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Adoptar uma rotina de beleza mais natural sem se ser demasiado extremista

20 de outubro de 2017

Uma das coisas que tenho andado a estudar nos últimos meses é a forma de ter cuidados de pele mais naturais mas também num registo de vida... natural. Ou seja, sem grandes fundamentalismos que é algo que não gosto nada. E tal como escrevi no Observador (podem ler aqui), a cosmética está cheia de informações duvidosas que, com o crescimento dos mercados orgânicos, naturais e vegan, está a gerar muita confusão porque todos estes termos podem ser enganadores para uma pessoa comum que não presta grande atenção aos rótulos ou não está bem informada.

Muitas das marcas mais faladas no mundo estão cheias de químicos e ingredientes tóxicos escondidos atrás de termos pomposos e campanhas de publicidade bonitas. E isto não nos vai matar, é certo, mas pode levar a muitos problemas de saúde. Se se questionam porque razão, então, muitas marcas ainda usam tantos químicos, a resposta é simples: é mais barato, cria cores bonitas, cheiros apelativos e os químicos, por vezes, são necessários para preservar os produtos. Para uma pessoa menos atenta ou que não ligue tanto aos ingredientes, provavelmente nem se apercebe que muitos ingredientes nem sequer são listados porque as empresas pedem uma espécie de "trade secret" que permite a não divulgação de certos ingredientes.

Por outro lado, e devido à pressão por parte de várias organizações e até do próprio consumidor, cada vez mais marcas estão a procurar ter uma filosofia mais natural ainda que não se assumam 100% naturais.

#METOO Sim, também fui vítima de assédio. E não podemos baixar a voz

19 de outubro de 2017



Falar de assédio é como falar de política ou religião ou dinheiro. É daqueles temas meio cinzentos em que nem sempre cai bem largar o assunto à mesa do jantar ou ao telefone com uma amiga. Principalmente quando vem de pessoas superiores (ou que se julgam) que usam o seu poder como arma para tentar chegar um pouco longe de mais. Uma espécie de simpatia mascarada de assédio que, muitas vezes, e quem está deste lado, nem sempre consegue perceber muito bem o que está a acontecer. Além disso, a palavra vítima ainda tem uma conotação muito negativa. Fui vítima. Mas fui vítima mesmo? Ou será que dei a entender algo mais? E só fui vítima se houver marcas? E as psicológicas? Fazem de nós vítimas?

Queria aproveitar o mote do que se está a passar no mundo e o momento em que mulheres um pouco por todo o lado estão a falar de assédio para contar três histórias que se passaram comigo e talvez com isto dar força a muitas outras para gritarem mais alto. Poucas são as pessoas da minha vida que sabem que isto aconteceu porque, lá está, não é daqueles temas que se discuta à mesa de jantar. Mas não tenho vergonha de falar deles. Talvez tenha tido no passado. Mas não agora.

3 meses no ginásio e algumas observações sobre coisas ridículas

18 de outubro de 2017


Eu sou a última pessoa que os ginásios gostem de lá ter. Basicamente porque odeio ginásios e odeio o conceito dos ginásios. A ideia de estar em cima de uma máquina a olhar para a parede durante vinte minutos é o mais próximo do inferno que me consigo imaginar (embora no passado até já tenha tentado, calma, mas acabei sempre por desistir porque me apetecia cortar os pulsos a ir ao ginásio). Foi exactamente por isso que - devido a uma lesão no joelho e a imposição de algum exercício físico - me juntei ao grupo da terceira idade e entrei num ginásio para fazer hidroginástica. E natação, vá. Mas apenas isso.

Os meus pais moram ao lado de um que tem grandes paredes em vidro para a rua. Mas não é um ginásio qualquer. É um daqueles que treina pessoas para competições de culturismo... até às onze da noite. Sempre que lá vou jantar e, de papo cheio, entro no carro para ir para casa, passo pelas grandes paredes de vidro onde vejo uma dúzia de tipos musculados em t-shirts de alças a grunhir e a levantar pesos. Questiono-me sempre se não terão família, esposas, filhos ou, sei lá, um sítio melhor onde estar às dez da noite.

Não é isto que me aflige, na verdade. Isto era apenas uma observação.

De Julho até agora - o tempo em que passei fisicamente quatro dias por semana num ginásio com o grupo do lar de idosos - observei uma série de coisas que, essas sim, me afligem e me fazem uma confusão tremenda. Ou se calhar sou eu que já estou com a personalidade da velha rezingona.

O que fazem miúdas de 16 anos num ginásio?

Esta foi a primeira coisa que me deixou perturbada: ver miúdas de 16 e 17 anos no ginásio. Mesmo no tempo em que era absolutamente fã da Malhação (deixava a gravar em casa enquanto ia para a escola), e as primeiras temporadas foram filmadas no conceito e espaço do ginásio, nunca tive esse chamamento. Aquilo era algo mesmo muito fantasioso, uma coisa muito "abrasileirada" onde as adolescentes "malhavam" todas as tardes na academia ao mesmo tempo que estudavam para o "vestibular". Os namoricos, os dramas e as acções aconteciam entre uma aula de dança e uma sessão de bicicletas, lembram-se? Mas, na verdade, nunca tive amigas que andassem no ginásio. Andávamos sim no basquet, na natação, na patinagem, no corfebol e sei lá mais em que desportos de competição pelo prazer de jogar. Então, confesso que me faz confusão ver adolescentes em cima de máquinas simplesmente a passar o tempo. Como se não houvesse nada de melhor para fazer aos 16 anos.

E a maioria (para aí 95%) das que vi são miúdas com corpos absolutamente normais, de mini-calções, top curtos, maquilhadas e todas elas menores de idade. Do modo que me custa compreender porque razão adolescentes estão em cima de uma bicicleta a olhar para nós - os velhos - na piscina, ao invés de estarem, sei lá, a fazer qualquer outra coisa. No outro dia no balneário assisti a uma conversa entre três miúdas que me deixou ali parada a olhar para elas de cuecas na mão deliberadamente a ouvir. Mesmo à velha.

- Não sabia que vocês andavam cá - diz uma miúda loira em mini calções de lycra (que saudades de usar calções de lycra sem ficar com as bochechas do rabo a abanar para todos os lados) para outras duas que se estão a vestir, também elas de mini-calções.
- Só começámos mesmo hoje - responde uma das outras - viemos ver agora como é.
- E vão fazer o quê? - pergunta a loira.
- Vamos fazer máquinas, claro, bicicletas e se calhar a zumba - responde a mesma.
- Ah! Eu também faço máquinas para tonificar - diz a loira radiante por vir a ter companhia - amanhã na escola bora ver o horário para combinarmos vir as três juntas.

