroginástica é ao mesmo tempo que a natação de uma turma de miúdos. Os pais aglomeram-se durante 45 minutos no vão de escada à porta de vidro para a piscina a tentar ver o seu rebento a saltitar na água. Não seria mais útil usarem esse tempo para fazerem qualquer coisa por eles? Só imploro para não me tornar numa dessas mães.

Estas são as mesmas mães que – cinco minutos antes da aula de natação da criançada acabar – já estão lá em baixo a guardar o seu chuveiro de toalhas e champôs na mão. Como a aula de hidroginástica acaba cinco minutos antes da natação, sempre que chego ao balneário tenho de andar pelos chuveiros tipo ‘onde está o Wally?’ à procura de um que não tenha uma mãe lá dentro a fazer de cão de guarda.

Se eu vou continuar no ginásio? Sim. Por várias razões. Já estou óptima do joelho e podia parar as aulas de hidroginástica mas vou para acompanhar a minha mãe que ela, sim, precisa de se mexer mais. E a verdade é que acabei por gostar delas. Sou quase uma ginasta da água e sinto-me sempre bem quando saio de lá. Mas a minha capacidade para tolerar um ginásio termina aqui. Dêem-me uma piscina em casa e deixo de lá ir.

#LOVEampLIFE

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