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  • Helena Magalhães

A moda da ansiedade nas redes sociais


Se ganhasse um euro por cada vez que vejo alguém nas redes sociais a expressar a sua ansiedade, estava rica. Porque parece que vivemos na era em que ter ansiedade é moda. Toda a gente a tem. Temo que nem toda a gente saiba realmente o que é viver com ela, caso contrário não a bradaria aos sete céus.


Estão proliferados por toda a internet e revistas: como lidar com ataques de pânico, como viver com ansiedade, diminuir o stress, aliviar os sintomas da ansiedade. Todo e qualquer site tem uma dica a dar. Mas chegou a um ponto em que se deixou de informar ou de sensibilizar para a problemática da saúde mental neste século porque passou a ser moda falar destes temas. Quase como se se dissesse: se nunca tiveste um ataque de pânico, não és um verdadeiro millennial.


Viver com ansiedade desde criança


E eu sinto-me no direito de falar sobre isto porque, infelizmente – e acreditem, é muito infelizmente – sei o que é viver com ansiedade praticamente desde que me lembro de mim. Tinha ataques de pânicos, claustrofobia, medo de morrer. Tinha pânico em ficar sozinha porque sentia sempre que ia ter uma crise. Lembro-me de ser miúda – sete ou oito anos – e de ir com a minha turma ao Museu do Medo. Todos tivemos de escolher um medo. Houve quem escolhesse o medo do escuro, medo das abelhas, medo das alturas, medo das aranhas, enfim. Eu escrevi: medo de ficar de sozinha. O meu medo era tal que, aos 13 anos, entrava em pânico por ficar sozinha em casa naquela hora entre a minha mãe ir para o trabalho e eu ir para a escola. Acreditava piamente que iria morrer. A coisa acabou por atenuar com a idade e a adolescência, logicamente. Porque em adolescentes só queremos estar sozinhos com os nossos pensamentos. Mas saltou para a vida adulta noutros contornos. Perdi a conta ao número de vezes que saí de discotecas ao colo de seguranças. O medo de ficar sozinha transformou-se em claustrofobia e no medo de estar com muita gente o que, se pensarmos bem, até é irónico. E só quem sabe o que é ter um ataque de pânico – aqueles minutos em que todos os botões do nosso corpo se ligam e entram em curto-circuito – sabe o quanto desejamos que tudo pare, que acabe de vez.


E depois com isto vem o medo. A ansiedade torna-se parte da rotina, aprendemos a chamá-la pelo seu nome. Mas também lhe ganhamos medo. Medo até de pensar nela. Medo só por estar a escrever isto. Torna-se o nosso bicho-papão. Não queremos atrair. Ganhamos ansiedade à própria ansiedade. E o meu conselho é sempre o mesmo – procurem ajuda. Façam terapia. Aprendam a compreender os gatilhos que desencadeiam ataques para os poderem controlar ou minimizar.


A ansiedade tornou-se num sofrimento belo que dá likes


Mas eis que as redes sociais trouxeram os likes e, com isso, o embelezamento de tudo que possa dar like. Toda a gente quer andar ansioso e deprimido. É este sofrimento belo que se tornou uma tendência. Mas a ansiedade é um lembrete constante de que algo vai correr mal e torna o dia-a-dia um sofrimento que, acreditem, não é nada belo. Impede-nos de fazer mil e uma coisas. Eu adoro comunicar e falar com pessoas mas sofro com a ansiedade de estar em público. Como é que algo que adoro fazer me traz, ao mesmo tempo, tanto sofrimento e me obriga a tomar medicação? Não é tendência. É real.


A ansiedade não nos segue até ao Instagram. Não é um coraçãozinho numa fotografia. Mas segue-nos até à escola, ao emprego, ao cinema, aos concertos, às discotecas, às férias, às viagens. Segue-nos para todo o lado e lembra-nos constantemente que agora estamos bem mas em cinco minutos podemos estar a ter uma crise inexplicável. Lembra-nos que aquela viagem que tanto queríamos fazer se pode tornar no nosso maior pesadelo. Lembra-nos que por mais felizes que estejamos, basta um tic-tac para o nosso corpo entrar em colapso sem explicação. Toda a gente quer ter ansiedade até a ter realmente. A falta de controlo é o impulso que ela precisa para tomar conta da nossa mente e do nosso corpo. E, uma vez que não controlamos nada, quem tem ansiedade vive em constante preocupação.


As pessoas já não estão nervosas, estão com ansiedade


As séries, os filmes e os reality-shows tornaram medicamentos como o Xanax como cool. Toda a gente gosta de dizer que precisa de um Xanax. Mas as pessoas não sabem o que é precisar realmente de tomar um Xanax. As pessoas já não estão nervosas por terem uma apresentação no trabalho, têm ansiedade; Já não estão desconfortáveis por ir a uma festa ou uma reunião onde não conhecem ninguém, têm ansiedade social; Já não ficam stressadas, têm ataques de pânico. As celebridades são aclamadas como heroínas por falarem sobre a sua ansiedade e a forma como se banalizaram as doenças mentais também torna estes diagnósticos, muitas vezes, sem credibilidade. Uma amiga muito próxima passou por isso – ansiedade severa durante a gravidez – e teve uma médica a dizer-lhe que se ela não parasse com esses chiliques, o marido não iria aguentar muito mais. Demorou toda uma gravidez até lhe diagnosticarem o que ela realmente tinha.



O que se sente durante um ataque de pânico?


Se querem saber o que se sente durante um ataque de pânico, imaginem começar a ter palpitações. Questionam-se por que razão o vosso coração está a bater, de repente e sem qualquer explicação, mais rápido. Depois o vosso peito pesa uma tonelada, como se uma força invisível tivesse a fazer tanta pressão que vos impedisse de respirar. E, como se não bastasse, agora têm a garganta seca e a vossa língua parece uma lixa. E agora esqueceram-se de como se respira. Cada inspiração e expiração é uma batalha. Neste momento, vocês já se aperceberam que vão ter um ataque de pânico e todas as sensações são intensificadas ao extremo. Já perderam a força nas pernas e, por esta altura, já se sentaram ou deitaram no chão. Provavelmente estão a ter sensações de desmaio e quem está convosco está a pedir uma garrafa de água. Como se a água ajudasse. E, sim, o momento de histeria chegou. Precisam de se lembrar de respirar, de não chorar, de manter a calma, de saber que isto já aconteceu e que ficaram bem. Mas não, desta vez vocês acreditam realmente que vão morrer. Que o vosso coração simplesmente vai parar. Vão ter um AVC. Uma paragem cardio-respiratória.

Vocês só querem sair de onde estão ou do quer que seja que vos está a deixar assim. Estão num concerto? Têm de sair. Estão no cinema? Adeus filme. Estão num exame na faculdade? Que se lixe a negativa (já me aconteceu). Estão numa reunião? Estão numa discoteca? Estão no trânsito parados? Estão num avião no meio do oceano?


Pois. Xanax. A medicação que salva a vida de quem está a ter um ataque de pânico é agora usada em memes engraçados na internet. Não precisamos de um Xanax para nos acalmarmos deste stress todo. Precisamos de um Xanax para sair deste estado mental absolutamente pavoroso. E com os ataques de pânicos vem o medo antecipatório de ter outro, sem qualquer aviso prévio, numa qualquer outra situação idêntica. E entramos numa vida com ansiedade em loop.


Não parece nada bonito, pois não? Mas a era de estarmos ansiosos nas redes sociais continua a dar likes. Ajuda a que se fale mais destes temas. Mas não deixa de ser irresponsável.


Fonte da capa: Pinterest