E eu estava a olhar porque a miúda loira era perfeita. Aliás, eram as três. Tinha um corpo bonito, um rabo redondo como só se tem aos 16 anos - claro que olhei - e umas pernas sem qualquer grama de celulite. Porque não estão, então, a passear? A curtir a adolescência? A namorar? A ver os rapazes da escola? A ir ao centro comercial? À praia? Ao cinema? A ler? Ou em casa de amigas a escrever diários e a ver filmes? A falar sobre a vida? Se calhar agora já não se vive a adolescência como no meu tempo, é verdade, mas todos os dias que vejo uma miúda sentada em cima de uma máquina apetece-me arrancá-la de lá e mandá-la viver a sua juventude porque vai passar a voar. Meu Deus, se calhar transformei-me numa velha.

Nunca vi tantos pipis de uma vez só

Isto é um fenómeno, acho eu, da terceira idade. Mas felizmente ainda não cheguei lá. Não entendo porque razão, depois dos 65 anos, todas as mulheres gostam de andar nuas no balneário. Secam o cabelo nuas. Arrumam a roupa no cacifo nuas. Espetam o rabo - nu - para colocar o cremezito nas pernas. E andam ali a cirandar para lá e para cá... nuas. Isto quando não estão a abrir as pernas e a inclinarem-se ligeiramente para a frente para secar o pipi com a toalha enquanto conversam umas com as outras.

É toda uma enchente visual de pipis como nunca tinha visto na vida. A minha mãe - que é uma velhota com as ideias no sítio - ficou chocada na primeira vez que começou a ver toda a gente nua à sua volta. Disse-me: meu Deus filha, nunca vou andar aqui nua. E desde então, começou a vestir-se dentro das casas-de-banho do balneário. Não precisamos chegar a tanto... é certo. Este momento do balneário pode ser vivido em meio-termo: não deve ser em total constrangimento porque somos todas mulheres mas também nunca em total liberdade. Ou seja, não é preciso andarmos de roupão e quase a tomar banho vestidas para nos escondermos do mundo. Mas também não vamos andar como se fossemos crianças de cinco anos a conversar nuas de pernas abertas no corredor. Eu visto as cuecas com a tolha à volta da cintura e, para vestir o soutien, viro-me de costas para as vizinhas. Seco o cabelo vestida. Calço-me vestida. E arrumo as minhas coisas vestida. Qual é esta necessidade de andar nua para lá e para cá como se o acto de se vestirem fosse a última coisa que têm de fazer? Não entendo.

Qual a obsessão em usar sempre o mesmo cacifo? Como se os outros tivessem sarna...

Como não tinha nada para fazer no sábado, fui com a minha mãe a uma aula de hidroginástica às cinco da tarde. Na verdade, adoro ir ao sábado porque está vazio e as aulas só têm quatro ou cinco velhotes. E assisti a uma situação ridícula. Com o balneário vazio e 99% dos cacifos livres, entrou uma velhota e veio directamente para o meio - entre mim e a minha mãe. Ficou ali toda nua só de chinelos nos pés, a tirar a sua roupa da mala e a vestir o fato-de-banho colada a mim e à minha mãe que, entre risos, fazíamos gestos por trás dela e nos questionávamos porque razão veio para o nosso espaço pessoal com todo um balneário vazio. Só me ocorre que é daquelas que quer aquele cacifo porque quer e porque sim e nada mais serve.

Afinal, os pêlos púbicos não se querem à la bebé 

Além das velhotas que passeiam nuas, claro que dou por mim a olhar para outras mulheres. Serei só eu? Acho que é perfeitamente normal. Não posso estar no balneário de palas nos olhos. E a verdade é que tenho observado que praticamente todas têm pêlos púbicos. Tufinhos, vá. Esta é uma daquelas conversas do género em que ninguém vê a Casa dos Segredos mas toda a gente sabe o que se passa. Parece que toda a gente diz que faz depilação à brasileira só para parecer fixe mas a verdade não é bem assim. O que até me deixou bastante tranquila. Viva o tufinho.

E outras coisas ridículas que, como quem não quer a coisa, fui observando

As selfies... ai as selfies. Parece que toda a gente treina de telemóvel na mão. As raparigas fazem selfies no espelho do balneário e em cima das máquinas. E numa das salas de aulas de grupo está afixado num papel enorme à porta: proibido tirar fotos ou filmar. Isto era escusado (acho eu...).

Uma notícia do jornal I diz que uma em cada dez pessoas tem orgasmos durante um treino no ginásio. Adorava tê-los. Mas é impossível no meio de velhotes em fato-de-banho cueca que cantam durante a aula de hidroginástica, pipis no balneário e tipos em t-shirts de mangas cavas que levantam pesos com cara de quem está na sanita a fazer força (diga-se, para o nº2 sair), vermelhos e com as veias da testa salientes.

Há um dia por semana em que a minha aula de hidroginástica é ao mesmo tempo que a natação de uma turma de miúdos. Os pais aglomeram-se durante 45 minutos no vão de escada à porta de vidro para a piscina a tentar ver o seu rebento a saltitar na água. Não seria mais útil usarem esse tempo para fazerem qualquer coisa por eles? Só imploro para não me tornar numa dessas mães.

Estas são as mesmas mães que - cinco minutos antes da aula de natação da criançada acabar - já estão lá em baixo a guardar o seu chuveiro de toalhas e champôs na mão. Como a aula de hidroginástica acaba cinco minutos antes da natação, sempre que chego ao balneário tenho de andar pelos chuveiros tipo 'onde está o Wally?' à procura de um que não tenha uma mãe lá dentro a fazer de cão de guarda.

Se eu vou continuar no ginásio? Sim. Por várias razões. Já estou óptima do joelho e podia parar as aulas de hidroginástica mas vou para acompanhar a minha mãe que ela, sim, precisa de se mexer mais. E a verdade é que acabei por gostar delas. Sou quase uma ginasta da água e sinto-me sempre bem quando saio de lá. Mas a minha capacidade para tolerar um ginásio termina aqui. Dêem-me uma piscina em casa e deixo de lá ir.

#10 O novo escritório em Lisboa e o mausoléu da maluca da Clarice (será que volta?)

