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  • Helena Magalhães

Fui ao Radio Hotel. Não morri mas perdi o coração (e os pulmões)



Depois de várias reclamações feitas nos últimos 3 ou 4 anos e de gritar aos sete ventos que não ia voltar, acabei arrastada para o Rádio Hotel na sexta-feira. Esqueci-me da máscara de gás – sabem, para sobreviver em catástrofes tóxicas que, não querendo dramatizar, é o caso.

A minha aversão ao Radio Hotel passa simplesmente pelo ambiente absolutamente tóxico que aquilo tem. E sejamos honestos, há poucos sítios de jeito em Lisboa para quem tem mais de 30 anos. Urban? Main? Place? Por amor de Deus. Lux? Fico maluca com o tuntz, tuntz, tuntz. O Rádio Hotel acaba por, enfim, não nos fazer sentir numa novela dos morangos com açúcar. Mas é um espaço mínimo, não tem capacidade para a lotação que chega a ter (nós, os velhos, já somos demasiados), não tem janelas e como se isto já não fosse claustrofóbico o suficiente – é uma câmara de fumo de tabaco. Mas morrer de cancro, para eles, é cool.

Gasto litros de perfume para, mal chegar lá, o meu Chloé ser substituído por Marlboro vermelho e os 10€ que deixo no Sanjan para fazer o brushing vão para o lixo porque o meu cabelo fica a cheirar a esgoto.


Onde se conhecem homens hoje em dia?

A conversa durante o jantar bateu naquele mesmo tema de sempre quando, no grupo, quatro são solteiras e contribuidoras assíduas para o Amor é Outra Coisa: vocês nunca vão conhecer ninguém porque não saem, acham que nas discotecas é só cabrões, querem conhecer um homem onde, num museu?, blá, blá, blá. Aqui, normalmente, eu digo que sim e acrescento biblioteca só para chatear. Mas deixei-me levar e, quando dei por mim, estava à porta do Rádio Hotel com o mesmo porteiro de todos os anos e que, todos os anos, me vê a sair a tossir e a reclamar.

Entrámos à meia noite e meia. E já era uma câmara de fumo – oh Deus! Fomos para a zona que eles gostam de chamar de não-fumadores, com sofás (porque, pelos vistos, só os fumadores é que dançam), onde me sentei a reclamar para toda a gente que ali também cheirava a tabaco. Mas o fumo deixou de estar temporariamente na minha mira de atenção quando um grupo de tipos de 30 e poucos anos se juntou.

Há uma coisa que costumo dizer e, infelizmente, ainda não me provaram o contrário – tipos que se continuam a comportar como eternos adolescentes em férias de verão e a sair em turminha para as discotecas, são um alerta cabrão escarrapachado. Mas eu também sou uma eterna crente e vá que decidi dar o benefício da dúvida. Ou então, por aquela altura, o fumo já tinha passado dos meus pulmões para o cérebro e eu simplesmente deixei de pensar com coerência.

O informático do Rádio Hotel

Um deles começou a meter conversa. Era alto (o meu primeiro critério num homem), de barba e só dizia piadas que, numa primeira impressão, não remetiam directamente para engate. Se remetessem, também não ia ter sorte porque não dou beijos na boca a tipos que sabem a vodka cigarro. Disse-me que era informático, que trabalhava numa multinacional qualquer mas partiu-me o coração quando assumiu 27 anos. Chorei um bocadinho para dentro e disse-lhe que devia estar no Place e não a enganar mulheres mais velhas com uma barba que o fazia parecer um homem quando, afinal, ainda era um pintainho a sair da casca.

Depois de repetir que já não trazia a casca às costas, trocámos números de telefone e, porque eu já estava a explodir no meio do fumo, fui embora com um amigo. Não lhe dei um número errado, atenção. Estava realmente expectante no que isto ia dar, apesar de ter a certeza de que ele não iria ser a excepção à regra. 

Txan, txan, txan. Era meio dia quando ele me envia uma mensagem: Bom dia! Ontem fiquei sentido contigo, foste embora com o teu amigo e já não quiseste saber de mim 😉 

Antes de responder, óbvio que fiz o trabalho de casa (trabalho este que todas têm de fazer). Fui procurá-lo no Facebook porque tinha a certeza de que ia ver uma série de fotos estúpidas. Mas enganei-me. Não tinha fotografias em tronco nu ao espelho. Yey. Não tinha selfies. Yey. Não tinha fotografias com beicinhos. Yey. Não tinha fotografias no ginásio. Yey. Não dava, aparentemente, erros ortográficos. Yey.

Estava praticamente a passar em todos os testes.  E iria sair-me o tiro pela culatra porque, aparentemente, era um tipo normal. Mas, BAM!, bastou-me andar pelas fotografias em que ele tinha sido marcado (e que estavam públicas) para ver que tinha namorada.

Pior que engate de discoteca, é um traidor numa discoteca

Coitado, pode ter acabado com a namorada ontem à noite, mesmo antes de te conhecer, disse uma delas quando lhes mostrei o Facebook do pintainho. Elas estavam a sofrer mais do que eu. Dava-nos tanto jeito um informático para nos arranjar os computadores, disse outra. E é que dava mesmo.

Mas sabem o que é que ia acontecer se eu já não tivesse um doutoramento em cabrões? Ele ia dar-me a conversa de que a relação estava muuuuuuuito mal (como aquele do outro dia). E se eu fosse muito ingénua, ia acreditar.

Respondi-lhe à mensagem umas horas depois: Desculpa, fiquei sentida contigo. É que tens namorada e andas a trocar números com outras. Pior que um engate de discoteca, é um traidor numa discoteca. E bloqueei-o, bye bye. 

Não quero dizer que não é ao virar da esquina da discoteca que se encontra o amor. Até pode ser. Mas os sinais daquilo que a outra pessoa nos quer dar estão sempre lá. É só uma questão de estarmos atentas. Mas, infelizmente, custa-me a acreditar que, aos dias de hoje, e na geração em que vivemos, se consigam encontrar homens com boas intenções no mar de idiotas que andam à caça de sexo pelas discotecas de Lisboa.

Não há Urban, não há Main, não há Place, não há Lux nem há Rádio Hotel que nos valha. Protejam os vossos pulmões. E o vosso coração.

#OAmoréOutraCoisa

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