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  • Helena Magalhães

O AMOR É OUTRA COISA #40 O rapaz do Go Natural


No outro dia fui ao Colombo com a minha mãe e parámos no Go Natural para jantar qualquer coisa. Sentámo-nos numa mesa lá dentro ao lado de duas raparigas. A meio do jantar, enquanto conversava com a minha mãe, reparei que as duas ao meu lado cochichavam, riam e tentavam fotografar um dos empregados que – depois de olhar melhor percebi – era bem interessante. Era giro, ponto.

Depois de muitas manobras e zoom no telefone, lá conseguiram tirar-lhe uma fotografia. E senti-me obrigada a levantar-me, não para olhar para ele, mas para elas. Não eram duas raparigas. Eram duas mulheres da minha idade (olha a sabedoria dos 30 a falar) ou até mais velhas que eu. E isto fez-me questionar porque razão duas mulheres, ao invés de abordarem um homem, fazem todo um circo de manobras corporais para o fotografar.

A fotografia poderia ser para enviar a uma amiga, é verdade. Mas e depois? Vão lá jantar todos os dias à espera que ele fale com uma delas? Vão colocar a fotografia dele no Google Images para o tentar encontrar? Vão fazer zoom na camisola para tentar ler o nome na placa e procurá-lo no Facebook? Não seria mais fácil simplesmente irem – ou ir a que estava interessada – falar com ele?

Numa geração em que as mulheres estão, de bom grado, a assumir os papeis que outrora eram chamados de cavalheirismo, seria de esperar que déssemos – sem medo – o primeiro passo. Mas, provavelmente, para 90% das mulheres isso ainda não acontece. O problema é que, hoje em dia, cavalheirismo é uma palavra que saiu do dicionário dos homens – é isso ou os seus tomates encolheram. É que eles também não dão o primeiro passo por variadas razões: medo de serem rejeitados, medo da ideia de alguém (nós) não os querer, medo de não serem o nosso tipo, medo de os acharmos atiradiços… Ou seja, eles têm os mesmos medos que nós. Certo?

E eles fazem o quê? A mesma parvoíce – procuraram-nos no Facebook e enviam-nos uma mensagem segura com uma piada pelo meio e, à falta de uma resposta, a rejeição não será tão dolorosa e não pensam mais no assunto. 

Porque nos tornámos uma geração de – perdoem-me – coninhas? 

Nunca me vou esquecer o que um amigo me disse, numa altura em que estava com uma paixoneta num tipo músico, com 40 anos e que não me ligava nenhuma: Queres sair com ele?, perguntou-me. Óbvio, respondi. Então, fala com ele, disse-me. Eu? Eu falar com ele? E ele disse-me: Preferes um tipo que se atira a todas e facilmente te abordaria para sair contigo sem hesitar?, perguntou-me. É claro que não preferia isso, nem prefiro. Então, ele nunca irá falar contigo porque raramente se mete com uma miúda. E isso deixou-me a pensar que muitos, muuuuuuuitos bons tipos dificilmente irão abordar uma mulher, simplesmente porque não têm esse perfil, porque são mais envergonhados, porque não se sentem confortáveis em dar o primeiro passo. O que eu diria que são homens com o perfil certo A.K.A baixa probabilidade de os encontrarmos no Urban Beach de vodka na mão a meter conversa com qualquer loira de decote escandaloso.

Esqueçam todas as regras que têm vindo a passar de geração em geração e que continuam a proliferar os papéis de género que dizem que os homens não gostam de mulheres agressivas ou que se dermos o primeiro passo, eles vão achar que somos – yeahhh – lixo.

Aproximem-se, digam qualquer coisa, sejam honestas. Eu teria dito à rapariga para se levantar da mesa, aproximar-se do balcão numa pausa e simplesmente falar com o rapaz do Go Natural. Não é necessário planear um grande discurso mas simplesmente serem vocês próprias. Todas estas coisas das relações devem ser meio cruas, meio desajeitadas. Pessoas que sabem tudo o que dizer e tudo o que fazer, simplesmente já praticaram demasiado. 

E eu abordei o tal músico, perguntei-lhe se queria jantar um dia e ele – que podia ter dito que sim – foi honesto: tinha namorada. Continuámos a falar algumas vezes, não senti que tivesse sido rejeitada, continuei com a paixoneta e com a minha vida. Porque é assim que as coisas são.

Umas vezes é sim. Outras vezes é não.

Mas se ficarmos no nosso canto a fazer manobras idiotas, a tirar fotografias ocultas e simplesmente a não fazermos nada, então vamos continuar a chafurdar na dúvida. E no Facebook.

Fotografia tirada por Faz de Conta Fotografia

#OAmoréOutraCoisa

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