9 de outubro de 2017


Um dia de manhã a Maria não apareceu. Caso não se recordem, a Maria era a rapariga da recepção. Por uma vez na vida, demos valor ao trabalho dela porque tivemos de nos revezar para abrir a porta e atender os telefones. E, acreditem, era o dia todo nisto: correio, estafetas e mais estafetas e mil e uma chamadas do telefone central que nunca parava de tocar. A Maria estava com uma crise de cólicas renais e não se podia mexer. Até aqui tudo bem. Mas no dia seguinte lá estava ela de manhã: pálida, com olheiras até ao queixo e a andar agarrada à barriga. Acabou por nos contar que, a meio da tarde, tinha recebido uma mensagem do Satanás a ameaçar que se não aparecesse no dia seguinte estava despedida por justa causa. A rapariga lá foi... Dava dó olhar para ela. Mal se mexia, arrastava-se pelo corredor sempre que tinha de abrir a porta e o calor insuportável que se instalava a partir da hora de almoço não tornava o ambiente sequer aprazível. Tentámos ajudá-la, levantámo-nos nós para abrir a porta e fizemos o melhor que podíamos para que, pelo menos, ela estivesse o mais confortável possível. Mas a meio da tarde - ainda o Satanás não tinha aparecido - a Maria começou a sentir-se mal e Irina foi direta ao assunto e chamou o INEM. Foi todo um aparato no edifício com os paramédicos a subir pelo elevador com a maca, a entrarem pela redacção e a tentarem acalmar uma Maria contorcida em lágrimas enquanto tentavam perceber o que ela tinha. Todos nós ficámos ali sem saber muito bem o que fazer mas a rezar contra Satanás porque, afinal de contas, a culpa acabava por ser dele - por ser um ser humano execrável e sem alma. E Maria lá foi para o hospital. Irina contactou a mãe dela e o resto da tarde passou de forma sorumbática. Quando Satanás chegou, Irina contou-lhe o que tinha acontecido mas ele não mostrou sequer qualquer tipo de empatia. Encolheu os ombros e fechou-se no gabinete.

Como montar e organizar um roupeiro por menos de 150€

6 de outubro de 2017


Quando mudei para esta casa, percebi que iria ter de investir algum dinheiro a sério num roupeiro - coisa que não existe em nenhum quarto. Ainda assim, tenho um espaço (uma espécie de canto entre o quarto e uma das casas-de-banho) que foi convertido em roupeiro (e que mostrei neste post) onde basicamente optei por colocar os casacos todos. Fiquei, então, com a roupa do dia-a-dia para organizar e arrumar que, durante alguns meses, esteve em cima de uma cama.

Vou ser honesta: depois de ir a várias lojas e de fazer mil e um orçamentos, o mais barato que consegui encontrar para um roupeiro de parede rondava os 500€. Decididamente, não era um valor que me apetecesse gastar - nem a prestações. Por várias razões mas a principal era óbvia: não sei quanto tempo vou ficar nesta casa. Fazer um roupeiro à medida para esta parede e daqui a uns anos mudar-me (e já não fazer sentido noutra casa) estava a matar-me o coração. Até que pensei que só me restava uma única opção: montar eu um roupeiro. E, voilá, foi a melhor decisão que tive.

Como ter (e cuidar) de um jardim em casa

3 de outubro de 2017


Quando mudei de casa, alguém no Facebook disse, num comentário, que agora que a casa era minha ia virar uma fada do lar. Eu ri-me e pensei para mim própria que isso estava longe de acontecer. Até que dei por mim a comprar plantas e - pior - a plantá-las. Quando era miúda, lembro-me de rezingar sempre que o meu pai me pedia para regar as plantas lá de casa e das escadas do prédio. Achava-a a tarefa mais aborrecida de sempre e gritava que não sabia porque razão alguém iria querer tantas plantas em casa. Até que me tornei numa dessas pessoas.

Para quem tem pouca mobília - como é o meu caso - as plantas acabam por ser uma forma de dar vida às divisões e - isto é uma opinião pessoal - criam um ambiente mais tranquilo e menos propenso à ansiedade.

Nestes últimos meses, tenho andado de volta da jardinagem e como me têm pedido tanto no Instagram para mostrar mais da minha casa e como estou a cuidar das plantas - por não ter varanda e, acima de tudo, a forma como os gatos lidam com elas - andei a fotografar e a organizar as ideias. Tudo o que tenho feito, na verdade, tem sido muito por tentativa e erro e, claro, por ligar quinhentas vezes à minha mãe.

A primeira planta que entrou cá em casa foi um pau de água, que viveu em casa dos meus pais provavelmente tantos anos quanto eu. A minha mãe apareceu com ele ainda durante as mudanças, quase numa de: toma, agora é tua responsabilidade. E eu fiquei fascinada. Andei a colocá-lo de divisão em divisão, a ver onde é que ficava melhor, até que decidi que ele precisava de sol e o coloquei ao lado do sofá. Comecei a cortar-lhe as pontas das folhas secas, a lavá-las e a borrifá-lo de água porque estava imenso calor. De repente, começou a ganhar novas folhas e foi como se tivesse a fazer nascer qualquer coisa. Fiquei absolutamente histérica e sei que isto não faz sentido nenhum mas é assim... há uma primeira vez para tudo!

Depois disto fui ao Ikea e comprei três plantas: uma palmeira e duas outras que não faço ideia o que são mas caem pelos vasos abaixo. É a que está pendurada no tecto em cima de mim.


Isto foi o gatilho para toda uma paixão por aquilo que sempre odiei a vida toda: plantas. E foi aqui que fui aprendendo mesmo sozinha. A palmeira do Ikea vinha com fungos (penso que talvez seja normal neste tipo de plantas exóticas) e, mesmo depois de a mudar de vaso e borrifar com spray para bichos de plantas, está a morrer. Neste momento, está nas escadas do prédio porque comecei a pensar que poderia contagiar as outras. A outra não se deu bem na minha casa, replantei-a com cuidado (e com a ajuda da minha mãe) e agora está na cozinha (vejam nas fotos mais abaixo) a ver se sobrevive. E só esta que está em cima de mim realmente cresceu e está linda e enorme (vejam fotos mais abaixo).

Onde comprar boas plantas e material de jardinagem

Como não tive muita sorte no Ikea, fui ver o Jumbo e achei a qualidade e o preço apelativos. Comprei uma Codiaeum (do Brasil, conhecida por ter folhas roxas exóticas e bonitas mas que se dão bem em casa se estiverem ao sol) por 5€ e a mesma planta custa 35€ no Ikea (no futuro partilho se ela se deu bem aqui em casa, ou não). Encontrei também vasos de barro (iguais aos do Ikea) um pouco mais baratos no Jumbo - além de que têm outros modelos, como os redondos (que trouxe para plantar qualquer coisa).

Estive no fim-de-semana a plantar Amores Perfeitos (que podem ser plantados no Outono). Óbvio que não fazia ideia como se plantavam e andei no Google a ver. Estão agora tapados com papel prata até começarem a nascer e só nessa altura (mais ou menos uma semana) podem ser expostos ao sol. Quando já estiverem altos, poderei então mudar para um canteiro mais largo (que ainda não tenho mas já estou a fazer planos hihihi). Comprei também Oxalis mas já em casa é que vi que só podem ser plantados na primavera para dar flor no verão. Voltei a arrumá-los e no próximo ano planto. 

Trouxe também terra natural e um alimento para plantas, uma espécie de vitaminas para regar duas vezes por mês (agora no outono e inverno) e uma vez por semana (na primavera e verão). Também aqui tenho uma série de outras coisas como menta (para fazer chá) e mais sementes para ir plantando quando comprar mais vasos (salsa, coentros, etc podem ver alguns aqui) e para ter na cozinha.

