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  • Helena Magalhães

Happn: como perder uma mulher (não numa foto) numa frase


Na passagem de ano, umas amigas convenceram-me a instalar a aplicação. Na verdade, eu já a tinha instalado uma vez porque adoro testar e navegar nestas novas modernices que estão a destruir a fé no amor e nas relações. Só nunca consigo é passar lá muito tempo. E elas – mulheres inteligentes, bonitas e interessantes – garantiram-me que tinham conhecido alguns tipos engraçados.

Mas engraçados para dar continuidade à coisa tipo o amor está ao virar da aplicação?, perguntei. Mas não. Engraçados mais para dar umas voltas, disseram. E eu, bem, eu não sou uma mulher de dar umas voltas – por mais que gostasse de o ser. De certeza que me divertiria muito mais. Mas eu sou totalmente o oposto disso. Não tenho paciência para conversas virtuais e tenho uma leve intolerância a este tipo de amores digitais que são descartáveis, ocos e pouco profundos. Ninguém vai dar muito de si porque há uma lista infinita de outras pessoas disponíveis, sim, ali ao virar da aplicação.

Mesmo assim, fiz um match com o Pedrinho por insistência delas – e ele não tinha uma frase de perfil de ler e chorar para não ler mais. A conversa foi qualquer coisa assim: Olá, tudo bem? O que fazes? Onde gostas de ir? Queres encontrar-te? Pode ser na hora de almoço? Ao que eu respondi que não. Durante três dias seguidos, ele perguntou-me se queria ir ter com ele a três cafés diferentes, sempre às 13h45. Ao quarto dia, eu disse que cafés comigo tinham de ser uma coisa bem combinada e, quiçá, ao final do dia após o trabalho. O Pedrinho teve de ser honesto. Está numa relação e só pode ser à hora de almoço. O que é que ele esperava que ia acontecer das 13h45 às 14h45? Íamos para a casa-de-banho de um qualquer café em Lisboa?



RIP namorada do Pedrinho que, coitada, nem imagina que o namorado anda a combinar cafés com happy ending na hora de almoço.

Queridos homens do Happn: não nos matem o interesse só com uma frase

Mas uma coisa que reparei e que, à medida que ia andando pela aplicação, se foi tornando óbvia, é a capacidade que os homens têm de simplesmente matar o interesse de uma mulher que, se não morrer com as suas fotos de perfil estúpidas (como os do Tinder), morre imediatamente com a sua breve descrição de perfil – escrita por eles, sei lá, num momento de debilidade mental.

Então, reuni algumas das frases mais turnoff que li durante estas duas semanas, não para gozar (ok, só um bocadinho), mas para alertar os homens leitores que procuram um pouquinho de amor virtual a simplesmente não escreverem mais nada. O silêncio é a alma do negócio. Ou o mistério… Assim, quando uma mulher descobrir as vossas verborreias, pelo menos, que já vos tenha conhecido pessoalmente.

Eis o que se pode encontrar no Happn:

Vasco. Se calhar está a por as expectativas bem lá em cima e, depois, saímos defraudadas


Sérgio. Limpador de chaminés durante o dia, aberto a relações sexuais durante a noite


 Mário. Não entendo se isto é ego ou só uma frase à la Casa dos Segredos


Ricardo. Foreign people drop a hello. Adele?


O Elton, pelo menos, não pede muito. É aquela que aparecer… 


Bruno. Como se o “let’s crush one another” não fosse estúpido, ele decidiu traduzir… Vamos crushar?


Paolo. Se não fosse italiano, diria que estava a citar Marco Paulo com as boas maneiras


Luís. Gosta de temas fraturantes. Que é como quem diz, não faz ideia do que dizer


César. E se tu não fores como as fotos, podemos bater-te até pareceres menos idiota?


Rui. Nos tempos livres faz macumba com o professor Ximamá


Tiago. Não procura dormir nem uma noite, nem duas, nem três. É como o Enrique iglesias que só quer bailar


Pedro. Casado. É isto.


Paulo. Quem quezer saber é só fazer amizade. Bora lá, eu quezo.


Sérgio. Procura conhecer novos conhecimentos. Devia estar na biblioteca, então… 


Ricardo. Está relutante em ter filhos e não começa a conversa. Então o que é que faz se não fala nem f*de?


Hugo. Está a ver as montras. Que sexy


João. Já nos está a chamar vacas e ainda não nos conhece


Eloi. Pede bebida e comida. Tem de ouvir a J-Lo: I ain’t your mama.


João Pedro. Deixa já um testamento virtual não vá o Diabo (lá de cima, o do Prof. Ximamá) tecê-las


Marco. Axa que nada tem a dizer. Mas não se paga mais por trocar os “x” por “ch”


Pedro. Conselho para a vida: não uses photoshop nas palavras


Nélson. Não entendo o que é que ele quer com as moedas… 


Maneu. Nunca misturar clamídia e sexy na mesma frase


Paulo. Prefere viver como um rei. Isso significa comer miúdas até morrer?


Nuno. Smoker and drinker. Todos os requisitos que uma mulher procura


Charles. Solteiro, carinhoso, amigo, educado e sincero? É uma pergunta?


À falta de melhores palavras, mais vale não escreverem nada. Gostava de conhecer, a sério que gostava, quem são as mulheres que lêem isto e ficam interessadas. E quanto ao Pedrinho, estive quase para marcar um encontro com ele às 13h45 e aparecer com as minhas amigas para o envergonhar em público. Mas, enfim, não merece sequer o trabalho que iríamos ter para isso…

Provavelmente vai continuar a navegar nestas aplicações a enganar a namorada, a ser uma merda de homem e a tornar estas novas formas de encontrar o amor uma ferramenta infeliz que, ao invés de aproximar as pessoas, apenas veio tornar as relações ainda mais frágeis e frívolas.

O meu conselho? Saiam de casa, abordem as pessoas na rua, falem, toquem, beijem, tenham cojones para dar o primeiro passo, não tenham vergonha de falar com uma mulher (e homem que isto também se aplica às mulheres) que acharam bonita. Sejam mágicos. Sejam interessantes. Sejam homens. E mulheres.

Por favor.

(fotografia tirada do site do Happn)

#OAmoréOutraCoisa