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  • Helena Magalhães

A culpa é dos domingos à noite que são tão solitários


Não podia ficar calada para sempre. Lá respondi às várias mensagens que lhe deixei sem resposta. «Já não estás amuada comigo?», perguntou-me. «Não estou amuada, só não tinha nada para te dizer», respondi-lhe. «Quero que saibas que gosto mesmo de ti», disse-me. A sério? Gosta? E quando o vi no Lux com a outra? Isso é gostar? De mim ou dela? Faz-me sentir uma idiota. Como é que posso ter as respostas que toda a gente procura e, na minha própria vida amorosa, ser esta nulidade? «Nem vás por aí… Acabaram-se estas conversas». «Eu sei que a culpa é minha porque não te disse nada da carta. Mas ando com ela fechada na carteira e já a li uma centena de vezes. As tuas palavras são maravilhosas, não consigo parar de lê-la, mas não sei o que fazer. Nunca imaginei que isto pudesse acontecer porque sempre acreditei que não gostavas de mim. Foi o que me fizeste acreditar…», disse-me. «Vieste com duas semanas de atraso». «Porque não sabia o que fazer. Precisava de pensar». «De pensar? Ias continuar a pensar indefinidamente se, por mero acaso, não tivesse acabado no Lux e não te tivesse visto. Disseste que vinhas para Lisboa e fizeste-me acreditar que vinhas resolver as coisas quando, na verdade, não vieste resolver nada». «Eu sou uma merda de homem. Eu sei que sou. Sou cobarde e sei que te desiludi. Não estou sequer perto de ser o homem que tu deves ter. E não me orgulho disso. Mas não sei o que fazer…». Aqui, neste exacto momento, já estava ranhosa, mergulhada em lágrimas que limpava à manga da camisola. Fungava tanto que tive vergonha de mim própria. «O mais ridículo disto tudo é estarmos a ter esta conversa por mensagens», disse-lhe. Fui à casa de banho, mergulhei a cabeça no lavatório e fiquei a olhar para mim ao espelho. Até que ponto é que estava disposta a isto? Tenho vergonha de contar isto a alguém. Tenho vergonha de contar às minhas amigas que o idiota cujo nome me apetecia gritar do telhado ao mundo inteiro era, na verdade, apenas isso: um idiota. Cobarde e mentiroso. «És a mulher mais forte que conheço. Dizes as coisas que sentes sem medo e nunca conheci ninguém assim.» Tinha-me escrito isto. «De que vale a pena sentir algo, se não o dizemos?», respondi. «Tens razão. E tudo o que eu sempre te disse é verdade, mas não sei o que fazer. Preciso de tempo. Por favor…». «Tens todo o tempo. Não vou a lado nenhum. Estou aqui…», disse-lhe. «Estás comigo?», perguntou-me. «Estou», respondi. «Sem mais ninguém?», perguntou. «Não há mais ninguém porra.» E desliguei o telemóvel. Quão egoísta é ele por me questionar se espero por ele sem mais ninguém, quando ele não tem a capacidade de fazer o mesmo?

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