A forma como divido as plantas é simples: na cozinha tenho as que precisam de apanhar muita luz o dia todo para crescer (como a do Ikea que mudei de terra e agora está lá para, ao sol, ver se volta a ganhar força. Podem ver na foto, em baixo, como está pequenina e é uma irmã da que tenho pendurada na sala que, por sua vez, está grande e forte) e a Citrina (que tem de estar numa divisão com muita luz mas sem ser directamente ao sol). E, claro, as plantas que gosto e "roubo" aos vizinhos (e que a minha mãe me incentivou a fazer, atenção): corto um braço e meto em água ao sol. Ao fim de duas ou três semanas deve começar a nascer uma raiz e, nessa altura, pode-se então plantar na terra para começar a nascer a partir daí. Isto é horrível? Acho que não. Os vizinhos nem dão por falta daquele bracinho e é uma espécie de solidariedade na jardinagem.


Quanto aos meus gatos... claro que os gatos ficam absolutamente parvos com as plantas. Andam de volta delas, cheiram-nas e lá vão dando umas trincas aqui e ali. Acho que tive sorte porque eles não mexem na terra, não a tiram dos vasos, nem andam a puxar as plantas. Mas estou constantemente a ralhar com eles quando estão a aparvalhar.




Que outros sítios recomendo para comprar plantas? O Horto do Campo Grande e o Jardim Primavera (na rotunda do Ramalhão, embora a este ainda não tenha ido). Mas no Jumbo acaba por ser mais prático pela variedade de coisas que se encontram - vasos, sementes, adubos, fortificantes, entre tantas outras coisas que ainda nem consegui explorar direito.

O Ikea, por seu lado, tem uma variedade de vasos decorativos interessante (tenho vários) e comprei lá também os bancos de madeira (acho que foram 5€ cada, bastante acessíveis para o seu fim) onde coloquei os vasos (para não estarem no chão ao nivel dos terroristas dos gatos).

Ainda não estou na fase de falar com elas - como toda a gente me diz para fazer - mas hei-de lá chegar :)






Blogging for a Cause: 5 bloggers, 5 instituições e 4 workshops

29 de setembro de 2017


Uma das coisas que mais reforço quer aqui, quer nas minhas redes sociais, é a importância de fazermos qualquer coisa que ajude a melhorar um pouco o mundo em que vivemos. Não faz mal gostarmos de sapatos, mas se pudermos pegar nessa paixão para daí construir qualquer coisa que traga algo de novo, então estamos no caminho certo. Se formos a pensar em todas as mulheres que marcaram a diferença no mundo, todas elas o fizeram com as suas paixões. E o sucesso não é só encontrarmos a cura para o cancro, o sucesso está em todas as infinitas coisas que podemos fazer e que podem, de alguma forma, ter impacto na vida dos outros. Podem ser coisas pequeninas, mas fazer qualquer coisa é o que interessa.

Dito isto, e a pensar na época solidária que está a chegar (o Natal), decidi juntar-me a mais quatro piquenas que, tal como eu, gostam de usar a influência digital para passar mensagens positivas: a Joana do Às Cavalitas do Vento, a Catarina do Joan of July, a Vânia do Lolly Taste (e a história de girl power que leram na semana passada) e a Andreia de blog homónimo - como eu. Mais do que incentivar a comprar cremes, maquilhagem e casacos da Zara, questionámos o que é que podíamos fazer para incentivar as pessoas a, este ano, fazerem algo de diferente. Mas e a quantas pessoas poderíamos chegar? Teríamos de chegar a cem, quinhentas, dez mil para marcarmos a diferença? E que diferença poderíamos fazer?

E chegámos a uma conclusão. Aliás, chegámos a um projecto que andámos a montar nos últimos meses: o BLOGGING FOR A CAUSE.

O que é e o que vai fazer?

Não temos de chegar a dez mil ou vinte ou cinquenta mil pessoas para marcarmos a diferença no mundo. Pensem nisso. Pequenas coisas podem ter um impacto gigante no mundo que nos rodeia.

Posso partilhar que, inicialmente, a nossa ideia era megalómana. Queríamos que fosse algo em grande e não conseguíamos sair da fantasia porque estávamos a escalar a nossa ideia para um propósito que não estava ao nosso alcance. E é importante termos isso em conta sempre que queremos criar qualquer coisa. Não adianta sonhar em grande se depois não saímos do mesmo sítio. Podemos começar de forma modesta. Podemos ajudar cinco pessoas. E se correr bem, passamos para dez. E se correr bem, passamos para vinte. Em cada salto que damos estamos a aprender e a melhorar.

O Blogging for a Cause vai ser então uma tarde cheia de Girl Power no dia 25 de Novembro cujo $ dos bilhetes vai reverter a 100% para cinco associações que trabalham todos os dias para mudar o mundo - a Make a Wish, a UPPA, a Laço, a Associação Alzheimer Portugal e a (minha) Rede Portuguesa de Jovens para a Igualdade de Oportunidades entre Mulheres e Homens
Isso significa que não somos só nós que estamos a ajudar, vocês também o vão poder fazer. 



O que vão poder fazer no dia 25 de Novembro?

Bem, vão poder passar uma tarde divertida cheia de mulheres de power que se quiseram unir a nós e usufruir de 4 workshops que vão enriquecer as vossas vidas - isto tudo enquanto sabem que estão a contribuir para cinco organizações que dependem a 100% de donativos.

E para isto ter realmente impacto em vocês e poderem usufruir dos workshops, percebemos que tínhamos de sair da fantasia e ser realistas: Só vão estar 50 bilhetes à venda.

Eis as 4 mulheres que vão dar um pouco do seu tempo para partilhar os seus conhecimentos:


Podem conhecer o programa todo do Blogging for a Cause: www.bloggingforacause.pt.

Os bilhetes custam 60€ (e o dinheiro vai todo para as organizações) e podem também comprar no site. 

7 razões para irem ao Blogging for a Cause:


  1. Vamos todos ajudar 5 associações, ou seja, o vosso dinheiro vai ter uma finalidade e, no dia, vão conhecer os representantes das associações.
  2. Vão poder conhecer e conviver com mulheres de girl power e que estão a marcar a diferença no mundo. E, acima de tudo, fazer networking, aprender coisas novas com as 4 oradoras e enriquecer a vossa vida.
  3. Os 4 workshops e as 4 oradoras são absolutamente fantásticas!
  4. Pelo preço do bilhete - 60€ - vão ter acesso a quatro workshops (e fora deste evento, um workshop de cada uma das oradoras pode custar mais do que este valor).
  5. Vão estar num sítio absolutamente lindo em Lisboa - o WIP Cowork - que, sem hesitar, quis ceder o seu espaço nesta tarde de girl power.
  6. A Susana Rodrigues, da Bless, vai estar a fotografar o evento e ela tem um talento único para captar pessoas, expressões e rostos de felicidade.
  7. E porque pensámos em tudo, vão haver lanches e snacks deliciosas e saudáveis, oferecidos pelos nossos parceiros: Modern Foodies, Iswari Portugal, Fruut e So Natural.

