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  • Helena Magalhães

Sobre sermos nós próprios | Livraria do Cinema Ideal


Uma das coisas que aprendi ao longo dos anos – especialmente nos anos mais recentes – foi que sermos nós próprios por vezes é uma pedra difícil de carregar no bolso. Daí que tanta boa gente ceda à pressão de simplesmente se encaixar. Não digo resignar ou aceitar mas simplesmente encaixar-se no que nos rodeia. Eu também já o fiz. Não digo que, então, era uma pessoa infeliz porque nunca era eu própria. Nada disso. Até acho que, naquela altura, era assim que me via. Demoramos muitos anos – se não toda uma vida – a descobrirmos quem somos.

Actualmente, é-me muito mais penoso encaixar do que simplesmente ser eu própria. Fazer fretes ou ir a sítios que não quero só porque toda o gente o quer deixa-me menos encaixada do que, pelo contrário, ser como sou – com todos os defeitos que, aos olhos dos outros, possa ter. Não tolero sítios com fumo e fico irritadiça, reclamo ou vou embora. Odeio que fumem ao meu lado, fico contrariada. Sou comichosa e picuinhas com a comida ao ponto de simplesmente não conseguir comer se algo me incomodar. Odeio jantares que começam às dez da noite – gosto de jantar cedo e fico intratável quando estou com fome. Isto podem ser defeitos, eu sei, que em grupo deveria tentar atenuar mas a tolerância não é das minhas melhores qualidades. Embora também seja algo que esteja a tentar melhorar.

Eu sou uma pessoa sossegada e acho que o estou a ficar cada vez mais. Gosto de sítios calmos, com pouca gente, sem música alta. Às vezes digo que, em contraste com a pessoa que era há cinco ou seis anos, uma velha de 80 anos entrou no meu corpo e apoderou-se de mim. Mas acho que está tudo relacionado simplesmente com o crescimento. Antigamente, embora nunca tenha fumado, o fumo não me incomodava como hoje. Discotecas cheias e com música estridente também não. E claro que às vezes penso que o problema é meu… Mas no outro dia estava a ver um daqueles programas da MTV (super shore) e um dos que fez o programa nos últimos anos partilhava que o ia abandonar porque já não era a mesma pessoa que tinha sido, já não gostava de sair, de beber e queria mudar de vida. E embora identificar-me com um participante de um reality show seja algo que nunca pensei afirmar, bem, senti o que o tipo queria dizer.

Aceitar as pessoas que somos em todas as fases da nossa vida é meio caminho andado para sermos felizes. Ou minimamente felizes. Uma outra coisa que adoro fazer é conversar com pessoas e descobrir mais sobre as suas histórias de vida. Quando falei com a dona da livraria do Cinema Ideal, ela explicou-me que se tinha despedido e começado a comprar e vender livros em feiras porque era o seu sonho. Depois de algum tempo assim, e com a dificuldade de o fazer durante os meses de inverno, decidiu que estava na hora de ter um espaço físico. E juntou-se ao Cinema Ideal. A Livraria Metamorfose vende livros em segunda-mão, o que significa que tem achados que vêm e vão – desde o dia em que tirei estas fotografias, já lá voltei três vezes. Neste dia, tinha encontrado uma versão antiga do Monte dos Vendavais (de 1950 e pouco) a 3€ – claro que comprei, embora já tenha outra aqui em casa de uma colecção recente.

A livraria tem também uma cafetaria absolutamente fantástica. É como estar no meio do barulho da cidade (mesmo ao lado do Largo Camões) mas, ao mesmo tempo, completamente isolados. É fácil de encontrar: subam as escadinhas ao lado do Cinema Ideal.













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