Qualquer dúvida, podem falar comigo ou falar mesmo pelo email directo do Blogging for a Cause - hello@bloggingforacause.pt

E leiam mais sobre os workshops e sobre as associações no site: www.bloggingforacause.pt 



Escape 2 Win em Lisboa (à prova de claustrofóbicos)

26 de setembro de 2017 Lisboa


Há uns meses, fui a um jogo de Escape Room (e até escrevi aqui) e gostei. E agora fui a outro, desta vez criado pelo Escape2Win que achei mais completo que o primeiro (com mais enigmas e desafios e formas de testar a mente) mas também maior e mais complexo. E tem uma sala de pânico - ahaha não se chama assim, eu é que lhe dei esse nome - mas deixei esse desafio para a Miranda e para a Jackie. Ainda assim, é à prova de claustrofóbicos (como eu) e como tem câmara de filmar não há por onde panicar.

Eu, pessoalmente, gosto deste tipo de jogos porque são muito mentais e colocam à prova a nossa capacidade de agir, de pensar rápido, de perspicácia, criatividade (para procurar pistas e estar de olhos abertos a tudo o que temos à nossa volta) e de criar ligações com as pessoas que estão a jogar connosco. É muito fácil pensar que conseguimos fazer as coisas sozinhos mas não, não conseguimos. E neste tipo de jogos estimulamos a forma de sintonizar as nossas ideias com as das outras pessoas por um objectivo comum: sair da sala.

Nós jogámos o jogo da bomba no edifício do FBI que foi o primeiro criado por eles (uma espécie de teste) focado no terrorismo e, como correu tão bem, agora em Outubro vão ter outro jogo - de um asilo e só o nome já mete medo - que, embora não seja para assustar, tem um clima diferente porque as equipas são divididas, há várias salas e têm que ultrapassar os obstáculos para se conseguirem reunir antes do fim do tempo. Ou seja, há muito suspeeeeeeense.

Conclusão: já quero fazer o novo jogo asap.

Podem ler sobre os jogos da Escape2Win aqui e fazer marcações pelo site (o edifício é na Ajuda). Claro que não tirei muitas fotografias lá ou depois ficavam aqui imagens de pistas e isso não fazia sentido nenhum.

E como nós somos três mulheres extremamente inteligentes, desactivámos a bomba antes do fim do tempo. Yey!



#9 A viagem ao Porto e a irmã do Satanás

25 de setembro de 2017


Deixem-me dizer-vos uma coisa: quando Paula se foi embora, o meu registo laboral pós-traumático já estava praticamente imune a tudo. Mais uma pessoa a ir embora em burnout? Pffff o que era isso... mais uma, menos uma. Já estava quase (mesmo quase) habituada a ver entrar e sair pessoas novas. E eu, pessoalmente, já esperava tudo. Todos os dias eram absolutamente animados. Nunca sabíamos o que raio é que mais podia acontecer. Iria Clarice voltar? Ou a Vera dentes de rato desaparecer? Iria Satanás matá-las às duas? Iria alguém em ódio colocar uma bomba na redacção e morrermos todos? Tanta mas tanta gente odiava aquela parelha (Satanás + Clarice) neste pequeno universo que passávamos metade do nosso tempo a imaginar cenários pouco felizes em que alguém os assassinava ou matavam-se eles uns aos outros. Isto pode parecer meio mórbido, eu sei, mas na altura era bastante espirituoso e dava-nos uma certa paz imaginar que, além de nós, havia realmente mais gente a odiar o Satanás. Gente que nós nem sequer imaginávamos. Começámos a fantasiar que deveríamos escrever um argumento de telenovela para a TVI porque tínhamos todos os ingredientes: amantes, sexo, mulheres, patrões doentes, empresas criminosas, droga, álcool e muita confusão para seis meses de telenovela. Lembro-me de chorarmos a rir com as situações. Quem seria quem? Quem eram os atores que iriam interpretar as nossas personagens. Eu dizia que queria ser a Claudia Vieira. A Carlota dizia que seria a São José Correia porque é sensual. A Alice queria ser a Vitória Guerra porque era loira e angelical como ela. A Maria da recepção que se vestia sempre de preto e usava olhos pintados com eyeliner disse que queria ser interpretada pela Inês Castel-Branco e ter cabelo maluco. Começámos a nomear atores para cada um de nós como se isto fosse a coisa mais hilariante que nos tínhamos lembrado. O Satanás tinha de ser um actor excêntrico e com rosto maléfico como o José Wallenstein. E, acreditem, isto tinha imensa piada - mesmo que agora, de repente, possa parecer meio estúpido e infantil.


Depois dos primeiros dois meses em que Marília tentou medir forças comigo e com Carlota, as coisas finalmente atingiram um pouco de paz quando ela realmente percebeu onde estava enfiada e a quem se devia aliar. Não posso dizer que gostava de Marília na altura. Tinha de trabalhar com ela e, na verdade, sou uma pessoa com uma capacidade de encaixe bastante boa. Ela trabalhava literalmente à minha frente (o meu computador fazia parede com o dela), então só me restava atirar com tudo o que se tinha passado para trás das costas e recomeçar do zero. E dar-lhe até oportunidade de se revelar e mostrar o seu melhor lado. Porque acredito sempre que todos temos vários lados. E, no fundo, eu até compreendia a sua posição. Marília entrou numa redacção que já estava criada há muito tempo para assumir um papel de chefia que, até então, nunca tinha existido. Conseguia entender porque razão tinha entrado a matar. Queria impor uma posição e mostrar a sua superioridade mas, infelizmente, foi pelo lado errado. Mas gosto de pensar que todos temos sempre tempo de nos redimir e voltar a conquistar as pessoas.

Uma manhã chegou uma miúda nova para a moda. Tinha cabelo encaracolado comprido, olhos azuis enormes e disse-nos que tinha estagiado seis meses na Vogue antes de vir aqui parar ao nosso buraco. Lembro-me bem dela porque tinha trabalhado como hospedeira na TAP e contou-nos histórias pitorescas de situações que aconteciam dentro dos aviões e houve uma que me marcou e, até hoje, lembro-me dela como se ma estivessem a contar agora: um passageiro (que já estava doente) que faleceu a bordo e o tiveram de arrastar pelo corredor até ao fim do avião, onde o taparam. Mas na hora da refeição - e porque o corpo tinha ficado ao pé dos tabuleiros - ela teve de estar de pernas abertas em cima do morto a passar tabuleiros para outra pessoa. Na altura isto pareceu-me um terror. Eu que já pouco gosto de aviões, fiz-lhe quinhentas perguntas sobre se os passageiros se tinham apercebido (sim, tinham), onde tinham aterrado (no aeroporto mais próximo que ainda ficava a umas duas horas) e como tinha sido depois (ficaram todos de quarentena no aeroporto).

Passámos a manhã a conversar com ela porque, na verdade, não tínhamos nada para fazer. Satanás não aparecia há uma semana, já tínhamos entregue as nossas ideias de temas para a revista desse mês e, agora, só nos restava esperar que ele desse sinal de vida. Logo aí, a nova miúda ficou de pé atrás porque não entendia porque não se estavam já a preparar as coisas. Não há um tema?, perguntou a uma da moda da altura que, na verdade, já nem me lembro quem era porque já tinham entrado e saído tantas miúdas desde o tempo de Anita e Sofia que já tinha perdido o fio à meada. Como assim um tema?, questionou uma delas. E então entendemos: na Vogue estavam definidos temas para todos os meses e, desde cedo, começava-se logo a trabalhar no tema, a fazer shopping, a buscar peças, a preparar as produções, blá, blá, blá. Pouca atenção prestava a estas dissertações sobre moda porque não me interessavam muito. Partilhámos com ela algumas das coisas que aconteciam - e claro os fins de semana de noitadas a terminar a revista - e ela só dizia que nada disto fazia sentido porque na Vogue assim, na Vogue assado. E ela tinha razão - se tinha... - mas não havia forma de mudar a nossa realidade. Lembro-me de Satanás debitar uma deixa constantemente. Deve tê-la lido em qualquer lado e assumiu-a como life quote ou algo do género: Isto é uma comboio em andamento e nunca para, quem não consegue acompanhar tem de saltar na próxima estação. Ouvi esta lengalenga tantas vezes que passei a odiar comboios. Na hora de almoço fomos todos beber café lá fora e quando voltámos a miúda nova da moda tinha-se ido embora. Nunca mais a voltámos a ver.

A única coisa positiva em ter começado a escrever sobre beleza foi que passei a ter muito contacto fora da redacção e, pela primeira vez, a minha percepção sobre a realidade em que vivíamos alterou-se um pouco. A dada altura fui a um almoço de uma marca qualquer e a rapariga da agência, que tinha mais ou menos a minha idade, e com quem já tinha trocado centenas de emails, sentou-se ao meu lado para conversarmos porque, na verdade, já parecia que nos conhecíamos desde sempre.

     - Então a Clarice, está outra vez desaparecida? - perguntou-me ela depois de ganhar alguma confiança comigo.
     - Parece que sim - respondi. Uma das coisas que vos posso garantir é que tinha um medo absurdo de falar sobre o que quer que fosse fora daquela empresa. Estava sempre à espera de ver Satanás aparecer num canto e desatar a gritar comigo. Mesmo quando estava com amigas e queria contar coisas, alterava nomes e fazia toda uma ginástica mental porque tinha sempre medo de estar alguém ao pé que ouvia, que conhecia, que sabia, que contava. Vivia em pânico constante.
     - Se calhar é desta que morreu - disse, entre gargalhadas.
   - Como assim? - questionei, chocada. Porque estava literalmente chocada que alguém de fora da redacção tivesse este tipo de pensamentos.
    - Ouvi dizer que ela se tinha tentado suicidar. Pena que não conseguiu... - respondeu-me, encolhendo os ombros e continuando a comer o seu pato fumado com uma merda qualquer a acompanhar.

Fiquei chocada. Olhei para ela de olhos muito abertos porque aquele comentários incomodou-me, muito mais do que esperava. Dito por um de nós num momento de fúria depois de receber um email a vermelho e maiúsculas com asneiras era uma coisa, por uma pessoa de fora tornava a situação muito mais bizarra. Mas a rapariga explicou-me que os conhecia aos dois porque tinha trabalhado com a irmã de Satanás que era - espantem-se - igual a ele. Ela é o demónio na terra, disse-me. E eu pensei: não, o demónio é o Satanás. Contou-me que a irmã também tinha tido uma revista qualquer (nunca tinha ouvido falar dela) que só durou um ou dois meses porque não pagavam aos jornalistas, deviam milhares à gráfica e a coisa escalou para tribunal e afins.

     - A dada altura, ela chamou-nos um dia ao gabinete dela para dizer que os ordenados não poderiam ser pagos mas que ela iria resolver a situação - disse-me.
     - E resolveu? - questionei.
     - Não porque depois a revista fechou - riu-se - com ela estava um tipo também da direção que, como quem não quer a coisa, levantou-se e colocou uma arma em cima da mesa.
     - Estás a gozar? - perguntei em choque. O pato fumado já não me entrava mais.
     - Juro - disse ela - eles são completamente doidos. Houve discussão, confusão, ameaças. Eu no dia seguinte já não voltei e nem quis saber do dinheiro que me deviam. Não me queria meter com aquela gente.
     - E depois? - voltei a perguntar - o que aconteceu às outras pessoas?
     - Algumas foram mesmo para tribunal, soube que chegaram a receber o seu dinheiro mas, sei lá, aquilo da arma foi apenas uma ameaça subliminar, entendes? Foi para passar uma mensagem de medo. E comigo funcionou - riu-se.
     - Porra - respondi.

Eu já tinha percebido que Satanás não jogava bem com o baralho todo. Já tinha ouvido história de tribunal, de polícia, de ex-trabalhadores e trinta por uma linha mas... armas? Jesus. Não tive coragem de contar aquilo a ninguém da equipa porque era demasiado assustador e tinha medo que chegasse aos ouvidos do Satanás (por vezes parecia que até as paredes tinham ouvidos) mas atrevi-me a comentar ao telefone com Roberto do marketing - que estava no Porto - que me disse para não me preocupar porque eles ameaçavam muito mas faziam pouco. Tanto Satanás como a irmã eram seres humanos descompensados que a única coisa que tinham conhecido na vida era as ameaças e o poder do dinheiro da família. Têm eles mais medo de nós, que nós deles, disse-me Roberto. O que me aliviou os nervos.

Nesse mês fui ao Porto fazer uma reportagem sobre novos restaurantes que estavam a abrir no Douro e fui conhecer a equipa do Porto. Era basicamente constituída por três mulheres e Roberto que estava lá há uns meses para organizar os clientes do norte. A equipa do norte era apenas responsável pelo departamento de marketing e de publicidade, daí que ninguém na redação de Lisboa os conhecia - a não ser pelo telefone. Numa das noites lá, fui jantar com Inês e Tânia. Elas queriam levar-me a um restaurante típico do Puerto (carago!) e, claro, falar sobre o Satanás, a Clarice e a Vera dentes de rato. Passámos o jantar a cortar na casaca e a rir. Estar com elas - mais velhas que eu e que já trabalhavam há alguns anos ali - era refrescante, principalmente por estarem à distância e verem as coisas com outros olhos. Elas queriam saber tudo o que se passava em Lisboa, as cusquices do dia e os dramas entre as duas mulheres e eu acabei por meter a boca no trombone e desbobinei muitas das coisas que se tinham passado nos últimos tempos - desde a devolução do dinheiro aos pneus furados por engano de Clarice. Passámos a noite a rir. Tânia contou-me que, num fecho de edição, Satanás lhe tinha ligado à meia noite e meia a gritar que ela tinha de ir ao escritório para enviar uma lista de contactos que ele precisava.

     - O que fizeste? - questionei. Conseguia imaginar que os gritos de Satanás ao telefone devessem ser tão assustadores quanto in loco.
     - Ora, eu disse que não - respondeu ela a rir - o meu namorado começou a dizer que, se ele voltasse a ligar, atendia ele.
     - E depois? - perguntei a imaginar como Satanás reagiria caso lhe atendesse o namorado.
     - Ele disse que, se não fosse, escusava de regressar na segunda-feira. E eu disse que estava bem - disse ela - e desliguei. Mas passado uns cinco minutos, ele voltou a ligar e o foi o meu namorado a atender.
    - Oh meu Deus tão bom!! - Inês ria-se à gargalhada.
    - O meu namorado atendeu - contou Tânia - e perguntou quem falava e porque estava a ligar para o telefone da sua namorada aquela hora da noite - elas riam à gargalhada e não conseguiam terminar a história. Por elas rirem, eu própria também não conseguia parar de rir - e foi genial. Ele começou a gaguejar e disse que era engano e desligou - Explodimos em risos.
     - Então mas não foste despedida - constantei, depois dos risos terem acalmado.
   - Claro que não. Na segunda feira voltei ao trabalho como se nada fosse e ele agiu da mesma forma - respondeu.
     - Mas os contactos eram importantes para o fecho da revista? - questionei.
  - Também não. Eram as listas de clientes do norte. Não devia ter nada com que se chatear naquela noite, vocês deviam estar lá presos no escritório e ele lembrou-se de me chatear a mim.

Ver a forma como elas, da equipa do Porto, reagiam aos ataques de fúria de Satanás foi, de certa forma, libertador e até apaziguador. Elas não se preocupavam minimamente com as loucuras dele. Disseram-me que ele era doente e que usava os trabalhadores como saco de boxe. A única coisa que podíamos fazer era ignorar e não reagir. Inês que, tal como Roberto, tinha conhecido Satanás e Clarice enquanto casal e tinham trabalhado todos juntos antes de abrirem esta revista, disse-me que ele era como cão que não morde. Grita, grita, grita porque é a única coisa que pode fazer. E disse-me algo que, até hoje, me ficou na cabeça: Ele não controla nada na vida dele e é um homem que tem medo da própria sombra. Tem medo que a Clarice faça alguma maluquice porque o casamento acabou porque ele quis começar a foder miúdas novas da revista, sente alguma responsabilidade por ela estar maluca e a única coisa constante na sua vida somos nós - os trabalhadores que dependem dele. O único sítio onde ele se sente poderoso é dentro das quatro paredes da empresa que pode controlar como bem entender. Quanto mais ele gritar connosco, mais frustrado está com ele próprio. Sorrir e acenar é o melhor que podes fazer.

Tudo isto me fez sentido. Ele fumava descontroladamente. Irina comprava-lhe dois maços por dia. Tratava-lhe da casa, da roupa, dos medicamentos, das compras e da vida. Ela não era assistente pessoal na empresa. Era assistente pessoal na vida. Uma vez disse-nos que a casa dele fazia eco porque não tinha mobílias. Apenas tinha uma cama no quarto e um sofá e uma televisão na sala. Isto fez-me confusão. Uma pessoa que não tem a casa organizada, dificilmente terá a vida.

Quando voltei do Porto, voltei efectivamente mais feliz. Sentia que tinha recuperado (ou ganhado) alguma força. Até tinha menos medo. Inês disse-me que o meu lugar ali estava assegurado. Que até então, o segmento de beleza era uma miséria e que, mesmo sem saber o que estava a fazer, eu tinha finalmente criado um segmento com algum peso no mercado. Textos bem escritos, temas pertinentes e novidades de beleza relevantes. Com os artigos de beleza a todo o vapor, a publicidade com marcas de cosmética e maquilhagem tinha voltado a subir. Satanás nunca te vai despedir rapariga - disse-me Inês - tornaste-te uma das intocáveis porque ele depende de ti para ter as grandes marcas a pagar.

E, bem, posso garantir-vos que foi o melhor que me podiam ter dito. Se calhar o que a bruxa tinha previsto fazia mesmo sentido. Se calhar podia passar a estar mais descansada. Se calhar viver com medo constante de ser despedida era estúpido. Se calhar, mas só se calhar, isto batia mesmo tudo certo.

O carro que me iria trazer para Lisboa estava reservado para as oito da noite mas, por culpa de Satanás que não pagou o renting, só saí do Porto às onze depois de muitos telefonemas e de me ter dito que não iria pagar mais uma noite num hotel. Esperava-me uma viagem de três horas, estava exausta, tinha sono e só me apetecia espetar o carro contra uma parede para ele ter de o pagar. Estava a sair do Porto quando recebi uma mensagem dele.

    - Já que estás a vir pela auto-estrada, para em todas as estações de serviço e vê quantas revistas estão em cada uma delas.

Ele só podia estar doido se, às onze da noite, eu ia estar a parar em todos os apeadeiros a fazer continhas de revistas. A Vera dente de rato - diretora de marketing como se gostava de assumir - que fizesse esse trabalho. Que pegasse no telefone e ligasse para todas as estações de serviço. Pensei em tudo o que Inês e Tânia me tinham dito. Não podia ter medo dele. Tinha de aprender a dizer que não.

    - Boa noite Satanás, estou exausta, espera-me uma viagem de três horas até Lisboa a conduzir e são onze da noite. Peço desculpa mas não vou parar em todas as bombas porque só quero chegar a casa e descansar.

A resposta dele foi hilariante.

   - Tudo bem. Então amanhã quero-te às nove na empresa para começares a escrever a reportagem dos restaurantes.

Apetecia-me atirar o telefone pela janela. Não! Apetecia-me partir a janela do carro! Apetecia-me mandá-lo para todos os lados. Mas decidi conduzir com calma, manter os olhos abertos, ouvir música alta e pensar sobre isto depois.

Quando cheguei a Lisboa fui deixar o carro do renting à porta da redacção, peguei no meu carro que tinha lá ficado estacionado e fui para casa. Tomei banho, comi uma ceia e deitei-me. Eram quatro da manhã quando me enfiei na cama e decidi enviar uma mensagem a Satanás.

     - Cheguei agora a casa e deixei o carro alugado à porta da empresa. Não estarei lá às nove porque são quatro da manhã e preciso de descansar. Vou tentar chegar na hora de almoço para, pelo menos, dormir sete horas. Espero que compreenda.

Acordei às onze - exausta e a sentir-me como se me tivesse passado um camião por cima - e não tinha nenhuma resposta dele. Pensei que, pelo menos, não me tinha insultado nem mandado para a puta que me pariu como já o tinha ouvido gritar a tanta gente.

E lá fui eu, depois de almoço, para a redacção como se nada fosse. Eventualmente, teria de ser assim que teria de começar a agir perante as atrocidades maldosas que lhe passavam pela cabeça. Quanto mais medo tivesse dele, mais poder ele teria sobre mim.

O que é que aconteceu quando cheguei? Nada. Ele só apareceu às seis da tarde, provavelmente já não se lembrava do que me tinha dito e quando me viu exclamou:

    - Ah, já cá estas. Correu tudo bem no Porto?

Nesse dia acreditei no que toda a gente dizia: as drogas que ele consumia jogavam, afinal, a nosso favor.


26 mil Horas Sem Matar o Patrão é uma crónica life-fiction que retrata o dia-a-dia numa revista. Toda e qualquer semelhança com a realidade é pura coincidência. Todas as segundas-feiras irá sair um novo capítulo.

10 livros para ler aos 30 anos (e que mudam a nossa vida)

21 de setembro de 2017


Há certas alturas na vida em que um bom livro nos pode ajudar a pensar as coisas de forma diferente, a relativizar problemas, a ganhar empatia para com os outros ou até a mudar a nossa própria vida. Às vezes pode ser difícil sair dos nossos próprios sentimentos de medo, tristeza, raiva, frustração ou desamparo quando a nossa realidade nos parece demasiado difícil de ultrapassar. Mas é aí que entram os livros e a sua capacidade de nos darem esperança mesmo quando ela parece estar mesmo lá ao fundo do túnel. Um túnel que tem milhas e milhas de distância.

Pensei em partilhar alguns livros que, de alguma forma, tiveram impacto na minha vida. Talvez vos possam ajudar a ganhar uma redobrada auto-confiança, a voltarem a acreditar no amor, a terem coragem e, acima de tudo, a recuperarem a fé na vida, no futuro, na humanidade.

Optei por não colocar nenhum clássico, por assim dizer, porque são normalmente os livros que são associados quando falamos de "leituras obrigatórias" e eu queria explorar outras coisas.

Histórias de Girl Power #1 A força da Vânia

19 de setembro de 2017

Como este é o primeiro Histórias de Girl Power, quero explicar muito sucintamente o meu projecto. Conheço mulheres bad ass. Que ultrapassaram fases menos boas da vida, que estão a mudar o mundo das pessoas que as rodeiam, que passam mensagens positivas e que são, de maneira geral, mulheres que transmitem girl power. Além disso, também estou sempre a receber mensagens de mulheres que partilham comigo histórias absolutamente incríveis. E este é o lado bom das redes sociais - poder contactar com pessoas que inspiram e nos fazem querer inspirar com elas. Dito isto, comecei a reunir nos últimos meses histórias e a entrevistar mulheres com um ponto em comum: todas elas têm o dom de nos tocar, de nos fazer acreditar em nós, de nos incentivar a perseguir os nossos sonhos (quaisquer que eles sejam) e de nos tornar pessoas melhores. São mulheres com percursos e histórias que mostram o que é o Girl Power, que nos dão força para acreditar em nós. Se com estas histórias conseguirmos mudar nem que seja a vida de uma pessoa, tudo isto já terá valido a pena.

Esta é a primeira história de Girl Power. Conheçam a Vânia.

Troquei imensas mensagens com a Vânia antes de a conhecer efectivamente e pessoalmente. A primeira coisa que fizemos quando nos encontrámos - em frente à praia das Avencas a meio de Julho - foi dar um abraço porque, na verdade, parecia que nos conhecíamos desde sempre. Como se fossemos velhas amigas a encontrar-se para um final de tarde à beira-mar. Mas não. Nunca nos tínhamos conhecido. Mas já tínhamos trocado imensas mensagens e eu já sabia mais ou menos a história da Vânia. Uma história do caraças.

Já não nos apaixonamos como nos anos 90. Porquê?

15 de setembro de 2017

Numa altura em que o drama não era tão julgado como hoje - em que colocamos um like em todos os fins de relações virtuais - as pessoas amavam intensamente. Oh se amavam. Sem medo. Sem vergonha do que os outros iriam pensar. Sem receio de serem filmados ou fotografados e, posteriormente, gozados nas redes sociais. A primeira vez que me apaixonei escrevi longas cartas de amor que, no fim das aulas, colocava no correio dele e rezava para não ser a mãe a abrir. E os beijos que troquei com o irmão de uma colega minha no muro atrás do refeitório sem ninguém ver? E o meu primeiro namorado (por favor, têm de ler a história dele) e os longos telefonemas à noite? Já me tocaram Wonderwall de Oasis à janela do quarto (sendo que eu morava no terceiro andar e meia rua veio à janela ver o que se passava). Um amigo vestiu-se de Axl Rose no carnaval para irmos juntos a uma festa. Outro escreveu numa folha as dez coisas que fariam de mim a namorada ideal (nunca chegámos a ser namorados mas guardei essa folha até hoje). Um rapaz que conheci um verão ofereceu-me papoilas vermelhas e um perfume Kenzo por ter... papoilas (que eu adorava). Sempre que cheiro Kenzo, lembro-me dele. Chamava-se Rafa e nem sequer sei o apelido para o poder pesquisar nas redes sociais. Portanto, tornou-se apenas uma memória bonita.

Naquela altura não havia chats, nem likes, nem fotografias, nem Facebook, nem email, nem skype e a única forma que tínhamos de mostrar que gostávamos de alguém era através daquele gesto velhinho e estranho, sabem? Chamado: demonstrar. Tínhamos que demonstrar. E tínhamos que ter cojones. Romântico não é? Então porque é que não continuamos a amar como nos anos 90? Porque é que continuamos a gostar de homens que estão três dias para nos responder a um Whatsapp quando, nos anos 90, trocávamos números de telefone de casa em papéis e, ainda assim, conseguíamos ter a habilidade de conversar todas as noites?

Cuidados de pele no pós-verão dentro do budget

13 de setembro de 2017


Há uns anos, quando ainda era meio adolescente - ok há uns 10 anos -, os cuidados com o sol não eram tãããão falados assim. Lembro-me de ir para a praia e nem sequer levar protetor (colocava em casa) porque não havia a obsessão com os raios UV. Mas também me lembro de ter apanhado um escaldão no peito num dia em que troquei de bikini (antigamente também não tínhamos 10 fatos-de-banho por estação. Se tivéssemos dois já era bom) e tive de ir ao hospital porque o meu peito de lado (a zona que fica de fora quando usamos bikinis de triângulo) não ficou vermelho. Ficou roxo.

Porque tomo suplementos (a minha experiência pessoal)

12 de setembro de 2017

Já li (e eu própria já escrevi) tanto sobre suplementos - os prós, os contras, tomar, não tomar, fazem bem, não fazem bem - que este é um tema bastante complexo e sobre o qual vou escrever a título pessoal (e sem qualquer base científica ou explicações de profissionais), apenas para ajudar e passar uma experiência positiva para quem tem dúvidas, quem quer começar, quem tem medo... eu entendo, também já passei por isso.

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